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 2026: avançar para o  futuro competitivo ou seguir preso nos gargalos do presente?

O próximo ano precisa ser diferente; é o ano de transformar consenso em ação — e urgência em políticas reais, argumentam Tatiana Ribeiro e Julio Lopes

Brasilia - DF - Distrito Federal - Palacio do Congresso Nacional

Foto: Leandro Fonseca
data: 27/08/2024 (Leandro Fonseca/Exame)

Brasilia - DF - Distrito Federal - Palacio do Congresso Nacional Foto: Leandro Fonseca data: 27/08/2024 (Leandro Fonseca/Exame)

Da Redação
Da Redação

Redação Exame

Publicado em 22 de dezembro de 2025 às 12h50.

Por Julio Lopes* e Tatiana Ribeiro* -

Então é Natal. E o que você fez? A música da Simone ecoa todo dezembro, época em que fazemos balanços pessoais, profissionais e empresariais. Mas e quando aplicamos esse olhar ao Brasil? Conseguimos medir se avançamos e enxergar com clareza o que ainda falta fazer?

Sim. O Brasil de hoje cresce, mas ainda não na velocidade necessária. Vemos lampejos de progresso, mas eles surgem isolados: um setor aqui, um programa ali. Não há uma estratégia nacional consistente para transformar nosso potencial de competitividade em um caminho de desenvolvimento sustentável.

A infiltração do crime organizado em setores como combustíveis, energia, telecomunicações, bebidas, cigarros, entre outros, mostrou que a segurança pública é variável econômica.

Quando as facções definem preços e fluxos de capital, o livre mercado deixa de existir. Iniciativas como o Devedor Contumaz, a PEC da Segurança, o PL Antifacção e a criação de um Operador Nacional dos Combustíveis não representam apenas rigor penal, mas a defesa da competitividade.

Também enfrentamos o tarifaço dos Estados Unidos. O país soube reagir, proteger empregos, negociar alternativas. Mas resta a dúvida: por que só somos capazes de agir com agilidade quando somos pressionados?

Tivemos avanços discretos, mas significativos. A autonomia e o orçamento das agências reguladoras foram preservados, resgatando um pouco da segurança jurídica que investidores tanto clamam. Ainda assim, continuamos insistindo em criar dificuldades no mesmo ritmo em que o mundo gera oportunidades.

Na economia global, países competitivos se orientam por variáveis claras: infraestrutura moderna, regulação estável, educação conectada ao século XXI e custo de capital que estimula investimento. É o padrão da OCDE.

O Brasil ainda está distante disso: juros altos e crédito caro tornam o dinheiro uma barreira de entrada, um teto para inovação, um freio para quem quer empreender. Enquanto outras economias financiam a transformação e a produtividade, seguimos empurrando a modernização com o freio de mão puxado.

O que o Brasil precisa em 2026

Por isso, 2026 precisa ser diferente. Não pelo calendário, mas porque o país não pode desperdiçar mais oportunidades. É o ano de transformar consenso em ação — e urgência em políticas reais.

E isso ocorre com uma nova geração entrando em cena: jovens conectados, inquietos, empreendedores, que não aceitam esperar na fila do futuro. Eles exigem respostas rápidas, projetos claros e resultados concretos. Essa geração não aceitará um Brasil que não compete.

Essa nova geração já está transformando o mercado de trabalho. A experiência continua sendo relevante, mas o que contrata hoje é técnica e domínio digital. Há vagas sobrando e falta mão de obra qualificada. Esse descompasso ameaça todos os avanços que buscamos.

A reforma tributária foi aprovada, mas só valerá se for implementada com simplicidade e coerência no próximo ano. Qualquer volta ao labirinto tributário anterior será retrocesso. O mesmo vale para a reforma administrativa e para a digitalização dos serviços públicos: um Estado lento torna toda economia lenta.

Na tecnologia, a inteligência artificial não é um sonho distante. É realidade concreta. O Brasil precisa de uma regulação que proteja direitos, estimule a inovação e prepare trabalhadores para uma economia em transição.

Nossa infraestrutura logística continua desequilibrada: dependemos demais das rodovias, com fretes caros, estradas saturadas e emissões altas. Diversificar modais — com mais ferrovia, portos e cabotagem — precisa deixar de ser plano e virar obra. E não há competitividade sem conectividade: expandir o 5G é urgente para tirar cidades e negócios da sombra digital.

Na energia, temos uma das matrizes mais limpas do mundo e enorme potencial para atrair data centers, indústrias de ponta e cadeias de baixo carbono. Mas isso exige abertura efetiva do mercado, gás natural mais competitivo e regras estáveis para quem investe.

Tudo isso impacta o Custo Brasil, hoje estimado em R$ 1,7 trilhão por ano e que pode aumentar se as medidas necessárias não forem implementadas. Temos repetido o erro de adiar como se o tempo fosse aliado. Não é. Tempo é credor impaciente.

Em 2026, cada voto será um voto de decisão: continuar patinando ou finalmente entrar na pista. A nova geração está pronta para acelerar. Falta saber se o Brasil estará preparado para acompanhar.

O país tem ativos que poucos têm: energia limpa, diversidade produtiva, espírito empreendedor e talento. Falta agir à altura desse tamanho.

O futuro não vai esperar que nos organizemos. Ou escolhemos competir ou continuaremos comemorando pouco e lamentando muito.

O Brasil ainda tem a chance de responder que fizemos o que precisava ser feito para finalmente sermos grandes.

*Julio Lopes, presidente da Frente Parlamentar pelo Brasil Competitivo

*Tatiana Ribeiro, mestre em gestão e políticas públicas e diretora-executiva do Movimento Brasil Competitivo