A favela em Davos: agradecimentos e o lançamento do Quarto Setor

“O mundo precisa decidir. Ou divide com as favelas toda a riqueza que ela sempre produziu, ou vamos continuar dividindo as consequências da miséria que as elites mundiais sempre produziram”, diz Celso Athayde, em seu último discurso no Fórum Econômico Mundial
 (Favela Holding/Divulgação)
(Favela Holding/Divulgação)
Por Da RedaçãoPublicado em 27/05/2022 10:09 | Última atualização em 27/05/2022 10:09Tempo de Leitura: 8 min de leitura

Celso Athayde*

Fim de jogo? Não. Não mesmo. Foram tantas emoções que passo a ter a certeza que o jogo nem começou, só estávamos aquecendo. Hoje, estou orgulhoso não por mim, mas pelo fato de ser o primeiro brasileiro a subir no palco do Fórum Econômico Mundial para receber o prêmio de Empreendedor de Impacto e Inovação. Esse reconhecimento é simplesmente um marco na minha vida, na minha trajetória e também na vida de muitas empreendedoras e empreendedores que precisam existir para além das favelas.

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Não é novidade no Brasil que nosso trabalho ultrapassou as fronteiras brasileiras, mas ter compartilhado, durante uma semana, experiências com 40 países foi a confirmação de que os problemas das favelas do mundo são os mesmos. A única mudança na prática é a língua. No contexto geral, não há diferenças mesmo. As que existem, se devem a distinções geográficas, políticas ou mesmo diferenças de gangues ou facções paramilitares, motivadas por temas diversos. Porém, só confirmei, em escala muito maior, o que eu já conhecia. Os problemas das favelas são os mesmos no mundo inteiro, e por isso as soluções também podem ser encontradas coletivamente.

Eu não tenho a menor pretensão de resolver os problemas do mundo. Prefiro deixar esses sonhos possíveis para outras pessoas. Ao longo da minha vida, recebi muitos reconhecimentos importantes. Vou tentar lembrar de algumas dessas conquistas enquanto chego no hotel. Pois, depois disso, tudo que passei não existe. Nada que eu deseje mais do que uma semana de descanso. Ficando para amanhã meu encerramento de ciclo sobre minha volta nos braços do povo, no Aeroporto do Galeão.

Mas até lá ainda tenho muita montanha pela frente.

O primeiro prêmio que me lembro como empresário foi no camelô de Madureira. Lembro que houve um empate técnico entre mim e o Marinheiro, o que fez ter dois vencedores. Eu vendia calça de moletom, em parceria não autorizada com a Adidas e a Nike. Se por um lado, eles podem me processar por eu confessar e ainda pedirem royalties retroativos, por outro, eles precisam me agradecer por eu ter promovido a harmonia plena das duas marcas, em um único espaço, por algum tempo. A ESPM deve ter um nome técnico para isso.

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O Marinheiro era realmente um soldado da Marinha do Brasil, que tinha a sua barraca de camelô, na Estrada da Portela. Ao mesmo tempo em que era um agente do estado, vendia pirataria e corria do rapa ou da delegacia de defraudações com frequência. Marinheiro tinha sido um auxiliar da barraca da minha família, até conseguir sua alforria e administrar seu próprio ponto, comprado do Zé Perereca. Ele merecia mais do que eu, e ninguém me tira da cabeça que meus chegados, jurados na votação, mexeram os pauzinhos para eu ser um dos vencedores.

Outro prêmio que me lembro foi oferecido pelo ex-ministro Édson Santos, na época, vereador do Rio, que me agraciou com a comenda mais importante da Câmara dos Vereadores, a Medalha Pedro Ernesto. Outro prêmio importante foi da então vereadora, hoje deputada estadual, Patrícia Bezerra, que fez a gentileza de me conceder o título de Cidadão Paulistano, aliás, título que receberei em breve como Cidadão Goiano.

Não vou conseguir falar de todos, porque são muitos e não me lembro de todos.

Desde capas de 15 revistas, que são prêmios importantes, ao longo dos anos, abrindo portas para muitas outras pessoas que viriam depois. Afinal, falar sobre coisas positivas de um lugar, cuja tragédia é a preferência em todas as manchetes, nunca foi fácil.

Mas todos os prêmios foram importantes, como o da Unesco, dentro ou fora do Brasil, na Câmara Federal, com a decoração máxima da Casa, ou mesmo o prêmio da ONU, em Nova York, na sua sede global. E em cada prêmio que eu recebi, sempre disse que não sou o único. Existem outros talentos incríveis vindo das favelas que precisam ser olhados também.

