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Um estudo da Ember mostra que a a frota global eletrificada já evita o consumo de 1,7 milhão de barris de petróleo por dia (Jasmin Merdan/Getty Images)
Repórter de ESG
Publicado em 25 de março de 2026 às 13h00.
Última atualização em 25 de março de 2026 às 14h52.
Um mês após os primeiros ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, o mercado global de energia vive um choque histórico que pode marcar uma inflexão na transição energética.
A escalada do conflito, ao mesmo tempo em que eleva o preço do petróleo e expõe a dependência global do combustível fóssil, também acelera investimentos em alternativas mais sustentáveis.
Se por um lado países e governos redescobriram sua vulnerabilidade diante do bloqueio do Estreito de Ormuz, investidores estão destinando dezenas de bilhões de dólares para fabricantes de baterias, tecnologia chave para o armazenamento de energia.
A segurança energética, cada vez mais, passa por reduzir a exposição a fósseis poluentes e ampliar o uso de fontes limpas e tecnologias associadas.
A resposta do mercado veio rápida e em uma direção clara que não era esperada. Segundo o Financial Times, as ações das chinesas CATL, Sungrow e BYD subiram entre 19% e 22% desde o início do conflito, acumulando US$ 70 bilhões em valor de mercado. O desempenho é superior ao das grandes petroleiras BP, Chevron, Shell e ExxonMobil, mesmo com o petróleo em alta de 47%, em um "sinal verde" rumo à transição no setor de energia.
O movimento revela onde está o principal gargalo da nova matriz energética. A expansão de fontes renováveis como solar e eólica já avançou de forma consistente, mas a limitação agora está na capacidade de garantir fornecimento contínuo e resolver a intermitência se torna prioridade.
É nesse contexto que as baterias ganham protagonismo. Os sistemas de armazenamento conhecidos como BESS permitem capturar energia quando há excesso na rede e liberá-la nos momentos de maior demanda, reduzindo a necessidade de recorrer a fósseis como as térmicas para equilibrar o sistema.
“O sistema elétrico vem sofrendo instabilidades, é uma necessidade colocada na mesa e que precisa ser resolvida. As baterias são o verdadeiro canivete suíço de soluções”, afirma Manfred Peter Johann, vice-presidente da WEG, em entrevista recente à EXAME.
A corrida por essa tecnologia está em curso no Brasil e a WEG prepara a construção da mais moderna fábrica de sistemas de armazenamento de energia em baterias do país, mirando um mercado ainda incipiente, mas que deve ganhar escala com o primeiro leilão nacional do setor previsto para junho.
A disputa tende a atrair tanto fabricantes locais quanto gigantes globais como Tesla, CATL, BYD e Huawei.
Ao mesmo tempo em que as baterias avançam para resolver o lado da oferta, outra frente da transição ganha escala ao reduzir diretamente a demanda por petróleo: os veículos elétricos.
Um estudo divulgado pela Ember mostra que a frota global eletrificada já evita o consumo de 1,7 milhão de barris de petróleo por dia. O volume se aproxima dos 2,4 milhões de barris que o Irã exporta diariamente pelo Estreito de Ormuz, epicentro da crise atual.
Na prática, especialistas acreditam que a eletrificação do transporte começa a neutralizar parte relevante da dependência global petrolífera.
Segundo a Ember, substituir o gás e petróleo no transporte por veículos elétricos pode reduzir em um terço as importações globais de combustíveis fósseis, com economia potencial de US$ 600 bilhões por ano.
A China já poupa mais de US$ 28 bilhões anuais com importações evitadas, enquanto Europa e Índia também começam a registrar ganhos relevantes.
Neste cenário, a transição deixa de ser apenas uma agenda ambiental e passa a ocupar o centro das estratégias econômicas e de segurança energética.
O avanço também se reflete na geografia do mercado. Hoje, 39 países têm participação de veículos elétricos acima de 10% nas vendas, ante apenas quatro em 2019, e o crescimento já não está restrito às economias desenvolvidas.
Vietnã, Tailândia e Indonésia superam os Estados Unidos nesse ranking. O Brasil, com 9%, também avança e já está à frente do Japão. A China ultrapassou 50% das vendas em 2025, consolidando a mudança de escala.
Em solo brasileiro, a expansão começa a ganhar forma também na infraestrutura elétrica. A gigante chinesa BYD anunciou a implantação de 125 carregadores rápidos e planeja chegar a 1.000 até 2027, com tecnologia capaz de reduzir significativamente o tempo de recarga. Desde o início das operações, a rede já evitou a emissão de mais de 8,1 mil toneladas de CO₂.
O Brasil entra nesse mercado com uma vantagem relevante: a matriz elétrica é uma das mais limpas do mundo, com cerca de 88% da geração proveniente de fontes renováveis. Ao mesmo tempo, enfrenta um desafio: o desencontro entre geração e consumo, justamente o que as baterias podem solucionar.
Não à toa as expectativas são altas para o primeiro leilão de sistemas de armazenamento em baterias, com cerca de 2 GW de capacidade e R$ 10 bilhões em investimentos previstos.
Com um sistema interligado de escala continental e alta participação de renováveis, o país reúne condições para expandir rapidamente o uso de armazenamento e estimativas do setor apontam potencial de até 20 GW até 2035.
No pano de fundo, a guerra no Oriente Médio reforça uma mudança de paradigma: o petróleo continua relevante, mas passa a ser visto cada vez mais como um fator de risco econômico e geopolítico.
Diferentemente de crises anteriores, desta vez a resposta não se limita a buscar novos fornecedores. A alternativa está na aceleração da transição energética, com veículos elétricos ganhando escala e baterias resolvendo limitações técnicas, e o caminho para reduzir a dependência de combustíveis fósseis ganha força.