ESG

Era dos extremos: eventos climáticos intensos serão mais frequentes no Brasil

Em 2023, o país teve 1.161 desastres naturais, mais de três por dia, em média; é um recorde desde o início dos registros, em 2011, segundo o Cemaden

Extremos: em 2023, chuvas extremas causaram pelo menos 132 mortes; no RS, óbitos já passam de 100 (Ricardo Stuckert/Presidência da República/Divulgação)

Extremos: em 2023, chuvas extremas causaram pelo menos 132 mortes; no RS, óbitos já passam de 100 (Ricardo Stuckert/Presidência da República/Divulgação)

AFP
AFP

Agência de notícias

Publicado em 9 de maio de 2024 às 14h38.

Enchentes históricas, incêndios florestais recordes, ondas de calor sem precedentes, secas: os eventos extremos se multiplicam e se tornarão mais frequentes no Brasil, alertam os especialistas. 

O pior desastre climático da história do Rio Grande do Sul deixou mais de 100 mortos e devastou a economia desse estado agrícola, que levará meses ou inclusive anos para se recuperar, segundo as autoridades, que falam da necessidade de um "plano Marshall" de reconstrução.

Outras tragédias atingiram o Brasil recentemente. No ano passado, o país registrou 1.161 desastres naturais, mais de três por dia, em média. É um recorde desde que os registros começaram em 2011, segundo o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

A própria geografia brasileira explica em parte esta vulnerabilidade, com regiões que inundam no sul e outras que sofrem repetidos períodos de seca, como a região semiárida no leste. O fenômeno natural do El Niño também tem impacto.

Mas devido ao aquecimento progressivo do planeta, os eventos extremos ou raros "estão cada vez mais frequentes e mais extremos e é de esperar que isto continue", disse à AFP José Marengo, coordenador de pesquisa do Cemaden.

Previsões ignoradas

"As mudanças climáticas não estão mais sob discussão em uma pesquisa científica. Elas saíram dos livros e viraram realidade", disse à AFP Marcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima, que é composto por mais de uma centena de organizações ambientalistas e de pesquisa.

As chuvas extremas no Brasil no ano passado causaram pelo menos 132 mortes e mais de 9 mil feridos, enquanto cerca de 74 mil pessoas perderam suas casas, segundo o Cemaden. Os danos materiais foram estimados em mais de R$ 5 bilhões.

No Rio Grande do Sul, o balanço provavelmente será pior do que em todo o ano de 2023: o saldo preliminar das enchentes informa 107 mortos e 136 desaparecidos. O número de afetados e os prejuízos econômicos ainda são incalculáveis. Nos últimos anos, as enchentes atingiram também a cidade do Recife e os estados de Minas Gerais e Bahia.

Essas chuvas extremas no sul da América do Sul têm sido uma previsão recorrente dos modelos climáticos há décadas, segundo o Observatório, e esta informação é "ignorada pelos sucessivos governos estaduais", lamentou Suely Araújo, coordenadora de políticas públicas da plataforma. "Enquanto não se entender a relevância da adaptação, essas tragédias vão continuar acontecendo, cada vez piores e mais frequentes", frisou.

Incêndios e desmatamento

As emissões de dióxido de carbono para o meio ambiente são as principais responsáveis pelo aquecimento global. A redução das florestas devido ao desmatamento para expansão das atividades agrícolas reduz a capacidade de absorção desses gases de efeito estufa (GEE). Mas o fogo continua gerando estragos. Entre janeiro e abril, foram registrados mais de 17 mil incêndios florestais, mais da metade deles na região amazônica, onde aumentaram 153% em um ano, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). A Amazônia, a maior floresta tropical do planeta, também sofreu uma seca histórica no ano passado.

Um dado positivo: em seu primeiro ano de mandato, em 2023, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva reduziu pela metade o desmatamento na Amazônia, depois de ter disparado durante a gestão de seu antecessor, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Trabalhar todo o tempo

Marengo acredita que para evitar novas tragédias como a do Rio Grande do Sul, a população e os governos devem primeiro levar a sério os alertas. "Como não temos como parar as chuvas, devemos nos preparar antecipando os desastres associados, para que as populações não construam cenários de risco e para que os governos trabalhem o tempo todo, porque devemos estar sempre preparados para os desastres, não apenas quando eles acontecem", explicou.

Astrini defende a implementação de um plano de resposta antecipada para as áreas mais vulneráveis do país, mas considerou que "estamos muito longe disso". Ele mencionou a falta de orçamento para políticas de prevenção, a aprovação de leis que incentivam a crescente ocupação de áreas de risco pela população e o desmatamento.

As mudanças climáticas "trazem prejuízos tanto sociais, as pessoas que morrem e que perdem tudo, quanto prejuízos econômicos", lamentou Astrini.

Acompanhe tudo sobre:Mudanças climáticasEmissões de CO2ChuvasSecasAmazôniaEnchentes no RS

Mais de ESG

Planeta: será preciso quadruplicar remoção de CO2 até 2050 para tentar limitar aquecimento

Espécies ameaçadas de extinção se escondem em áreas marinhas protegidas, aponta relatório

IoT e suas aplicações ESG: evento debate o potencial socioambiental da internet das coisas

Projeto de reflorestamento da Heineken com a SOS Mata Atlântica aumenta em 20% volume de água em Itu

Mais na Exame