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Transmissão de energia: ventos podem resfriar condutores e ampliar o uso seguro da infraestrutura existente.
Colunista
Publicado em 3 de julho de 2026 às 14h00.
Em 4 de março de 2026, a PJM Interconnection, instituição que gerencia a maior rede de transmissão de energia elétrica dos Estados Unidos, tornou-se o primeiro operador regional a implementar o Ambient-Adjusted Rating (AAR). A tecnologia permite calcular a cada hora a capacidade segura de transporte de energia das linhas de transmissão da região considerando a temperatura ambiente do momento.
Os operadores das redes utilizam usualmente limites de capacidade das linhas pré-fixados e conservadores, calculados “a priori” considerando condições de temperatura e vento adversas. Desta forma, a maior parte do tempo a linha trabalha com folga, e seria possível passar mais energia pela linha ao considerar uma condição de temperatura mais amena ou períodos com vento. A implementação de tecnologias como o AAR e o Dynamic Line Rating (DLR) moderniza essa operação, ao permitir que a capacidade da rede seja ajustada de forma dinâmica e contínua, considerando as condições meteorológicas em tempo real. O AAR atualiza esses limites com base na temperatura ambiente, enquanto o DLR é mais sofisticado e utiliza sensores em campo para monitorar em tempo real temperatura, vento e radiação solar.
Os grandes benefícios desta mudança incluem a redução das restrições e congestionamentos de rede e a otimização da estrutura existente, o que evita ou adia a necessidade de construção de novas linhas. Além de diminuir os custos, essas tecnologias são fundamentais para a transição energética: elas reduzem o desperdício de energia renovável (curtailment) ao aproveitar, por exemplo, condições ambientais que favorecem o resfriamento dos condutores.
Impulsionada pelo Inflation Reduction Act (IRA) em 2022, a modernização da rede nos EUA tornou-se essencial para viabilizar as novas metas de descarbonização e o escoamento de fontes limpas naquele momento. Uma análise publicada no mesmo ano indicou que se os EUA mantivessem o ritmo histórico de crescimento da transmissão, mais de 80% do potencial de redução de emissões do IRA até 2030 seria perdido.
Assim, em 2021, a Comissão Reguladora Federal (FERC) emitiu a Order 881, que tornou obrigatório o uso do AAR em todo o país, após o Departamento de Energia (DOE) reportar ao Congresso Americano que o DLlR poderia ampliar a capacidade das redes existentes entre 10% e 40%. Além da PJM, as jurisdições Southeast Power Pool, New England e CAISO pretendem ter o AAR implementado para todas as suas redes até o fim de 2026.
No Brasil esta tecnologia é vantajosa, devido às características climáticas do país: os mesmos ventos constantes que impulsionam a geração eólica atuam resfriando as linhas de transmissão, o que permitiria passar mais energia pela rede. Essa sinergia climática permite elevar o transporte de energia limpa aproveitando a infraestrutura já instalada. A adoção da tecnologia possibilita que o sistema supere os limites conservadores para operar com base na capacidade real dos ativos, aliviando gargalos de transmissão sem a necessidade imediata de novas obras físicas.