Como ler os resultados do Ideb — e o que fica da educação no Brasil pós-pandemia

Indicador que mede desenvolvimento da educação, Ideb deve mostrar queda, mas precisará ser lido sem generalizações, dizem especialistas
 (Pilar Olivares/Reuters)
(Pilar Olivares/Reuters)
C
Carolina Riveira

Publicado em 16/09/2022 às 03:14.

Última atualização em 16/09/2022 às 10:51.

O Brasil terá um retrato mais nítido do tamanho do desafio na educação pós-pandemia a partir desta sexta-feira, 16, quando é divulgado o resultado do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb). Será o primeiro desde o início dos casos de covid-19 e fechamento das escolas — o Ideb é bianual e o último divulgado, em 2020, era referente ao ano anterior, em 2019.

Os números a serem divulgados hoje dizem respeito ao ano de 2021, quando a maior parte das escolas brasileiras ainda estava fechada ou funcionando de forma híbrida.

Receba as notícias mais relevantes do Brasil e do mundo toda manhã no seu e-mail. Cadastre-se na newsletter gratuita EXAME Desperta.

Assim, existe um consenso de que a nota, infelizmente, será pior do que a de 2019.

O Ideb é um índice que vai de zero a dez e tenta mensurar aspectos da qualidade na educação por meio de duas frentes: desempenho em prova de português e matemática e fluxo escolar, isto é, se os alunos estão permanecendo e avançando de série na escola (veja os detalhes abaixo). O Ideb passou a ser adotado em 2005 e é calculado pelo Inep, autarquia vinculada ao Ministério da Educação, incluindo escolas públicas e privadas.

Antes da pandemia, o Brasil vinha tendo alguma evolução nos indicadores de qualidade, sobretudo no ensino fundamental, apesar dos desafios ainda latentes. Um dos objetivos gerais do Brasil é atingir patamar de seis ou superior, similar a países desenvolvidos.

  • A nota do Brasil nos anos iniciais do fundamental (crianças até o 5º ano, de cerca de 10 anos de idade) foi de 3,8 em 2005 para 5,9 em 2019 (alta de 2,1);
  • Nos anos finais do fundamental (até o 9º ano, 14 anos na idade ideal), o Ideb foi de 3,5 em 2005 para 4,9 em 2019 (alta de 1,4);
  • O maior desafio é o ensino médio (até 17 anos na idade ideal), que vinha evoluindo pouco, de 3,4 em 2005 para 4,2 em 2019 (alta de 0,8).

A nota menor do ensino médio reflete taxas maiores de abandono da escola pelos alunos e desempenhos piores nas provas — os dois componentes que aparecem no Ideb. A pandemia não deve trazer boas notícias nessa frente, uma vez que o ensino médio foi uma das etapas mais afetadas na permanência, com a necessidade dos alunos mais velhos de trabalhar em meio à crise econômica.

VEJA TAMBÉM: Unicef: 2 milhões de adolescentes no Brasil estão fora da escola pós-pandemia

Desde que o Ideb foi criado, a orientação técnica é que o índice não deve ser visto como uma nota isolada em um ranking. O melhor dado a ser analisado é a evolução de cada escola, cidade ou estado na comparação consigo mesmo, ou com outros locais parecidos em condições socioeconômicas.

Como a EXAME mostrou, mesmo antes da covid-19, redes estaduais que atendem alunos mais pobres tiveram notas piores, pois há uma relação entre situação socioeconômica dos alunos e o desempenho. Se isso já era verdade antes da pandemia, os últimos dois anos ajudaram a escancarar as desigualdades, com problemas como a falta de acesso à internet para acompanhar as aulas, que serão refletidos nos números do Ideb.

O Ideb de 2021, por isso, deve ser lido com cautela redobrada, dizem especialistas consultados pela EXAME. "Neste ano, praticamente a única comparação que pode ser feita é de um estado com ele mesmo”, diz Ricardo Henriques, superintendente-executivo do Instituto Unibanco, organização com foco em educação, em conversa prévia sobre o índice.

O que é o Ideb e como entender a nota

A nota do Ideb para cada localidade inclui dois componentes:

  • Taxa de insucesso, que mede o "fluxo escolar" ao combinar abandono e desaprovação, isto é, se alunos estão permanecendo na escola e se estão passando para as próximas séries;
  • Desempenho, medido via resultados do Saeb, uma prova aplicada no final de cada etapa escolar (por exemplo, alunos do 5º ano fazem o Saeb para medir o que foi aprendido ao longo dos anos iniciais do fundamental, e esse resultado será parte do Ideb desta etapa). O exame testa conhecimentos sobretudo de português e matemática.

Cada escola tem sua nota e uma meta própria a ser perseguida, assim como cada cidade, cada estado e, por fim, a média geral do Brasil. O índice geral inclui escolas públicas e particulares, mas o Inep também separa, na divulgação, os resultados específicos da rede pública e da privada.

