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Inovação sustentável e acesso a capital: o desafio de quem transforma

Negócios de impacto e iniciativas inovadoras enfrentam restrições estruturais no crédito, nos investimentos e nos mecanismos de fomento

Capital: segundo Anbima, houve um aumento de 48,4% dos fundos de investimento sustentáveis no Brasil em 2025 (Kmatta/Getty Images)

Capital: segundo Anbima, houve um aumento de 48,4% dos fundos de investimento sustentáveis no Brasil em 2025 (Kmatta/Getty Images)

Rachel Maia
Rachel Maia

Fundadora e CEO da RM Cia 360

Publicado em 31 de janeiro de 2026 às 08h00.

Última atualização em 6 de fevereiro de 2026 às 20h51.

A inovação sustentável tem se consolidado como resposta urgente às crises climática, social e econômica. No entanto, o acesso a capital segue sendo um dos principais gargalos para que essas soluções ultrapassem a fase de ideação e alcancem escala.

Incorporada de forma crescente às estratégias corporativas, a inovação sustentável vem sendo impulsionada por pressões regulatórias, mudanças no comportamento do consumidor e pela necessidade de mitigação de riscos de longo. Sob a ótica financeira, soluções sustentáveis deixaram de ser apenas iniciativas reputacionais e passaram a influenciar diretamente indicadores como eficiência operacional, custo de capital e geração de valor econômico.

Negócios de impacto e iniciativas inovadoras enfrentam restrições estruturais no crédito, nos investimentos e nos mecanismos de fomento, o que evidencia que a sustentabilidade também depende de sistemas financeiros capazes de alocar recursos de forma eficiente, orientada ao longo prazo e compatível com novos modelos de risco.

O Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) de nº 9 — Indústria, Inovação e Infraestrutura — tem como meta 9.3 ampliar o acesso das micro e pequenas empresas a serviços financeiros — com menos burocracia e mais oferta de crédito — garantindo integração tecnológica e inovadora de acordo com a situação e a necessidade de cada empresa, como mostra o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA).

De acordo com a Anbima, houve um aumento de 48,4% dos fundos de investimento sustentáveis (IS) no Brasil em 2025. Estamos a menos de quatro anos da data estipulada para o cumprimento dos ODS e, apesar desse crescimento, o financiamento de projetos de inovação sustentável ainda enfrenta limitações de alocação. Instituições financeiras e investidores continuam priorizando modelos com histórico comprovado de retorno, o que impõe desafios a negócios baseados em tecnologias emergentes ou estruturas operacionais disruptivas.

A dificuldade de precificar riscos não tradicionais — como riscos climáticos, regulatórios e de transição — compromete a avaliação adequada do binômio risco-retorno e restringe o fluxo de capital para iniciativas inovadoras. Empresas com desempenho consistente nesses indicadores tendem a apresentar maior previsibilidade de fluxos de caixa e menor volatilidade, fatores diretamente associados à redução do custo de capital.

Para os negócios, a capacidade de acessar financiamento está cada vez mais relacionada à qualidade da governança, à transparência das informações e à mensuração consistente de impacto. Demonstrações financeiras integradas, relatórios alinhados a frameworks reconhecidos e metas claras de sustentabilidade reduzem assimetrias de informação e fortalecem a confiança dos agentes de mercado. Quando bem estruturada, a inovação sustentável deixa de ser percebida como risco e passa a ser tratada como vetor de valorização do ativo.

Do lado do capital, observa-se a expansão de instrumentos financeiros voltados à sustentabilidade, como green bonds, sustainability-linked loans e fundos temáticos. A efetividade desses mecanismos, contudo, depende da clareza dos critérios de elegibilidade e da capacidade das empresas de converter ganhos ambientais e operacionais em indicadores financeiros mensuráveis. Sem essa correlação, a precificação do risco permanece imprecisa e a alocação de recursos segue limitada.

Integrar sustentabilidade à lógica econômica, é fundamental para demonstrar impacto positivo sobre margens, riscos e geração de valor. A convergência entre inovação sustentável e acesso a capital exige uma abordagem orientada por dados, métricas financeiras e visão estratégica de longo prazo. Dessa forma, as empresas estarão melhor posicionadas para captar recursos, escalar operações e sustentar crescimento em um ambiente cada vez mais orientado por desempenho financeiro e responsabilidade corporativa.

Assim, a convergência entre inovação sustentável e acesso a capital dependerá da capacidade do sistema financeiro de evoluir seus modelos de avaliação de risco e retorno. Sem esse avanço, iniciativas com potencial de gerar ganhos sistêmicos continuarão enfrentando restrições de financiamento, limitando não apenas seu crescimento, mas também a velocidade e a escala da transição para um modelo econômico mais resiliente, competitivo e sustentável.