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ASG: o social como ponto de partida da ação climática

Com a COP30 em Belém, ganha força a tese de que não há transição climática eficaz sem justiça social, inclusão e proteção aos territórios mais vulneráveis

Escuta: líder comunitário é silenciado durante painel sobre bioeconomia na COP 30. (Leandro Fonseca /Exame)

Escuta: líder comunitário é silenciado durante painel sobre bioeconomia na COP 30. (Leandro Fonseca /Exame)

Rachel Maia
Rachel Maia

Fundadora e CEO da RM Cia 360

Publicado em 23 de dezembro de 2025 às 08h00.

À medida que o mundo voltava os olhos para a COP30, em Belém, uma pergunta se tornava incontornável: é possível construir soluções climáticas robustas sem colocar as pessoas no centro?

Estávamos diante de planos e ações para ouvir, aprender e cocriar soluções essenciais para a vida na Terra. O debate global sobre sustentabilidade amadureceu. Se antes o foco recaiu sobre emissões, métricas ambientais e metas setoriais, hoje cresce a compreensão de que não existe transição ecológica eficaz sem justiça social.

Acredito que o “S” do ASG (Ambiental, Social e Governança) emerge como o alicerce capaz de transformar políticas climáticas em resultados assertivos e duradouros. A crise climática expõe os desdobramentos e impactos colaterais de uma agenda socioambiental fragilizada, em que justamente o componente social costuma ser o primeiro a ser cortado quando há pressão orçamentária ou disputas de prioridade. Sem políticas que considerem pessoas, territórios e desigualdades, nenhuma solução climática se sustenta — é o social que garante profundidade, permanência e justiça às respostas para a emergência climática.

Eventos extremos, escassez hídrica, insegurança alimentar e deslocamentos forçados atingem com muito mais força comunidades vulneráveis. povos indígenas, quilombolas e populações periféricas. Insisto em dizer que os maiores afetados se dividem por cor, gênero e CEP e que ignorar o social significa naturalizar a desigualdade como parte da equação — algo incompatível com qualquer modelo de desenvolvimento sustentável.

Planos de descarbonização que ignoram trabalhadores, juventudes periféricas e territórios impactados apenas reproduzem modelos econômicos excludentes. A COP30 terá o desafio de mostrar que é possível reconciliar crescimento, equidade e respeito aos direitos humanos, a partir de investimentos que priorizem vidas — não apenas indicadores.

No mundo corporativo, o modelo ASG se consolidou como bússola de gestão. Mas, na prática, muitas empresas avançam no “A”, iniciam o “G” e deixam o “S” para depois. Esse movimento é equivocado pois considero o social uma potência transformadora das relações comunitárias e de cadeia de valor. Empresas e governos precisam definir estratégias ambientais para além do conjunto de metas técnicas — legitimar territórios é um dos caminhos.

Amazônia

Belém, cidade-sede da COP30, carrega simbolismos que ressoam globalmente. A floresta só continua sendo floresta porque existem pessoas cuidando dela — muitas vezes sob intenso risco de violência e desassistência estatal. De acordo com dados do Instituto Socioambiental (ISA) as Terras Indígenas têm sido fundamentais para manter a floresta em pé são 97,4 hectares de vegetação nativa protegida, com perda de apenas 1,74%. Ao contrário das regiões ao redor que sofrem com taxas de destruição significativas 16 vezes maior.

É impossível falar de clima na Amazônia sem falar de garantia de território, proteção a lideranças, renda e inclusão produtiva, infraestrutura resiliente, acesso à informação e participação. Quando essas condições são asseguradas, políticas ambientais seguem o fluxo contínuo de resultados.

A COP30 terá o papel histórico de consolidar a narrativa mundial de que a transição climática é, acima de tudo, um projeto de sociedade. Somente assim os compromissos assumidos pelos países poderão sair do papel e se traduzir em benefícios reais para quem mais sente os impactos da crise.

A pergunta que se coloca aos líderes globais não é apenas como reduzir emissões, mas como reduzir desigualdades enquanto reduzimos emissões. Esse é o teste de legitimidade da era pós-Paris, e é também um novo caminho para que as ações climáticas se tornem realmente transformadoras.