Freeman, o anti-Friedman, está otimista com o futuro das empresas

“Se você começa o dia de trabalho e não pensa em fazer algo que melhore a vida do seu filho, não é ambicioso”, afirma o criador da teoria do stakeholder

“Se Milton Friedman estivesse vivo, hoje ele seria a favor da teoria do stakeholder”, afirmou, em 2009, R. Edward Freeman, professor da Darden School, escola de negócios da Universidade da Virgínia, nos Estados Unidos. O influente Friedman, principal nome da famosa “Escola de Chicago” e Prêmio Nobel de economia em 1976, é quem cunhou a expressão “as empresas existem para dar retorno aos seus acionistas”, ideia publicada em um artigo no The New York Times, há 50 anos. 

Freeman, filósofo e professor de ética e negócios, é considerado o anti-Friedman. Em 1984, ele publicou o livro “Strategic Management: A Stakeholder Approach”, que lançou da ideia de que as empresas existem para dar retorno a todas as partes interessadas (stakeholder) e não apenas ao acionista, como defendia Friedman. Nem de longe, sua teoria foi capaz de antagonizar com os pensamentos do economista da Universidade de Chicago. O conceito de lucro em primeiro lugar dominou a ciência da administração de empresas nas últimas 5 décadas. 

Essa dominância de Friedman, no entanto, parece ter ficado para trás. 

No ano passado, algo mudou no mundo corporativo. Em agosto, o The Business Roundtable, grupo que reúne 150 CEOs das maiores empresas americanas, declarou, em carta aberta, o fim do reinado do retorno ao acionista como propósito das companhias. O shareholder (acionista) deu lugar ao stakeholder. Depois de tantos anos em segundo plano, a teoria de Freeman ganhava os holofotes.  

Mas, afinal, Friedman estava errado? “Milton Friedman é um dos meus heróis”, afirma Freeman. “Na realidade, ele nunca falou em lucro a qualquer custo. Mesmo quando apontou a importância do retorno ao acionista, condicionou essa postura a uma atuação ética.”

O professor participou de uma live, nesta segunda-feira, organizada pela Humanizadas, startup criada dentro da USP de São Carlos que desenvolveu uma metodologia de avaliação de empresas a partir da teoria dos stakeholders. “É impressionante que ele tenha pensado nisso em 1984, quando ninguém questionava Friedman”, afirma Pedro Paro, fundador da Humanizadas. 

Atualmente, questionar a doutrina do expoente de Chicago se tornou uma espécie de passatempo dos líderes empresariais. No último Fórum Econômico Mundial, realizado na cidade suíça de Davos, em janeiro, o tema “como criar empresas que geram valor para toda a sociedade” dominou os debates. Com a pandemia, essa agenda se intensificou. O papel social das empresas nunca esteve tão em evidência. 

Para Freeman, o momento é de otimismo, apesar da pandemia. “Não tenho tempo para ser pessimista”, diz o professor. “As pessoas pensam que a economia de stakeholder só funciona a longo prazo. Ok, mas, em algum momento, é preciso ter resultado no curto prazo. Hoje, se você começa o dia de trabalho e não pensa em fazer algo que melhore a vida do seu filho, não está sendo ambicioso o suficiente.” 

Gerar valor para toda sociedade, ao que parece, é o novo normal do capitalismo.

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