Romário se garante na política como nos gramados. Vai longe?

Em sua nova carreira, o deputado federal Romário traz para a política o instinto de atacante que o consagrou nos gramados. Será que vai longe de novo?

O deputado federal Romário de Souza Faria, de 47 anos, ocupa o gabinete 411 do anexo IV da Câmara dos Deputados, em Brasília. O número faz referência à camisa que o novato político vestiu durante sua longa e premiada carreira de jogador de futebol.

Hábil na arte de inventar espaços nas grandes áreas do mundo, Romário agora se vira em reduzidos 35 metros quadrados do gabinete, onde trabalha com sua equipe de sete pessoas. 

Entre elas está Elaine Depollo, secretária portadora de síndrome de Down que fez companhia à reportagem da VOCÊ S/A durante as quase 3 horas de espera até que o ex-craque terminasse uma reunião do Partido Socialista Brasileiro (PSB) e pudesse conceder uma entrevista sobre sua nova carreira.

Ele chega ao gabinete de paletó e gravata, figurino de deputado. Mas a atitude é a mesma dos tempos de jogador: irreverente, confiante, sem freio na língua. "Vou vencer as eleições para a prefeitura do Rio de Janeiro em 2016, não importa quais forem meus oponentes", afirma Romário, esbanjando a imodéstia de quem passou mais de 20 anos acumulando vitórias com as camisas de Vasco, Flamengo, Fluminense, Barcelona, da Espanha, e PSV, da Holanda. 

Em seu terceiro ano de mandato como deputado, Romário já se consolidou na carreira política e começa a fazer planos maiores, como se eleger prefeito do Rio de Janeiro no ano da Olimpíada. Eleito por mais de 150.000 votantes fuminenses, o Baixinho é hoje um dos deputados mais dedicados da Câmara.

Com 95% de presença nas sessões e 14 projetos de lei propostos, ele vem surpreendendo aos que, em 2010, duvidavam de suas competências como legislador e o comparavam a outras celebridades puxa-votos, como o palhaço Tiririca (PR/SP).


"O Romário quebra a engessada capitania hereditária brasileira e mostra que candidatos sem tradição na política também podem ser competentes", afirma Jean Wyllys, ex-BBB e deputado federal pelo Partido socialismo e liberdade (PSOL) do Rio de Janeiro, outra celebridade novata que vem ganhando destaque. "Grande parte dos parlamentares que têm anos de experiência e herança familiar na política nada fez para melhorar o país." 

Inspirado por ivy, sua sexta flha, hoje com 8 anos, que nasceu com síndrome de Down, romário entrou na política para lutar por melhores condições para pessoas com necessidades especiais. Assim que compreendeu o funcionamento do Poder Legislativo, tomou gosto e diversificou suas pautas, que agora abrangem temas como educação, ciência, mobilidade urbana e combate às drogas.

Tornou-se um ferrenho crítico das falcatruas de instituições esportivas envolvidas nas obras para a Copa do Mundo de 2014, atuação que lhe ren-deu destaque na mídia internacional e apoio popular. Em outubro, assumiu o posto de presidente de seu partido no estado do Rio de Janeiro. 

Seu apoio e sua popularidade já se tornaram moedas valiosas no Fla-Flu da política. "Meu sonho é ser candidato em uma chapa com ele", diz o senador Lindbergh Farias, pré-candidato ao governo do Rio pelo Partido dos Trabalhadores (PT). "Seríamos imbatíveis", afirma.

Palácio da Cidade

Na política, as coisas mudam a toda hora, mas Romário tem planos ambiciosos para a nova carreira. O próximo passo será dado em 2014, quando haverá eleições para o Congresso e os governos estaduais. "A maior parte dos meus pensamentos está voltada para uma possível candidatura à reeleição como deputado, mas recebi propostas para concorrer ao Senado, ao governo ou ao vice-governo do Rio", diz.

O grande objetivo, porém, é ser prefeito da cidade onde nasceu. "Independentemente de qualquer plano para 2014, em 2016 eu vou atrás da prefeitura do Rio."

Na opinião do cientista político Fernando Abrúcio, da Fundação Getulio Vargas de São Paulo (FGV/SP), a ascensão rápida do Baixinho na política tem duas razões. 

