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Libra, óleo e UE: a esperança vai vencer o medo na Escócia?

Votos contra e a favor estão praticamente empatados, mas ninguém sabe ao certo o que vai acontecer em caso de secessão - a começar pela moeda do país

Cavaleiras Carol Bartley (dir.) e Rachel Grant (esq.) antes de corrida em Edinburgo, na Escócia (Simon Dawson/Bloomberg)

João Pedro Caleiro

Publicado em 17 de setembro de 2014 às 09h41.

São Paulo – “Tenham medo, tenham muito medo”.

O alerta foi dado pelo vencedor do Nobel Paul Krugman aos escoceses, que vão às urnas nesta quinta-feira para decidir se o país deve ou não se separar do Reino Unido (e disparar uma série de mudanças ).

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Quando o artigo foi publicado, na semana passada, o voto pela secessão estava ganhando. Desde então, o placar se reverteu, mas continua praticamente empatado.

Krugman diz que se teve algo que a crise do euro provou, é que não existe nada pior do que ter moeda comum sem união fiscal nem bancária.

Libra

Mas na verdade, o Reino Unido já avisou que a Escócia não vai poder manter a libra esterlina e que uma união monetária “é incompatível com soberania”, nas palavras de Mark Carney, presidente do banco central inglês.

No primeiro debate televisionado entre os dois lados da campanha em agosto, o ex-chanceler e deputado Alistair Darling questionou duramente o primeiro-ministro escocês Alex Salmond por “não ter plano B” caso tivesse que abrir mão da libra.

Desde então, Alex já apresentou alternativas (e se recuperou no segundo debate) mas o episódio simbolizou o calcanhar-de-aquiles do voto “sim”: a incerteza. Ninguém sabe qual seria a moeda do país, se ele seria ou não parte da União Europeia ou mesmo se ele poderia participar das próximas Olimpíadas - e não interessa à Inglaterra clarificar estas questões antes do voto.

Os mercados sinalizaram sua preferência como de costume, derrubando a libra e o mercado de ações toda vez que a secessão ganha espaço, e a fuga de capital atingiu níveis não vistos desde a crise financeira de 2008.

Relatórios do Deutsche Bank, UBS e Credit Suisse preveem uma recessão profunda na Escócia com a vitória do "Sim". O Royal Bank of Scotland já avisou que deixaria o país onde está desde 1727 em direção a Londres caso o “sim” vença, discurso que também foi adotado por outros grandes bancos e empresas.

Petróleo

BP e Shell também se manifestaram pelo "não", o que não surpreende considerando que elas são as grandes exploradoras dos abundantes recursos do Mar do Norte escocês, onde fica mais de 90% do petróleo do atual Reino Unido.

Estes recursos são, aliás, o grande argumento econômico a favor do “sim”, já que as estimativas calculam que há algo entre 60 e 120 bilhões de libras em receitas de impostos do óleo a serem exploradas até 2040.

Este valor nada desprezível vai hoje na maior parte para a Inglaterra e isso incomoda os escoceses, que pretendem se inspirar no modelo da Noruega para criar um fundo soberano que chegaria a 30 bilhões de libras 'em uma geração', segundo a campanha.

Mas a própria variação entre as estimativas mostra que a Escócia não pode depender demais disso para seu futuro, já que há evidências de que as reservas já estão diminuindo ou podem não ser totalmente aproveitáveis.

Além do petróleo, a economia escocesa tem outros pontos fortes como o turismo e a indústria de bebidas, que gera 3 bilhões de libras por ano e é campeã mundial em marcas poderosas como Ballantines, Johnnie Walker e Chivas Regal.

Custos

Mas o novo país viria não só com novas receitas, mas novas despesas também – entra elas a criação de toda uma nova burocracia estatal.

A Escócia também teria que absorver a parte da dívida britânica correspondente à sua população e achar no mínimo 34 bilhões de libras para complementar os 16 bilhões que sobrariam nas suas reservas. Só assim ela poderia garantir o tamanho e força mínimos para sustentar ou resgatar, em caso de crise, seu importante sistema financeiro.

A nova nação já nasceria com déficit orçamentário e dívida alta em relação ao PIB - as mesmas características do Reino Unido, diga-se de passagem, porém sem a sua escala e confiança adquirida.

Como os escoceses tendem a uma atitude fiscal menos rígida do que os ingleses - inclusive um dos fatores de descontamento que levaram ao referendo - uma primeira tarefa seria a de ganhar credibilidade rapidamente para não se tornar presa fácil de especuladores.

Listas extensas de apoio de executivos já foram divulgadas do lado do "Sim" e do "Não" (além de celebridades, como mostra a galeria abaixo). No Independent, o autor Dominic Frisby afirma que a Escócia tem tudo para ser um dos países mais ricos do planeta e já largaria na 14ª posição em PIB per capita.

Para a Economist, a população escocesa é mais velha, menos saudável e menos produtiva que a média britânica – ou seja, o novo país seria “rico, mas com péssimas perspectivas”. Se o debate intenso das últimas semanas e as novas concessões já oferecidas pelos ingleses forem qualquer indicativo, uma coisa é certa: com ou sem secessão, o Reino Unido nunca mais será o mesmo.

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