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Bioeconomia: como uma agroindústria se revolucionou

Saiba como a sustentabilidade afetou a agroindústrias no Brasil
 (Cristiano Mariz/Exame)
(Cristiano Mariz/Exame)
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Evandro Gussi*Publicado em 09/11/2022 às 20:00.

A indústria da cana-de-açúcar é a mais antiga das agroindústrias brasileiras e provavelmente a que mais se transformou no decorrer dos séculos. Hoje, temos um setor altamente mecanizado, digitalizado, com um nível de governança alinhado à ideia de ESG desde muito antes de esse conceito surgir e ser difundido no mundo. A participação da bioenergia na matriz energética brasileira está ancorada em sólida base de pesquisa e desenvolvimento tecnológico.

O corte manual da cana, precedido pela queima da palha, deu lugar à colheita mecanizada, capaz de unir sustentabilidade e as melhores práticas trabalhistas. Para chegar a essa realidade, intenso trabalho de pesquisa e desenvolvimento, tanto na área agrícola quanto na da indústria de equipamentos, acelerou o processo de integração da cadeia de valor. Era necessário ainda estar atento aos colaboradores, num processo que atendeu mais de 400 mil trabalhadores em processos de requalificação profissional.

Em movimento paralelo, o setor redefiniu a expressão economia circular ao aproveitar, com eficiência, seus próprios resíduos. A vinhaça e a torta de filtro, por exemplo, deixaram de ser problema para se transformarem em matérias-primas, já que passaram a ser devolvidas ao campo como biofertilizantes. Não fosse isso o bastante, a nova revolução empreendida pelo biogás e pelo biometano faz com que sejam processados em biodigestores, produzindo um gás energético idêntico quimicamente ao gás natural, só que com menores emissões.

O biometano produzido a partir dos resíduos da cana também está na base das pesquisas para o desenvolvimento do hidrogênio verde, inovação que certamente ampliará a vantagem competitiva dos insumos agrários. Tudo isso sem perder a capacidade biofertilizante. Ao contrário, depois da biodigestão, extrai-se um insumo ainda mais eficientes do que em seu estado natural.

O setor ainda rompeu com um dos principais riscos associados à bioenergia: o dilema food versus fuel, isto é, a competição entre alimento e energia. Dado o processo de rotação de cultura da cana, ao final de cada ciclo de plantio, ela pode ser substituída por um ciclo de amendoim ou soja, por exemplo. Além de ajudar na fixação de nitrogênio no solo, esse modelo transformou o estado de São Paulo no maior produtor de amendoim do Brasil, com mais de 640 mil toneladas, das quais grande parte se deu em áreas de rotação de cultura da cana-de-açúcar. No caso do etanol a partir do milho, os dados impressionam pelo incremento incrível da oferta de ração animal, levando a bioenergia a um novo paradigma: quanto mais energia, mais alimento.

A biomassa da cana também gera bioeletricidade. Limpa e renovável, a energia é gerada próxima aos centros consumidores de energia elétrica, reduzindo as perdas do sistema e a necessidade de investimentos em transmissão. Em 2021, essa geração para a rede foi de 20,2 TWh, montante que equivaleria a atender quase 80% do consumo anual de uma cidade como São Paulo.

As perspectivas de novos mercados a partir dos produtos e subprodutos da cana e do milho são as melhores possíveis. Com políticas que garantam previsibilidade e segurança jurídica aos investidores, a indústria sucroenergética tem potencial para atuar como vetor para outros sistemas produtivos ainda sem escala para alavancar o aproveitamento de resíduos, em uma dinâmica extremamente orientada ao mercado e alinhada com a nova bioeconomia.

*Evandro Gussi é presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica)

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