'Peludos' e 'fofinhos': por que as big techs querem transformar agentes de IA em Labubus
Movimentos recentes da Meta com o Muse e a OpenAI, com os Dots, mostram outra face de uma tecnologia bombardeada recentemente por ondas de desconfiança e ceticismo


Luiz Gustavo Pacete
Consultor de Projetos Especiais
Publicado em 9 de outubro de 2026 às 11:35.
RESUMO +
As gigantes de tecnologia Meta e OpenAI lançaram, nas últimas semanas, os agentes de IA Muse e Dots, enquanto a plataforma Grok apresentou o Grok Bot em agosto. Com visual fofo comparado aos Labubus, os sistemas prometem agir de forma autônoma em tarefas como responder e-mails, enviar faturas, reservar voos e comprar roupas.
Na era das trends, os Labubus, bichinhos de pelúcia fofinhos e, para algumas pessoas, estranhos, tornaram-se símbolo de um comportamento. Criados pelo artista e designer Kasing Lung, nascido em Hong Kong, eles viveram uma fama avassaladora, chegando a ser vendidos por preços elevados em edições limitadas e desenvolvendo parcerias com marcas famosas até experimentarem um período de ostracismo.
Nesse universo desenvolvido por Lung, o nome Labubu não carrega um significado literal, mas foi inventado com uma sonoridade lúdica e infantil justamente para traduzir a essência de uma criatura que mistura traços fofos com uma personalidade travessa, caótica e levemente diabólica.
Recentemente, a mídia internacional começou a comparar os novos agentes de IA de gigantes da tecnologia com os Labubus do mundo físico. Nas últimas semanas, a Meta lançou seu assistente pessoal de IA, Muse, ao passo que a OpenAI introduziu seu agente de IA, Dots, e, em agosto, a plataforma Grok já havia apresentado ao mercado o Grok Bot. Em todos eles, destaca-se a promessa de que possam agir de forma autônoma em nome dos usuários, desde responder e-mails e enviar faturas até reservar voos e comprar roupas, materializando de forma lúdica as funcionalidades de uma inteligência artificial.
Antropomorfismo e a "simpatia" das máquinas
O que mais chama a atenção nessa dinâmica é a sua apresentação com uma camada que transforma bots funcionais em criaturas fofas e, aparentemente, inofensivas. Os Dots possuem bolhas rechonchudas em cores de arco-íris usando óculos de sol e boinas, enquanto o mascote do Muse, batizado de Jolly, exibe-se como uma criatura peluda, rechonchuda e de bochechas rosadas que, nos últimos dias, inundou o feed de milhões de usuários do Instagram. Por sua vez, o Grok Bot apresenta uma estética mais contida, porém com olhos que remetem a um pet pidão.

"Eles (Dots) foram criados para quase qualquer tarefa que possamos imaginar no dia a dia", disse Sam Altman, CEO da OpenAI
Inclusive, eles não se restringem ao mundo digital. O Muse, por exemplo, vai ganhar uma versão física, que lembra um Tamagotchi com o rosto do Jolly e que poderá ser ativado via sensor. "Incluímos muita tecnologia neste pequeno dispositivo para que ele caiba em um chaveiro e esteja sempre disponível para conversar", disse Mark Zuckerberg em seu discurso de abertura na conferência anual Meta Connect, em setembro. Mesmo caminho que podem seguir os Dots, de acordo com Sam Altman, CEO da OpenAI.
Essa prática não é nova nem no marketing e nem na tecnologia, e se baseia no antropomorfismo, um conceito que atribui características, emoções, comportamentos ou formas humanas a seres não humanos, como animais, deuses, objetos ou elementos da natureza. Existe um outro elemento atual que reforça essa estética: o conceito japonês de kawaii, que celebra a estética do fofo, inocente e amigável, tendo encontrado na tecnologia uma ferramenta para suavizar a interação humana com máquinas frias e complexas.
Na história recente, dois exemplos ilustram bem essa abordagem: o Tamagotchi e o Clippy. Enquanto o Tamagotchi, também conhecido no Brasil como bichinho virtual, conquistou gerações nos anos 90 ao transformar simples linhas de código em um bichinho que exigia carinho e cuidado dentro de um pequeno ovo de plástico colorido. A Microsoft tentou humanizar a automação de escritório com o Clippy, um clipe de papel animado com grandes olhos expressivos que mediava a relação com o usuário em softwares de edição.

