Sustentável? A inesperada estabilidade da moeda da Venezuela

O país continua com a inflação mais alta do mundo, 686% em 2021, mas o aumento dos preços se desacelera, após alcançar 130.000% em 2018, 9.585% em 2019 e 3.000% em 2020
A inflação encerrou 2021 em 686%, segundo o BCV, a mais elevada do mundo, mas atingiu 130.000% em 2018, 9.585% em 2019 e 3.000% em 2020 (Marco Bello/Reuters)
A inflação encerrou 2021 em 686%, segundo o BCV, a mais elevada do mundo, mas atingiu 130.000% em 2018, 9.585% em 2019 e 3.000% em 2020 (Marco Bello/Reuters)
Por AFPPublicado em 25/03/2022 10:29 | Última atualização em 25/03/2022 10:29Tempo de Leitura: 3 min de leitura

Uma surpresa: o bolívar, a combalida moeda da Venezuela, permanece estável desde outubro, após anos de violenta desvalorização. Um custo: mais de 2 bilhões de dólares injetados pelo Estado no mercado cambial. Um objetivo: conter a inflação.

O Banco Central da Venezuela (BCV) injetou, segundo a consultora Aristimuño Herrera & Associados, cerca de 2,2 bilhões de dólares no mercado nos últimos cinco meses para aumentar a oferta e amarrar o preço do bolívar em relação à moeda dos Estados Unidos, que tomou as ruas em 2019 após uma proibição de 15 anos devido a um controle de câmbio que precisou ser flexibilizado por problemas de caixa.

A inflação encerrou 2021 em 686%, segundo o BCV, a mais elevada do mundo, mas atingiu 130.000% em 2018, 9.585% em 2019 e 3.000% em 2020.

Qual é o limite?

"Você está ofertando dólares acima da demanda e isso te gera estabilidade na taxa", comenta à AFP César Aristimuño, diretor da Aristimuño Herrera & Asociados.

Sem divulgar valores, o BC reconhece 29 "intervenções" desde outubro de 2021, quando uma nova conversão subtraiu seis zeros do bolívar (1 milhão, para efeitos contáveis, virou 1 bolívar) e o governo prometeu recuperar a confiança na moeda local. Neste mês entra em vigor um imposto de 3% sobre transações em divisas e criptomoedas.

"A moeda de curso legal é e continuará sendo o bolívar", insistiu Delcy Rodríguez, vice-presidente e ministra da Economia e Finanças, na terça-feira ao apresentar as contas do governo ao Parlamento.

Desde outubro, a cotação oficial do dólar passou de 4,18 para 4,34 bolívares, uma desvalorização de 3,69%, depois de alcançar 76% em 2021, até a conversão; e mais de 95% a cada ano em 2018, 2019 e 2020.

Com um PIB que caiu mais de 80% em oito anos de recessão até registrar uma leve alta, segundo o governo, de 4% em 2021, "nossa economia é tão pequena que uma política como esta é aplicável. A questão é quanto tempo será possível sustentá-la", disse Henkel García, diretor da empresa Econométrica.

Segundo fontes da Aristimuño Herrera & Associados, o BCV injetou cerca de 1,5 bilhão de dólares no mercado cambial em 2021 e 700 milhões no primeiro trimestre de 2022.

Alguns especialistas consideram que o governo "queima" reservas internacionais, mas a Aristimuño e García acredita que os dólares ofertados são consequência de avanços nas receitas petrolíferas da Venezuela devido à alta dos preços, além de uma recuperação limitada da produção da estatal PDVSA.

A produção da PDVSA, que superava 3 milhões de barris diários (bd) em 2014 caiu para 400.000 bd em 2020. Hoje está em 680.000 bd, segundo a Opep.

Mas a consultoria adverte: há "efeitos colaterais". Por um lado, como a inflação ainda está muito alta e as taxas de câmbio permanecem as mesmas, o poder de compra do dólar cai; por outro, "as exportações perdem incentivo" em favor das importações.