VEJA TAMBÉM: Banco Mundial: por que o Brasil desperdiça 40% de seus talentos — e o que fazer para mudar o cenário

Embora seja um dos principais indicadores usados no debate sobre qualidade da educação, o Ideb não resume toda a discussão qualitativa, dizem especialistas, e há outros pontos que muitos argumentam que deveriam constar nas métricas.

Mas o índice é visto como um primeiro passo para analisar os dois objetivos que estão englobados na nota: o quanto os alunos estão continuando na escola e, uma vez matriculados, se estão aprendendo determinados conceitos esperados.

Apesar disso, especialistas no índice apontam que, se um estado tiver nota superior a outro, o número não significa automaticamente que há um melhor trabalho sendo feito na educação local — é preciso ver o quanto o estado avançou nos últimos anos e se há outros problemas internos, como desigualdades que podem elevar a nota enquanto escondem problemas de acesso ou aprendizagem para alguns grupos.

Na última década, por exemplo, estados como Ceará no ensino fundamental e Pernambuco no ensino médio se tornaram modelos de evolução das notas no Ideb; enquanto outros estados, ainda que tenham notas maiores na leitura individual, mostram estagnação, como São Paulo no ensino médio.

Os pontos cegos no Ideb pandêmico

Com os gargalos gerados pela pandemia, os resultados do Ideb deste ano terão questões em aberto que vão além das notas.

Em 2019, o Ideb do ensino médio havia surpreendido e saído da estagnação, indo de 3,8 para 4,2 (isto é, a etapa avançou em dois anos o que havia demorado uma década anteriormente). Não fosse a pandemia, a expectativa era que o Ideb de 2021 ajudasse a esclarecer se essa evolução era de fato algo consistente ou somente pontual por questões estatísticas.

Já o Ideb dos anos iniciais do fundamental, o grande sucesso da rede pública brasileira, havia mostrado pouca evolução no último biênio (de 5,8 para 5,9), e uma questão a ser respondida era se o avanço visto na última década poderia ter chegado a um teto. Ambas as perguntas seguirão em aberto diante da pandemia e da redução generalizada esperada para as notas deste ano.

Além disso, os resultados de aprovação e abandono, por exemplo, dependerão em 2021 de o quanto as escolas conseguiram monitorar as atividades durante a pandemia. Em muitas escolas, professores tiveram de enviar tarefas assíncronas ou perderam o contato com as famílias quase totalmente.

Nesse contexto, diz Henriques, do Instituto Unibanco, o Ideb de 2021 corre o risco de “penalizar com notas piores” as escolas que “foram mais rigorosas” nessa análise, porque tais redes admitirão que muitos alunos abandonaram e terão, assim, notas ruins no aspecto de fluxo.

VEJA TAMBÉM: Na volta da pandemia, falta de internet para alunos ainda é entrave, diz pesquisa

Outra questão é que, se em determinada cidade alguma escola estava fechada durante o Saeb, muitos alunos não terão feito o exame e os dados ficarão incompletos. Milhares de cidades no Brasil têm somente uma escola de ensino médio, por exemplo; se alunos dessa escola não foram adequadamente avaliados porque a escola estava fechada, a média de um estado mostrará só “parte” da realidade.

Algumas dessas análises só poderão ser feitas quando o Inep publicar os chamados “microdados”, com informações detalhadas sobre tudo o que foi coletado e que costumam ser liberados meses após o dado oficial do Ideb.

Essa análise mais aprofundada pode ajudar a reduzir leituras erradas da nota geral — uma rede pode ter tido nota alta mas, na leitura mais atenta, constatar-se que a desigualdade entre alunos pretos e brancos é muito alta (isto é, alunos brancos ou mais ricos puxaram a média total para cima), ou ainda que há algumas ilhas de excelência carregando a nota, ou que a escola foi pouco rigorosa na computação do abandono e por isso teve índice melhor.

“No futuro, vamos poder entender melhor se houve alguma rede que não piorou muito, por exemplo, e entender o porquê, o que fizeram de certo — e o que talvez possa ser copiado”, diz Henriques, mas aponta que esse tipo de discussão poderá ser feita somente após análise mais detalhada.

VEJA TAMBÉM: Alunos com Ensino Superior passam melhor pela crise, mostra estudo

Não significa que o Ideb deve ser ignorado, mas será necessário reconhecer que o ano de pandemia trouxe limitações à própria medição, resume o especialista. Ao mesmo tempo, daqui para a frente, ele aponta também que o discurso de que a geração da covid-19 está “perdida” não é benéfico para o debate de soluções, e que os resultados terão de ser base para recuperar o atraso da pandemia.

É comum na comunidade da educação afirmar que o Ideb tem de ser lido como “uma história”, não um capítulo sozinho a cada ano que é divulgado. O capítulo a ser contado em 2022 será, infelizmente, de um tropeço forte — mas cabe agora a governos, gestores públicos, sociedade civil e comunidade educacional trabalhar para que a continuidade da história seja escrita da melhor forma possível.

Receba as notícias mais relevantes do Brasil e do mundo toda manhã no seu e-mail. Cadastre-se na newsletter gratuita EXAME Desperta.