Eita. Já escrevi muito e não saí do lugar. É melhor voltar a falar do maior dos prêmios que um empreendedor de impacto e inovação pode receber, que é o Schwab. Até que alguém me ofereça outro. E, por fim, lembrar do único prêmio que eu ficaria frustrado se não ganhasse. O prêmio de reconhecimento da Favela do Sapo. Se o mundo inteiro me reconhecesse e o Sapo não, eu me sentiria a maior fraude. E o Sapo fez uma placa em praça pública, nome de praça e hoje sou nome de beco. Simples, verdade.  Mas eternamente feliz por isso.

Meu Deus! Preciso descansar, porque embarco agora para Zurique, depois para Lisboa, para então, chegar apenas amanhã, às 5 da madruga, no Galeão. E, no entanto, já estou aqui na Favela do Sapo com você.

Deixa eu falar sobre o prêmio e acabar com essa conversa narcisista urgente.

Depois de receber o prêmio na segunda-feira. Durante a semana, contei para a turma e para a senhora Hilde Schwab, cofundadora do Fórum, em parceria com seu marido, Klaus, a ideia do Quarto Setor. Durante a semana, fui convencendo a todos em pequenos grupos sobre o conceito, a cada reunião era fantástico a receptividade e a identificação das pessoas.

Gente da Índia, da África do Sul, de vários outros países da África, da China só para citar alguns. Então decidi que lançaria o conceito, nesta quinta, no evento de encerramento, na hora da minha fala sobre os trabalhos da CUFA (Central Única das Favelas), da Expo Favela, dos 20 mil empreendedores, que o Favela Fundos está apoiando, e da Escola de Negócios da Favela que vamos lançar com a Fundação Dom Cabral.

Todos os presentes e a chefona ouviam atentamente, até que fechei o conceito, citando dois países da África e o próprio Brasil, que através dos seus ministros da economia, prometeram levar o apoio adiante. Por fim, apresentei a empresa e cooperativa de mulheres de favelas, a Badu Design, como um grande case de sucesso que compõe o Quarto Setor. Todos amaram e presenteei a senhora e seu marido, com duas peças feitas de coro de automóveis e cinto de segurança. Esse tipo de projeto precisa de incentivo. É um case de sucesso do empreendedorismo da favela!

Importante dizer que o Quarto Setor não trata de negar os outros três. Mas de reconhecer que todas as favelas juntas são um país, e nenhum setor tem um olhar para elas. Entre outras centenas de avanços que o novo conceito pretende promover, um deles é criar uma área de Economia Incentivada da Favela (EIF), onde os empreendedores das favelas possam receber incentivos fiscais ou isenções fiscais, a partir de regras debatidas em eventos do Fórum Econômico das Favelas, que é uma outra agenda que também lançamos nesta quinta, no encerramento do Fórum Econômico Mundial.

Não tenho a menor ideia de onde isso vai dar, como não tinha a menor ideia que hoje eu estaria aqui escrevendo essas linhas pra vocês, nesse lugar e para a Exame, quando meu business plan, até a pouco tempo, era pagar as compras do mês e meu plano de vida, aos 10 anos de idade, era sobreviver até o mês de dezembro do mesmo ano.

O que era pouco provável, a exemplo do meu irmão que partiu assassinado antes do tempo que desejávamos. Mas, não vou chorar e nem vou falar da minha mãe, porque sei onde vai dar essa conversa. Vou apenas agradecer a minha família de sangue, de fé, da favela, da vida e da rua por todos os ensinamentos, por toda a ética e paciência para aprender. E a única coisa que conta hoje, é que estamos aqui, no Velho Mundo. Meu lugar e os problemas que precisamos focar, no entanto, estão aí, no Novo Mundão de meu Deus. E se acreditarmos que a favela e os favelados não são pessoas carentes, então teremos dado o primeiro passo para o Quarto Setor.

Se alguém chamar você ou seu filho de carente, a resposta precisa ser singela sempre e amável:

- Carente seu c.!

Fecho esse texto como fechei hoje meu discurso.

“O mundo precisa decidir. Ou divide com as favelas do globo toda a riqueza que ela sempre produziu e produz, ou vamos continuar dividindo as consequências da miséria que as elites mundiais sempre produziram”. Elites, inclusive, que, contraditoriamente, estão aqui.

Segue o baile!

*Celso Athayde é cofundador da Central Única de Favelas (Cufa) e CEO da Favela Holding