2ª edição do Prêmio EXAME MelAdriano Lima: "Se a IA economizar milhares de horas do RH e utilizarmos essas horas apenas para produzir mais RH, teremos desperdiçado uma oportunidade histórica."hores em Gestão de Pessoas, destacam 18 empresas pelas melhores práticas de RH (Arte /Exame)
Autor do livro "Você em Ação"
Publicado em 1 de setembro de 2026 às 14h43.
Última atualização em 1 de setembro de 2026 às 14h45.
Durante décadas, repetimos quase como um mantra que o RH precisava se tornar parceiro do negócio.
Criamos o conceito de business partner, aproximamos profissionais de RH das unidades de negócio, ensinamos finanças para executivos de pessoas e passamos a cobrar do RH conhecimento sobre margem, receita, estratégia e cliente.
Foi uma evolução importante.
Mas acho que essa discussão envelheceu.
O RH não pode mais ser parceiro do negócio. Tem de ser o negócio.
Isso não significa transformar profissionais de RH em vendedores ou financeiros. Significa entender que decisões sobre pessoas, cultura, liderança, competências e desenho organizacional deixaram definitivamente de ser uma agenda paralela à estratégia.
Elas são a estratégia.
Um novo estudo da Accenture, “The CHRO as architect of enterprise value”, publicado em agosto de 2026, reforça essa mudança. A consultoria propõe que o CHRO deixe de ser apenas um executivo funcional e assuma o papel de arquiteto de valor empresarial.
Gosto dessa expressão porque ela muda o lugar do RH na conversa.
Parceiro participa. Arquiteto ajuda a desenhar.
Os números da Accenture ajudam a dimensionar o tamanho do desafio.
Segundo o estudo, 78% dos líderes esperam mudanças nas funções nos próximos 12 meses. E 84% esperam que agentes de inteligência artificial estejam trabalhando ao lado de humanos em até três anos.
Mas apenas 26% dos trabalhadores foram treinados para essa colaboração.
Essa diferença talvez seja uma das maiores oportunidades para o RH neste momento.
Estamos comprando tecnologia mais rápido do que estamos transformando organizações.
E transformar organizações não é instalar tecnologia. É redesenhar trabalho, preparar pessoas, mudar comportamentos, desenvolver líderes e mexer em estruturas, incentivos e cultura.
Ou seja: é negócio.
Ao longo da minha carreira, participei de diferentes momentos de transformação empresarial e aprendi uma coisa: não existe transformação de negócio sem transformação humana.
Na fusão entre Itaú e Unibanco, por exemplo, o desafio não era simplesmente integrar organogramas, sistemas e processos. Duas grandes organizações estavam se tornando uma. Havia histórias, identidades, símbolos, lideranças e maneiras diferentes de trabalhar.
A integração cultural não estava ao lado do negócio. Era o negócio.
Na entrada da Mastercard no Brasil, vivi outro contexto. Construir uma operação significava muito mais do que contratar pessoas para preencher posições. Era necessário desenvolver capacidades, formar uma cultura e criar uma organização capaz de executar uma estratégia naquele mercado.
Mais uma vez, pessoas não eram uma consequência do plano de negócios. Eram parte da construção dele.
Talvez a inteligência artificial esteja apenas tornando impossível continuar ignorando algo que alguns de nós já aprendemos na prática.
Durante muito tempo, planejamento de força de trabalho significou responder a perguntas como: quantas pessoas temos? Quantas precisamos contratar? Qual é nosso turnover? Onde estão as posições abertas?
Continuam sendo perguntas importantes. Mas agora existe uma pergunta anterior: como o trabalho desta empresa será realizado?
Quais atividades continuarão sendo executadas por pessoas? Quais serão realizadas por agentes de IA? Quais serão feitas por humanos potencializados pela tecnologia? Que funções deixarão de existir? Que novas competências serão necessárias?
E, principalmente: o que não queremos terceirizar para uma máquina, mesmo quando tecnicamente for possível?
Essa última pergunta será cada vez mais importante. Porque nem tudo que pode ser automatizado deveria ser automatizado.
É aqui que o RH deixa definitivamente de administrar headcount e passa a participar da arquitetura do trabalho.