A primeira é a postura independente do ex-jogador, que não se alinha aos conchavos dos colegas de Câmara. A segunda razão foi a sorte de ver uma de suas bandeiras — a crítica à gastança nas obras da Copa do Mundo — ganhar as ruas durante as manifestações populares deste ano.


Mas uma evolução na política é mais difícil do que nos campos de futebol. Um craque joga em qualquer time, porém um bom deputado não necessariamente será um bom senador ou prefeito.

"São cargos que demandam mais votos, exigem uma experiência que ele ainda não possui e não se sabe se ele está preparado para vencer candidatos mais antigos, com maior conhecimento político", afirma Fernando.

Na opinião do especialista, é difícil prever quanto Romário pode crescer nos próximos três anos. "A popularidade dele puxa muitos eleitores e, se ele conseguir formar boas alianças e mantiver a qualidade do trabalho, a tendência é que chegue ao topo da pirâmide na política", diz. "Mas talvez isso não aconteça no tempo que ele espera, pois há muitos candidatos populares no Rio de Janeiro hoje."

O gênio forte

Para o treinador do América do Rio de Janeiro, Ademar Braga, que foi o primeiro preparador físico de Romário nos tempos de Vasco e o conhece desde a adolescência, a coragem é um traço da personalidade que já veio de casa com o Baixinho.

Seus pais, Edevair e Manuela, foram presentes em sua criação, moldando um perfl que lhe daria confiança para enfrentar obstáculos e se destacar em qualquer profissão que escolhesse.

"Ele tem dado certo na política porque sempre teve a liderança no sangue e, se tivesse treinado mais, poderia ter sido ainda maior no futebol", afirma Ademar.

O especialista em psicologia da educação Paulo Campos acredita que as características de Romário como jogador ajudam a entender o político. segundo Paulo, Romário é extrovertido, sensorial, racional e perceptivo, o que signifca que ele tem um perfil empreendedor, improvisador, que trabalha de forma independente e criativa.

"Se ele vai dar certo nessa carreira ou não, ainda é cedo para dizer, mas a personalidade dele indica que tem potencial", diz.


Enquanto fala sobre assuntos de alta complexidade, Romário não perde o jeito descontraído de se expressar, tipicamente carioca. Tampouco deixa de lado o comportamento desbocado quando se refere a temas ou pessoas que o desagradam.

"Fui considerado marrento por um tempo, mas digo o que penso com tranquilidade, tenho provas de minhas denúncias e, se isso incomoda os outros, eu não me importo", afirma o deputado.

Para a deputada Luiza Erundina, do PSB/SP, relacionamento e afetividade não são problemas para o companheiro de partido. "As pessoas em geral gostam muito dele no trabalho, pois é atencioso, dedicado e está sempre disposto a ajudar", diz Luiza.

De volta à competição

Quando parou de jogar, Romário pensou em diversas possibilidades de carreira. Já fez dois períodos de uma faculdade de moda e cogitou abrir um negócio na área. Também cursou Educação Física, quando considerou seguir carreira no esporte.

Caiu na política quatro anos depois do nascimento de Ivy, quando buscou aconselhamento de carreira para optar por um entre tantos convites de partidos. "Percebi que meu nome me ajudaria a lutar por causas mais solidárias", diz.

Sem muita pretensão no início, o ex- tacante reencontrou no Congresso o prazer da disputa. "Continuo na política porque quero criar uma realidade melhor para o povo, pois financeiramente essa carreira só me dá prejuízo", afirma, referindo-se às ações judiciais que tem recebido de pessoas que denunciou. 

Depois de ter vivido períodos de crise financeira, ser criticado por inadimplência de pensões familiares e outras dívidas pessoais, Romário garante que conseguiu se reerguer. "Não preciso mais ganhar bem, com o dinheiro que guardei do futebol posso ficar sem trabalhar para o resto da vida e ainda sustentar meus bisnetos", afirma.

No início da carreira parlamentar, Romário temia perder o status de ídolo. "Na Câmara, sou baixo clero", diz. "Mas hoje me vejo até mais ídolo do que antes porque reconhecem meu trabalho nas ruas."

Com faro de atacante e uma fé incomum no sucesso, o peixe — como Romário costuma tratar os amigos próximos — tem mostrado até agora um discurso que condiz com a prática. Mas, se os tubarões vão engolir o peixe ou se o peixe vai virar tubarão, só saberemos a partir das próximas eleições.

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