Conheça o documentário produzido por tribo indígena da Amazônia

"The Territory" estreia sexta-feira, 19, no National Geographic e acompanha comunidade em área protegida de floresta tropical
Tribo uru-eu-wau-wau tem menos de 200 membros atualmente (AFP/AFP)
Tribo uru-eu-wau-wau tem menos de 200 membros atualmente (AFP/AFP)
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AFPPublicado em 17/08/2022 às 11:46.

Quando a covid-19 chegou à Amazônia brasileira e uma tribo indígena fechou o acesso a seu território, o diretor Alex Pritz encontrou uma forma inovadora de concluir seu documentário: ele entregou as câmeras aos próprios uru-eu-wau-wau.

"The Territory", que estreia no canal National Geographic na sexta-feira, 19, acompanha a difícil situação de quase 200 caçadores-coletores que vivem em uma área protegida de floresta tropical, cercada e invadidas por grileiros e madeireiros agressivos e ilegais.

Embora no filme apareçam com trajes tradicionais e honrando os costumes ancestrais, os uru-eu-wau-wau e seu jovem líder Bitate - protagonista do documentário - ficaram mais do que felizes em utilizar a tecnologia moderna para sua defesa.

"Quando a covid aconteceu, Bitate tomou a decisão realmente ousada de dizer 'OK, sem jornalistas entrando em nosso território, não há mais cineastas, não há mais Alex, não há mais equipe de documentários, ninguém'. Precisamos ter uma conversa com ele, algo como 'OK, nós já terminamos o filme? Temos tudo o que precisamos? Há algo mais? Devemos começar a editar?'", disse Pritz.

E o diretor explica que o jovem líder dos uru-eu-wau-wau foi claro: "Ele disse 'Não, não terminamos. Ainda temos muito por fazer. Vocês não tinham terminado antes, por que deveriam terminar agora? Basta nos enviar câmeras melhores, enviem equipamentos de áudio, e nós vamos filmar e produzir a última parte do filme'"..

O resultado foi um "modelo de coprodução", no qual um uru-eu-wau-wau ficou responsável pela direção do filme e a comunidade em geral assumiu a produção, com uma participação nos lucros e voz nas decisões comerciais sobre a distribuição do filme.

Além de permitir que as filmagens continuassem durante a pandemia, Pritz acredita que a decisão de fornecer equipamentos e treinamento direto aos uru-eu-wau-wau beneficiou o filme ao adicionar uma "perspectiva em primeira mão" sobre as atividades do grupo, que incluem patrulhas na área para impedir invasores.

"Eu filmei várias missões de vigilância. Nenhuma entrou no corte final. Não porque queríamos transferir as filmagens... era mais cru, era mais urgente", disse Pritz.

"Crianças digitais"

Antes mesmo da chegada da equipe de Pritz, os uru-eu-wau-wau já haviam se tornado adeptos do poder da tecnologia moderna e dos meios de comunicação para defender sua causa, presentes no cenário global como guardiões de uma floresta cuja sobrevivência está ligada a questões de mudanças climáticas e biodiversidade.

"Bitate e esta geração mais jovem dentro do uru-eu-wau-wau são crianças digitais. Ele nasceu no fim dos anos 1990. Ele está no Instagram. E isso é parte de sua forma de relacionamento com o mundo", disse Pritz.

Quando os drones que registraram imagens impressionantes e angustiantes de um grande desmatamento aparecem no início do documentário, muitos espectadores imaginam que pertencem aos cineastas, disse Pritz. Mas, de fato, as câmeras voadoras foram compradas e operadas pelos próprios uru-eu-wau-wau.

"Enquanto teria levado quatro dias para atravessar a pé as montanhas na floresta espessa e densa... com o drone você chega no destino em 30 minutos e tem imagens marcadas com metadados. As pessoas não podem argumentar contra isso", explica Pritz. E este é um grande contraste com os grileiros, também personagens centrais do documentário.

O filme mostra um grupo no momento em que derruba e incendeia florestas sob proteção, abrindo espaço de maneira ilegal para rodovias em um território que um dia desejam estabelecer e reivindicar como próprio. O acesso foi possível porque muitos grileiros se consideram pioneiros heroicos. Nas entrevistas com Pritz, eles falam sobre a abertura da floresta tropical para o bem da nação.

É uma mistura explosiva de cultura dos cowboys do "oeste selvagem" de filmes americanos e propaganda nacionalista alimentada pelo presidente Jair Bolsonaro. "Eram pessoas ingênuas que não entendiam o contexto histórico de suas ações, as consequências ecológicas, o que estavam fazendo para o resto do planeta", disse Pritz.

Para os invasores, muitos deles sem educação formal ou qualquer outra oportunidade econômica, "era apenas sobre 'eu e o que é meu', 'apenas este pequeno lote', 'se eu conseguir apenas isto'". "Enquanto Bitate tem a perspectiva expansiva. Ele está pensando na mudança climática. Ele está pensando no planeta. Ele é politicamente experiente, orientado para a mídia".

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