Existe outro dado provocador no estudo da Accenture. Embora grande parte das atividades realizadas atualmente pelo RH já esteja ao alcance dos grandes modelos de linguagem, menos de um em cada cinco líderes está redesenhando processos de ponta a ponta colocando a IA no centro.
Estamos usando uma tecnologia nova para fazer processos antigos um pouco mais rápido. Isso é pouco.
Não precisamos apenas colocar IA no recrutamento. Precisamos repensar como contratamos. Não precisamos simplesmente colocar um chatbot no atendimento ao funcionário. Precisamos redesenhar a experiência do colaborador. Não precisamos usar IA para produzir mais conteúdo de treinamento. Precisamos descobrir como as pessoas aprenderão continuamente dentro do próprio trabalho.
A Accenture relata inclusive sua experiência interna: em quatro anos, reduziu em mais de 30% os custos de RH como percentual da receita, mantendo impacto no negócio e na experiência dos funcionários.
Mas eficiência não pode ser o destino. Precisa ser o ponto de partida.
Se a IA economizar milhares de horas do RH e utilizarmos essas horas apenas para produzir mais RH, teremos desperdiçado uma oportunidade histórica.
A tecnologia deveria retirar trabalho operacional para devolver ao RH algo muito mais valioso: tempo para o negócio. Tempo para entender clientes, antecipar capacidades, discutir estratégia, desenvolver líderes, cuidar da cultura e fazer as perguntas difíceis que um algoritmo talvez nunca faça.
Tenho defendido uma ideia que parece paradoxal: quanto mais artificial se torna o mundo do trabalho, mais importante se torna a liderança nada artificial.
A IA apresenta cenários. Mas alguém precisa dar a direção. A IA encontra padrões. Mas alguém precisa interpretar contextos. A IA pode recomendar uma decisão. Mas alguém terá de assumir a responsabilidade por ela.
E a IA pode ajudar um gestor a escrever uma mensagem impecável para sua equipe. Mas não consegue fabricar legitimidade, confiança ou presença.
Por isso acredito que a IA não vai substituir os líderes. Vai revelá-los.
Vai deixar mais evidente quem apenas distribuía tarefas, controlava informações e cobrava resultados e quem efetivamente consegue mobilizar pessoas, enfrentar conversas difíceis, tomar decisões ambíguas e construir confiança.
O mesmo acontecerá com o RH.
A inteligência artificial provavelmente assumirá uma parcela crescente do RH transacional. Ótimo. Porque talvez isso obrigue o RH a ocupar finalmente o espaço onde pode gerar mais valor.
O CHRO do futuro não deveria chegar à reunião executiva apenas com indicadores de turnover, engajamento, sucessão e vagas abertas.
Deveria chegar perguntando: onde nossa estratégia pode parar por falta de capacidade? Que parte do nosso modelo operacional será transformada pela IA? Quais trabalhos precisamos redesenhar agora? Onde precisamos contratar e onde precisamos requalificar? Que comportamentos da liderança estão acelerando ou impedindo nossa estratégia? Que cultura será necessária para executar o próximo ciclo da empresa?
Isso é RH? Sim. Mas também é estratégia, produtividade, crescimento, risco e resultado.
Por isso talvez devêssemos parar de comemorar quando alguém diz que o RH finalmente virou parceiro do negócio. A ambição precisa ser maior.
Em um mundo no qual tecnologia, trabalho e pessoas estão se misturando como nunca, não haverá estratégia empresarial sem uma estratégia de pessoas. Não haverá transformação digital sem transformação humana. E dificilmente haverá vantagem competitiva sustentável sem cultura e liderança capazes de sustentá-la.
Durante anos, o RH lutou por um lugar à mesa. Depois lutou para ser ouvido por quem estava sentado nela. Agora a inteligência artificial está criando uma oportunidade muito maior.
Não queremos apenas um lugar à mesa.
Precisamos ajudar a decidir o que será servido, quem estará sentado, quais decisões serão tomadas e, talvez, até se aquela mesa ainda faz sentido.
Porque o RH não pode mais ser parceiro do negócio. Tem de ser o negócio.