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NR-1: do cumprimento à gestão

A NR-1 nos convida a repensar prioridades em um momento em que produtividade excessiva se sobrepõe à saúde e ao bem-estar

Gestão de risco e o novo manual da NR-1 (Oscar Wong/Getty Images)

Gestão de risco e o novo manual da NR-1 (Oscar Wong/Getty Images)

Rachel Maia
Rachel Maia

Fundadora e CEO da RM Cia 360

Publicado em 23 de abril de 2026 às 08h00.

A Norma Regulamentadora Nº 1 (NR-1), que estabelece disposições gerais aplicáveis a todas as demais normas regulamentadoras, nas quais se definem responsabilidades, direitos e deveres, criando uma base comum para a construção de ambientes de trabalho mais seguros, a partir de maio de 2026, terá também a inclusão de “riscos psicossociais” — assédio, sobrecarga e burnout — no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO/PGR).

Instituída pelo Ministério do Trabalho e Emprego, a NR-1 ocupa um lugar central no sistema de saúde e segurança do trabalho no Brasil. São diretrizes técnicas e um ponto de partida para que as lideranças reflitam sobre como empresas e trabalhadores se relacionam com o risco, a prevenção e, sobretudo, com o valor da vida no ambiente profissional.

Com potencial cultural a NR-1, que é uma obrigação legal, também chega como mais um instrumento para fomentar a discussão sobre saúde mental dentro das organizações. Nesse contexto, a pergunta “O que muda quando a gente escuta de verdade?”, de Raquel Zagui, head global de Diversidade, Equidade e Inclusão e vice-presidente de Pessoas do Grupo HEINEKEN no Brasil, é pertinente e contribuirá para novas práticas nas empresas.

“Durante muito tempo, a saúde mental no trabalho foi tratada como um tema relevante. Estava presente nos discursos, mas raramente nas decisões que realmente moldam a forma como as organizações operam. Esse cenário vem mudando. E a atualização da NR-1 é um marco importante nesse processo, não por criar uma agenda, mas por tornar explícito algo que já deveria estar claro: saúde mental faz parte da gestão do negócio”, afirma Raquel Zagui.

Novas formas de emprego, avanço tecnológico e intensificação das jornadas tornam os riscos menos visíveis, porém não menos reais. Nesse cenário, a NR-1 assume um papel ainda mais relevante ao reforçar a necessidade de uma gestão integrada e dinâmica da segurança. Uma transformação que dialoga diretamente com o mundo do trabalho em constante mudança.

“Os dados ajudam a entender a urgência. O aumento consistente de afastamentos por transtornos mentais no Brasil não é um fenômeno isolado. Nesse contexto, tratar saúde mental como uma questão individual é insuficiente. A discussão precisa avançar para o desenho do trabalho e, principalmente, para o papel das lideranças nesse desenho. Escutar as pessoas é parte desse movimento. Mas escutar de verdade vai além de coletar percepções ou rodar pesquisas. Implica disposição para interpretar sinais, questionar escolhas e, quando necessário, ajustar rotas”, contextualiza a head global de diversidade.

A atualização da NR-1 trouxe um elemento fundamental para o debate contemporâneo: o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). Essa abordagem desloca o foco da reação para a prevenção estruturada, exigindo das organizações não apenas o cumprimento de regras, mas a implementação de processos contínuos de identificação, avaliação e controle de riscos, ou seja, sair da lógica do apenas “cumprir para evitar penalidades” e avançar para o “cuidar para preservar vidas”.

“Algumas empresas já vêm incorporando essa lógica de forma mais estruturada e percebem que o bem-estar dos colaboradores não faz parte de uma agenda paralela, e sim de estratégia de gestão a longo prazo. É sobre a estabilidade dos times e capacidade de sustentar resultados ao longo do tempo. Isso não significa que o caminho seja simples, mas ele se constrói no cotidiano: na forma como metas são definidas, como conflitos são conduzidos e como prioridades são equilibradas”, enfatiza a executiva.

Protagonismo compartilhado é um ponto de destaque. A norma aponta que a construção de um ambiente seguro não seja responsabilidade exclusiva das empresas. Trabalhadores também têm papel ativo, seja no cumprimento das orientações, seja na comunicação de riscos. Essa corresponsabilidade revela um princípio essencial: segurança do trabalho não se impõe, constrói-se coletivamente.

“Em um momento em que algumas organizações ensaiam um retorno a modelos mais rígidos e centrados exclusivamente em pressão e controle, vale um ponto de atenção: esse caminho pode até gerar respostas de curto prazo, mas cobra um preço alto no médio prazo, um custo que muitas organizações já estão pagando, ainda que nem sempre reconheçam”, ressalta Raquel Zagui.

 A NR-1 nos convida a repensar prioridades em um momento em que produtividade excessiva se sobrepõe à saúde e ao bem-estar. Ela atua como um contraponto necessário e nos faz  refletir sobre o tipo de sociedade que estamos construindo e como normas de prevenção contribuem para uma sociedade comprometida com a saúde física e mental. É mais uma maneira de reorganizar a rota e identificar novas diretrizes de gestão comportamental eficaz.