Ao apresentar seu bot, na semana passada, Mark Zuckerberg descreveu o Muse como "o primeiro agente de IA pessoal do mundo construído para todo mundo" (Crédito: Getty Images)
O impacto psicológico do design fofo e humanizado na interação humano-computador tem sido amplamente pesquisado por áreas como a psicologia cognitiva e a interação humano-computador. Um estudo clássico do Journal of Experimental Psychology ("Almost human: Anthropomorphism increases trust resilience in cognitive agents") demonstrou exatamente como elementos de antropomorfismo e design amigável criam o que os pesquisadores chamam de resiliência de confiança.
A pesquisa comprovou que, quando agentes tecnológicos possuem traços visuais ou comportamentais humanizados e cativantes, os usuários tendem a perdoar falhas técnicas com muito mais facilidade, o equivalente a baixar a guarda. Enquanto softwares puramente utilitários ou industriais sofrem rejeição imediata ao menor sinal de erro, interfaces com apelo emocional geram uma tolerância maior, pois o usuário passa a enxergar a ferramenta menos como um código falho e mais como um parceiro digno de compreensão.
Quando a trend influencia a interface
Essa dinâmica também é explorada em estudos recentes sobre a estética kawaii e assistentes virtuais, como pesquisas publicadas na Frontiers in Psychology, que apontam que a fofura reduz a percepção inicial de risco técnico, estimula o engajamento e desarma a desconfiança natural do consumidor diante de sistemas complexos baseados em inteligência artificial. Neste momento, em que a inteligência artificial generativa vive uma onda de ceticismo e desconfiança pelo potencial nocivo que possa ter, essas criaturas cumprem um segundo papel, humanizar tecnologias que, até então conhecíamos por siglas e números.
Eles também reforçam uma tarefa desafiadora na guerra das IAs, a busca pela atenção e a preferência dos usuários. Para sustentar essa corrida e colocar essas "criaturas" no bolso de centenas de milhões de usuários, a escala de investimento e as projeções alcançaram patamares históricos: enquanto a Meta direciona um volume massivo de investimentos em infraestrutura com projeções que giram entre US$ 130 bilhões e US$ 145 bilhões para escalar seus assistentes nativos nas redes sociais, a OpenAI consolida sua expansão impulsionada por rodadas históricas de captação que elevaram sua avaliação privada a patamares superiores a US$ 850 bilhões com aportes de capital que ultrapassaram a marca de US$ 122 bilhões.
Curva de adoção de IA
Para Fabiana Raulino, professora-doutora em inteligência artificial da PUC-SP, o timing dessa mudança estética talvez seja mais importante do que os próprios personagens. "As Big Techs estão tentando ampliar a adoção de uma geração de IAs que não quer apenas conversar conosco, mas acessar serviços, interpretar preferências e executar ações em nosso nome. Para isso, precisam resolver um problema que já não é somente tecnológico: precisam vender confiança. A linguagem da fofura ajuda porque retira a IA do imaginário da máquina ameaçadora e a aproxima do universo do cuidado, da assistência e da companhia. Depois de anos vendendo inteligência, velocidade e capacidade, as empresas agora precisam convencer o público de que sistemas cada vez mais autônomos também são seguros, previsíveis e dignos de confiança."

Segundo a pesquisadora, enquanto a IA permanecia confinada à caixa de texto, bastava demonstrar que ela sabia responder, "agora, quando passa a comprar, reservar, enviar, escolher e operar sistemas em nosso nome, surge outra exigência: precisamos confiar nela e confiança é uma experiência muito menos racional do que gostamos de admitir". Diante dos questionamentos recentes sobre a ameaça de uma superinteligência artificial, Fabi explica que a linguagem da fofura ajuda porque retira a IA do imaginário da máquina ameaçadora e a aproxima do universo do cuidado, da assistência e da companhia.
'Perguntas frequentes'
Por que Muse, Dots e Grok Bot são comparados aos Labubus? +
Muse, Dots e Grok Bot são comparados aos Labubus porque transformam agentes de IA funcionais em criaturas fofas, lúdicas e aparentemente inofensivas. Os personagens usam traços humanizados para aproximar tecnologias complexas do universo da assistência e da companhia.
O que os novos agentes de IA prometem fazer? +
Os agentes de IA prometem agir de forma autônoma em nome dos usuários. Entre as tarefas citadas estão responder e-mails, enviar faturas, reservar voos e comprar roupas.
Como o design fofo influencia a confiança nos agentes de IA? +
O design fofo e humanizado pode aumentar a tolerância dos usuários a falhas técnicas, segundo um estudo do Journal of Experimental Psychology. Pesquisas publicadas na Frontiers in Psychology também apontam que a estética kawaii reduz a percepção inicial de risco e estimula o engajamento.
O assistente de IA Muse terá uma versão física? +
Sim, o Muse terá uma versão física semelhante a um Tamagotchi, com o rosto do mascote Jolly e ativação por sensor. Segundo Mark Zuckerberg, a Meta reuniu a tecnologia em um pequeno dispositivo que pode ser preso a um chaveiro e permanecer disponível para conversas.
Por que as empresas de tecnologia adotaram personagens fofos para seus agentes de IA? +
As empresas precisam ampliar a confiança em sistemas capazes de acessar serviços, interpretar preferências e executar ações, afirma Fabiana Raulino, professora-doutora em inteligência artificial da PUC-SP. Segundo a pesquisadora, a linguagem da fofura afasta a imagem de uma máquina ameaçadora e aproxima a IA do cuidado, da assistência e da companhia.
Quanto Meta e OpenAI investem na expansão da inteligência artificial? +
A Meta projeta investimentos entre US$ 130 bilhões e US$ 145 bilhões em infraestrutura para ampliar seus assistentes nas redes sociais. A OpenAI alcançou avaliação privada superior a US$ 850 bilhões após aportes que ultrapassaram US$ 122 bilhões.
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Luiz Gustavo Pacete
Consultor de Projetos EspeciaisPacete é jornalista, LinkedIn Top Voices, curador de marketing, tecnologia e inovação do Rio2C e SP2B, além de Consultor de Inovação, Conteúdo e Projetos Especiais da Exame.
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