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O Brasil é um país competitivo no cenário de transição energética e que se destaca por sua multiplicidade de matrizes. É o que afirma a diretora de Estudos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Heloísa Borges, que vai participar do ENGIE Day, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, nesta quarta-feira, dia 2 de agosto. A executiva afirma que o Brasil apresenta enorme potencial no processo de transição para uma economia de baixo carbono, especialmente por conta da abundância de diversidade de recursos energéticos. 

A diretora, que concedeu uma entrevista exclusiva para o Bússola/Exame, vai participar de um painel sobre as Fronteiras da Energia com outros stakeholders do setor, para debater  as oportunidades que se abrem para o Brasil, inclusive no que diz respeito a novas tecnologias, como eólicas offshore e hidrogênio verde. O ENGIE Day tem o objetivo de estimular o debate sobre a transição energética, a descarbonização da economia e seus impactos socioambientais. 

Entrevista com a especialista Heloísa Borges

Bússola: Quais as novas fronteiras da energia nas quais o Brasil pode ser competitivo e ter protagonismo no cenário global de transição para uma economia de baixo carbono?  

Heloísa Borges: O Brasil já é extremamente competitivo no cenário de transição. Saímos na frente nesse processo e hoje temos uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo, o que nos permite explorar e ampliar novas fronteiras da energia. No cenário global de transição para uma economia de baixo carbono, o Brasil apresenta enorme potencial, cabendo destacar a abundância e diversidade de recursos energéticos, tanto fósseis como renováveis. Essa variedade de fontes e as condições edafoclimáticas do Brasil representam um diferencial competitivo que não deve ser desconsiderado na estratégia energética brasileira e no contexto geopolítico e de relações com demais países.  

Neste sentido, podemos citar a bioenergia com todas as suas possibilidades, o uso das fontes eólica e solar como fronteiras da energia, e nossa expertise em exploração de hidrocarbonetos que pode ser transformada em vantagem competitiva para a captura e estocagem de carbono. O Brasil pode ser competitivo em todas essas fronteiras.

Bússola: A EPE já planeja a entrada dessas novas fontes na matriz energética brasileira, como hidrogênio verde e eólicas offshore? Qual será o peso delas no futuro? 

Heloísa Borges: O planejamento energético nacional deve considerar as necessidades futuras de energia e como o país poderá atendê-las.  

O Plano Nacional de Energia 2050, publicado em 2020, já trazia esse potencial, inclusive o do hidrogênio de baixo carbono. O PDE 2031 (Plano Decenal de Expansão de Energia) considerou a tecnologia eólica offshore como candidata à expansão no horizonte do PDE 2031 e contou com um capítulo sobre hidrogênio. 

A EPE tem contribuído nas discussões relativas a eólicas offshore e tem observado a expansão para essa fonte no cenário internacional nos últimos anos e às movimentações relacionadas à proposição de projetos eólicos offshore que têm ocorrido no mercado brasileiro. Nesse intuito a EPE, em 2020, publicou o estudo “Roadmap Eólica Offshore Brasil” onde mapeou o recurso para torres de 100 metros de altura e a uma batimetria (profundidade do mar) de até 50 metros. O documento também identificou possíveis barreiras e desafios a serem enfrentados para o desenvolvimento da fonte eólica offshore no Brasil, além de compreender melhor os aspectos relativos a essa fonte.  

Da mesma forma, reconhecendo a importância da temática do H2, ela foi trazida no PNE 2050 e amplamente discutida no PDE 2031, que apresentou o potencial técnico de produção de hidrogênio a partir do saldo de recursos energéticos até 2050.  

Por fim, no âmbito do Programa de Transição Energética, desenvolvido em parceria com CEBRI, BIRD e CENERGIA, a EPE explorou o papel das várias alternativas para a neutralidade de carbono da economia brasileira, destacando o uso indireto do H2 para a produção de gás de síntese para a produção de biocombustíveis avançados.  

Bússola: É necessária a convivência entre fontes fósseis e renováveis no longo prazo? Quais iniciativas são necessárias para mitigar emissões das alternativas fósseis? 

Heloísa Borges: É importantíssimo ter em mente que a transição energética é um processo. Ainda: é um processo não linear, que compreende a coexistência de uma indústria tradicional com a indústria emergente de energia por um período significativo. Historicamente, as transições energéticas foram lentas e ainda hoje fontes fósseis como o carvão coexistem com fontes menos intensivas em carbono em diversos países. 

O mundo necessitará de energia, o que não pode ser suprido de maneira integral por fontes renováveis por um longo período. O desafio que se coloca é usualmente denominado de trilema energético: precisamos buscar Segurança Energética, Equidade Energética (acesso à energia) e Sustentabilidade Ambiental. A solução não é simples, nem rápida; e o futuro descarbonizado não é um futuro sem hidrocarbonetos. 

Isto posto, o mundo deve procurar mitigar as emissões das alternativas fósseis por meio de iniciativas que promovam o aumento da eficiência energética de equipamentos e sistemas, o uso racional da energia e a aplicação de tecnologias como a estocagem de carbono e a eletrificação em processos de conversão de energia. No Brasil diversas fontes de biomassa prosperam de forma abrangente e o País apresenta uma indústria de biocombustíveis competitiva e que reduz a dependência dos derivados de petróleo, além de contribuir para a descarbonização da economia. 

