Petrobras completa três meses sem aumentar gasolina, e defasagem encosta em 20%

A última alta no preço da gasolina nas refinarias da Petrobras foi anunciada no começo de março
Petrobras: último aumento da gasolina entrou em vigor em 11 de março (Paulo Whitaker/Reuters)
Petrobras: último aumento da gasolina entrou em vigor em 11 de março (Paulo Whitaker/Reuters)
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Carolina Riveira

Publicado em 10/06/2022 às 06:00.

Última atualização em 10/06/2022 às 12:42.

Em meio a um cabo de guerra com o governo e trocas na diretoria, a Petrobras completa nesta sexta-feira, 10, três meses sem que os preços da gasolina sejam ajustados em suas refinarias. A última mudança foi anunciada em 10 de março, quando a petroleira aumentou no dia seguinte os preços da gasolina em 18,7%.

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Desde então, os valores da gasolina não sofreram mais alterações, enquanto o diesel já teve outro reajuste em maio.

No pregão nesta sexta-feira, a defasagem média da gasolina em relação aos preços no mercado internacional chegava a 19%, segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom). O valor diz respeito à cotação na abertura de mercado.

Na ocasião do último aumento, em 10 de março, os preços já haviam ficado dois meses sem reajuste, mas o intervalo desta vez é o maior em mais de dois anos.

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A discussão acontece em meio ao troca troca na diretoria da Petrobras. Também nesta sexta-feira, o dia terá a repercussão da oficialização de Caio Mario Paes de Andrade como indicado do governo à presidência da estatal. O Ministério de Minas e Energia divulgou comunicado sobre o tema na noite de quinta-feira, que incluiu também a lista de indicados ao conselho da empresa.

Os nomes serão analisados por órgãos da Petrobras e, depois, uma assembleia de acionistas será convocada para votar.

Embates com o governo

Paes de Andrade é da equipe do ministro da Economia, Paulo Guedes e, se confirmado, assumirá a Petrobras após uma série de demissões no cargo.

Desde a última alta da gasolina em março, a estatal já teve dois presidentes. O general Joaquim Silva e Luna foi demitido por Bolsonaro no fim de março, desgastado exatamente pela última alta da gasolina e do diesel naquele mês. Depois, o governo indicou José Mauro Coelho, que ficou pouco mais de um mês no cargo. Coelho também se desgastou com o governo ao subir o preço do diesel e indicar, em declarações públicas, que a estatal manteria os preços de mercado.

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Os preços da Petrobras terão de subir em breve se o governo quiser manter a política de paridade de importação (PPI).

O modelo equipara o preço interno nas refinarias da estatal ao mercado internacional, tendo sido adotado no governo Michel Temer (MDB), a partir de 2016, e mantido pelo presidente Jair Bolsonaro ao assumir.

A preocupação crescente do governo com os combustíveis vem em meio ao impacto da inflação na popularidade de Bolsonaro, a quatro meses das eleições de outubro.

O governo tenta aprovar no Congresso medidas para cortar o ICMS (tributo estadual) dos combustíveis, movimento que é criticado por reduzir a receita que estados e municípios usam em serviços como educação e saúde. As negociações sobre o projeto correram a todo vapor durante a semana no Senado, e a expectativa é de que possa haver uma votação na semana que vem.

O presidente também reuniu ministros do alto escalão nesta semana e não descarta editar um decreto de calamidade pública para subsidiar os combustíveis.

As medidas, no entanto, podem ter pouco impacto diante do cenário difícil no mercado internacional, com petróleo batendo recordes diante da guerra na Ucrânia e retomada da economia passado o auge da covid-19.

O preço do barril do tipo Brent, usado como referência pela Petrobras, superou US$ 100 no início da guerra na Ucrânia e não mais saiu desse patamar, chegando a mais de US$ 120 na quinta-feira.

Gasolina a R$ 8 e alta do diesel no radar

As decisões da Petrobras dizem respeito às refinarias próprias da estatal, que respondem por cerca de 80% dos derivados (gasolina, diesel e outros) consumidos no Brasil. O restante já é vendido a preços mais próximos dos internacionais por importadores e refinarias privadas.

Para o consumidor na ponta, o preço médio da gasolina comum na semana até 4 de junho ficou em R$ 7,218/litro, segundo pesquisa semanal da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). O posto com maior valor encontrado na pesquisa chegou a vender gasolina a R$ 8,49/litro.

O óleo diesel foi vendido em média a R$ 6,88/litro na semana, com preço máximo encontrado de R$ 8,30 em um posto.

O diesel, ao contrário da gasolina, teve mais de um reajuste nos últimos três meses. O preço foi aumentado pela Petrobras em 10 de março (subindo 25%), junto com o da gasolina, mas voltou a ser reajustado há um mês, em 10 de junho (alta de 9%).

Mesmo assim, o diesel também está defasado ante os preços internacionais em 18% (na abertura desta sexta-feira), segundo a Abicom. Uma nova alta do diesel também é iminente para manter a PPI.

Há uma preocupação especial com o diesel porque esse foi um dos derivados de petróleo cujo preço no mercado internacional mais subiram, enquanto a Petrobras consegue refinar somente 70% do diesel consumido no Brasil. Os preços internos mais baixos podem dificultar a importação por parte de entes privados e levar a escassez, o que fez a Petrobras a reajustar o preço mais rapidamente.

Em nota enviada à imprensa neste mês, a Petrobras afirmou que, especialmente no caso do diesel, "não há fundamentos que indiquem a melhora do balanço global e o recuo estrutural das cotações internacionais de referência". "Diante desse quadro, é fundamental que a prática de preços competitivos e em equilíbrio com o mercado global seja referência para o mercado brasileiro de combustíveis, visando à segurança energética nacional", disse a estatal.


*A matéria foi atualizada às 12h42 para incluir a defasagem da gasolina e do diesel na abertura de mercado de sexta-feira, 10.

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