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A arte de transformar bicos em negócios de sucesso

Curso de gestão da Chamada de Impacto já formou e mudou a vida de 750 microempreendedores em situação vulnerável na região do Pantanal

Gabriela Werner, CEO da Chamada de Impacto (Bússola/Divulgação)

Gabriela Werner, CEO da Chamada de Impacto (Bússola/Divulgação)

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Renato Krausz

8 de dezembro de 2022, 17h40

“Antes eu tinha um bico. Hoje eu sou uma empreendedora.” A frase chega até mim pela tela do celular e vem de Lambari d’Oeste, cidade do Mato Grosso com pouco mais de 6 mil habitantes, a 274 km da capital Cuiabá. Há um sorriso no rosto e tons de felicidade e orgulho na voz da minha interlocutora. Falo com a bem-sucedida mulher de negócios Rosenilda Alves de Oliveira, de 44 anos.

O ramo de atividade de Rosenilda é o da alimentação. Mais precisamente o de bolos, que são feitos por ela em casa e vendidos de modo a contribuir significativamente para complementar a renda e o sustento de sua família. “Acho que é um dom de nascença. Quando eu era criança, adorava fazer bolos de barro”, lembra. Há 15 anos, começou a produzi-los em potes para vender. “Com eles, consegui comprar, devagarinho, cimento para erguer minha casa”, conta ela.

Aí alguém pode se perguntar: e como a coisa virou um negócio de sucesso? Isso foi possível, em primeiro lugar, pela perseverança de Rosenilda. E também pelo fato de ela ter sido uma das 750 pessoas de diferentes cidades do Mato Grosso que já passaram pelo curso de gestão oferecido pela Chamada de Impacto, uma iniciativa nascida em Florianópolis e que, em apenas dois anos, já mostrou ter potencial de transformar completamente o negócio e sobretudo a vida de milhares de microempreendedores em todo o Brasil.

Após o curso, Rosenilda criou uma marca própria, a Delícias da tia Rô. Abriu uma loja online e nela recebeu mais de mil visitas em menos de dois meses. Mergulhou no marketing digital e entrou no Google Meu Negócio. Lançou um cartão fidelidade. Passou a gerir melhor a compra e o estoque de ingredientes – inclusive construiu prateleiras novas em sua cozinha para essa finalidade. Investiu numa batedeira mais moderna.

(Bússola/Divulgação)

O próximo passo é comprar uma panela mexedora e um forno maior. “Acho que até fevereiro eu consigo”, empolga-se. Participou de uma feira de negócios e conseguiu formar um belo networking – vamos chamar de rede de relacionamento, até porque o curso evita termos em inglês – com outros empreendedores da região. Resultado: as vendas mensais aumentaram em mais de 60%. Quatro meses após a Chamada, ela esteve numa grande feira gastronômica da capital Cuiabá para levar seus produtos e o de colegas lá de Lambari. “Quando a gente estuda, a gente só melhora”, diz ela.

O foco da Chamada de Impacto é a redução de desigualdades, geração de renda e dignidade para microempreendedores individuais, formalizados ou não, que estejam em situação vulnerável. “Após o curso, a renda deles aumentou em média R$ 1.500 por mês”, conta a idealizadora e CEO da iniciativa, Gabriela Werner.

O curso consiste de encontros semanais feitos ao longo de três meses, sempre presenciais, nos quais são tratados temas como finanças, marketing e vendas. Depois, cada aluno tem três sessões individuais de mentoria para discutir assuntos específicos do seu empreendimento. E o grand finale é uma feira de negócios, normalmente feita no pátio da escola ou no átrio da igreja, em que cada empreendedor pode apresentar aos moradores da cidade os seus produtos ou serviços.

Como hoje vivemos na era dos dados, a Chamada de Impacto os coleta aos borbotões, e é notável como são capazes de escancarar um retrato tão brasileiro das nossas exclusões quase perenes do mercado de trabalho. Dos 750 já formados, 68,7% são pessoas pretas ou pardas; 73% são mulheres; e 65% não têm curso superior. Foram mapeados também os principais ramos de atividade desses empreendedores. O de Rosenilda, o da alimentação, lidera com 17,7%, seguido de beleza e estética (14%), vestuário (10,9%), comércio em geral (7,2%) e artesanato (6,2%).

A Chamada nasceu em 2020 e testou o modelo de sucesso num projeto piloto na capital catarinense. Em 2021 e 2022, por meio de uma parceria com o Sebrae-MT, disseminou seu impacto em 11 cidades do Estado e, para 2023, planeja chegar a outras 30. E o que é preciso para atingir o Brasil todo? “Precisamos de outras parcerias como esta que fizemos com o Sebrae”, diz Gabriela. E elas podem ser também com prefeituras, empresas ou fundações.

Gabriela é uma advogada com pós-graduação em economia que construiu carreira em bancos e consultorias, além de ONGs, para então se tornar cofundadora e CEO do Impact Hub Floripa, em 2015. O Impact Hub é uma rede global presente em 108 cidades de 60 países que se dedica a impulsionar inovação e impacto socioambiental positivo. E a filial de Florianópolis trabalha à beça – brincadeira, todas trabalham. O fato é que a Chamada de Impacto é o segundo programa de formação de microempreendedores idealizado pelo Impact Hub Floripa. O primeiro se chama Salto Aceleradora, que desde 2017 forma gente não necessariamente em situação vulnerável, em cursos não necessariamente presenciais. Já acelerou 5 mil microempreendimentos em diferentes Estados brasileiros, e aqui também há dados surpreendentes de aumento de renda mensal.

Agora vamos pensar numa coisa, talvez a mais importante para movimentar a economia brasileira. Neste nosso país, 70% dos 13 milhões de CNPJs são de empreendedores individuais. Estão vendo? Está aí um oceano de oportunidade para quem quiser nadar de braçada nessa coisa primorosa de trabalhar com propósito de melhorar o mundo. A Chamada de Impacto, o Salto Aceleradora, o Sebrae, a Gabriela, a Rosenilda e muitas outras instituições e pessoas admiráveis já estão lá na frente.

*Renato Krausz é sócio-diretor da Loures Comunicação

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