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(demaerre/Getty Images)
Redatora
Publicado em 18 de março de 2026 às 15h57.
A inteligência artificial deixou de ocupar o lugar de ameaça abstrata no imaginário corporativo e passou a atuar como engrenagem concreta das áreas de Recursos Humanos.
No Brasil, 70% das empresas já usam IA em alguma etapa do recrutamento, segundo levantamento do Pandapé em parceria com a Adecco, realizado com 460 profissionais de RH. O dado ajuda a explicar por que 2025 consolidou a digitalização da contratação no país e por que 2026 tende a aprofundar esse movimento.
O número mais eloquente da pesquisa talvez não seja apenas o alcance da tecnologia, mas sua frequência de uso. Entre os profissionais ouvidos, 77% dizem utilizar IA diariamente nas rotinas de trabalho. Isso indica que a ferramenta já não está restrita a testes ou projetos pontuais.
Ela entrou na operação. Recrutamento e seleção lideram as aplicações, com 72,2%, seguidos por análise de dados, com 52,2%, treinamento e desenvolvimento, com 35,1%, e atendimento ao cliente, com 32%. Mais da metade dos respondentes, 54,8%, afirma ter percebido melhorias relevantes nos processos internos após a adoção dessas soluções.
A fotografia da pesquisa desmonta uma percepção que dominou o debate nos últimos anos. A IA não aparece como substituta direta do RH, mas como mecanismo de ganho operacional em tarefas repetitivas, volumosas e orientadas por dados. Triagem de currículos, organização de etapas, leitura de padrões e aceleração de fluxos passaram a consumir menos tempo humano.
No caso do Pandapé, a empresa afirma que sua IA reduz em até 75% o tempo de triagem de currículos, o que ajuda a entender por que o uso ganhou escala em áreas pressionadas por velocidade e eficiência.
Esse deslocamento muda o centro de gravidade da carreira em RH. Quanto mais a tecnologia absorve tarefas operacionais, mais o profissional é empurrado para funções de maior valor analítico e relacional.
Entrevistar melhor, interpretar contexto, ler aderência cultural, avaliar riscos de contratação e tomar decisões com senso crítico passam a ser competências mais visíveis.
Para Patricia Suzuki, CHRO da Redarbor Brasil, grupo que detém o Pandapé, a IA deve ser vista como uma aliada do recrutador no processo seletivo.
"Quando automatizamos partes repetitivas do processo seletivo, o recrutador ganha tempo para investir em etapas que dependem de mais análise, senso crítico e empatia, como conduzir entrevistas, entender o contexto das equipes e tomar decisões que realmente exigem sensibilidade humana. A tecnologia entra como aliada para maior eficiência e assertividade do processo como um todo", explica.
A consolidação da IA no recrutamento aproxima o RH de uma transformação já observada em outras áreas corporativas. A questão deixou de ser se a tecnologia será usada. A questão agora é quem saberá extrair valor dela.
O próprio estudo, porém, mostra que a maturidade ainda é desigual. Cerca de 30% das empresas nunca ofereceram treinamento específico sobre uso de IA, o que expõe um gargalo importante. A adoção avançou mais rápido do que a qualificação das equipes.
Esse descompasso importa para carreira. Em um mercado em que a ferramenta já faz parte da rotina, o profissional de RH que não domina leitura de dados, critérios de automação, noções de vieses algorítmicos e desenho de jornada do candidato tende a perder espaço. O Fórum Econômico Mundial aponta que mudanças tecnológicas continuarão a remodelar empregos e habilidades até 2030, com crescente valorização de competências analíticas, tecnológicas e humanas combinadas.
O avanço da IA no RH não elimina tensões. Um terço dos profissionais ainda demonstra preocupação com vieses e perda de humanização em etapas automatizadas. O alerta é relevante. Se a tecnologia acelera a contratação, também pode escalar erros com a mesma velocidade quando não há governança, supervisão e critérios claros de uso.
É justamente por isso que o crescimento da IA tende a elevar, e não reduzir, a importância estratégica do RH. Caberá à área equilibrar ganho de produtividade com experiência do candidato, velocidade com justiça, automação com diversidade. Em outras palavras, a tecnologia amplia a necessidade de profissionais capazes de interpretar dados sem abrir mão de julgamento humano.
A adoção de IA por 70% das empresas brasileiras mostra que o RH entrou em uma nova fase de profissionalização. O diferencial competitivo deixa de estar apenas na capacidade de executar processos e passa a estar na habilidade de combinar tecnologia, dados e leitura humana. Para quem constrói carreira na área, isso significa uma mudança de perfil.
O recrutador do próximo ciclo precisará ser menos executor de tarefas repetitivas e mais curador de decisões, tradutor de contexto e guardião da qualidade da contratação.
No fim, a IA não diminui o RH. Ela eleva a régua. E, para os profissionais que conseguirem unir repertório técnico, visão de negócio e sensibilidade humana, esse movimento abre mais do que um desafio operacional. Abre uma oportunidade clara de reposicionamento de carreira.
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