Bússola: Qual será o papel das tecnologias de armazenamento de CO2 no contexto da transição energética? 

Heloísa Borges: Como mencionado nas respostas anteriores, o crescimento esperado das necessidades energéticas dos países somado ao desafio de solucionar o “trilema” da energia é confrontado com os desafios para a sustentabilidade do setor energético frente às pressões impostas pela necessidade de combate às mudanças climáticas. Nesse contexto, as tecnologias de Captura e Armazenamento de Carbono (do inglês CCS - Carbon capture and storage) surgem como peças-chave para que as metas definidas em acordos ambientais internacionais sejam atendidas ao passo que as alternativas relacionadas a fontes renováveis possam, atendidos os requisitos de acessibilidade à energia e segurança energética, ampliar seu alcance na sociedade. Em síntese, o CCS (em inglês: carbon capture and storage) é uma ferramenta essencial para a transição energética no Brasil e no Mundo.  

Essa tecnologia pode contribuir efetivamente na redução das emissões de GEE nas atividades econômicas em geral e no setor de energia em particular. E o Brasil tem nela uma oportunidade: o setor de petróleo e gás natural tem competência técnica para migrar expertise dessa tecnologia, inclusive para outros setores da indústria também interessados em captura e armazenamento de carbono, em muitos casos considerando a possibilidade de aproveitamento de CO2. Ela é essencial para a própria competitividade do setor de petróleo e gás, uma vez que permite uma produção mais descarbonizada. 

A EPE, em sua visão de longo prazo, vê a CCS como uma tecnologia norteadora para o estabelecimento de diferentes cenários. Estudos estratégicos preliminares, como mapeamentos e diretrizes que apoiem o estabelecimento da tecnologia no país, podem torná-la atrativa para a entrada de investimentos. Nesse sentido, a EPE está em vias de contratação de consultoria especializada, no âmbito do Projeto META do Banco Mundial, que inclui mapeamento de sítios de estocagem e CCUS no país. 

Bússola: O Brasil pode ser um player importante para o desenvolvimento de um mercado global de carbono vendendo serviços de descarbonização? Qual a perspectiva da EPE? 

Heloísa Borges: Sim. O Brasil, que já é um importante player no segmento de energia, pode ser também um player importante em um mercado global de carbono. Globalmente, parte dos países busca adotar políticas públicas de incentivo à redução de emissão, assim como as empresas privadas que privilegiam projetos mais eficientes e menos intensivos na emissão de GEE e promovem a criação de mercados de carbono. 

Neste contexto, o Brasil, por suas características e potencialidades já citadas anteriormente, pode atuar como agente importante na prestação de serviços de descarbonização, com a produção de combustíveis renováveis e na geração de energia renovável (solar, eólica, de biomassa). 

Mas não apenas isso. No PNE 2050, a EPE indica a importância tanto de instrumentos do tipo comando e controle (normas, padrões etc.) quanto mecanismos de incentivos via Mercado (precificação do carbono, comércio de certificados de emissão). E mais recentemente, em nossos cenários de descarbonização fica claro o importante papel das chamadas “Soluções Baseadas na Natureza” (NBS - do inglês “nature based solutions”). 

Outro exemplo importante é o acordo de cooperação técnica assinado entre a EPE e o BNDES para estudar incentivos à restauração florestal por meio de créditos de carbono. Com a iniciativa, as empresas dos setores de petróleo e gás terão ampliadas as oportunidades de compensações de emissões de gases de efeito estufa. A parceria prevê a análise de formas de canalizar recursos, através desse mercado, para atividades de preservação e restauração da vegetação nativa no país. 

Bússola: Quais outras mensagens a senhora gostaria de passar sobre o tema fronteiras da energia que pretende destacar na sua apresentação no ENGIE Day, por favor? 

Heloísa Borges: A energia é fundamental não apenas para impulsionar o desenvolvimento econômico do Brasil, mas como vetor de inclusão social. E a diversidade, de fontes, pensamentos, pessoas e soluções será fundamental para chegarmos ao futuro descarbonizado. Diversidade é a chave (não existe uma “solução única” para todos). 

Para que a transição energética ocorra a indústria de O&G tem e terá papel fundamental, na medida em que uma maior parte de seus recursos podem ser utilizados para tornarem seus processos mais sustentáveis e para a promoção e desenvolvimento de uma indústria de baixo carbono. Muita da expertise desenvolvida para a indústria petroleira pode ser aplicada nas fontes renováveis, como no caso das eólicas offshore. 

E muito embora o futuro descarbonizado não seja um futuro sem hidrocarbonetos, a indústria de O&G precisa reduzir sua pegada de carbono. Nesse sentido, além das iniciativas já mencionadas nas respostas anteriores, a adoção da economia circular pelo setor de O&G surge como oportunidade para aumento do desempenho e longevidade das empresas, contribuindo para a sustentabilidade ao longo do processo de transição energética. 

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