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Unicef: 2 milhões de adolescentes no Brasil estão fora da escola pós-pandemia

Pesquisa do Ipec encomendada pelo Unicef com adolescentes de 11 a 19 anos mostra também que 80% consideram que escola deveria oferecer assistência à saúde mental

Escola: maioria dos alunos se dizem felizes em voltar às aulas, o que mostra "centralidade" da escola presencial na vida dos jovens, diz Unicef (Patricia Monteiro/Bloomberg/Getty Images)

Escola: maioria dos alunos se dizem felizes em voltar às aulas, o que mostra "centralidade" da escola presencial na vida dos jovens, diz Unicef (Patricia Monteiro/Bloomberg/Getty Images)

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Carolina Riveira

15 de setembro de 2022, 16h51

Uma nova pesquisa nacional com adolescentes brasileiros de escolas públicas mostrou que 11% não estão frequentando a escola, mais de dois anos após o início da pandemia da covid-19.

A sondagem foi feita com jovens de 11 a 19 anos em agosto deste ano e encomendada pelo Unicef, Fundo das Nações Unidas para a Infância, junto ao instituto de pesquisa Ipec. Com o resultado, a projeção é que haja o equivalente a 2 milhões de adolescentes fora da escola nesta faixa etária, segundo o Ipec.

O percentual de adolescentes que disse não estar frequentando as aulas é maior entre os mais pobres: na classe DE, o número chega a 17%, enquanto na classe AB, é de 4%.

Dentre os motivos para o abandono, 48% justificaram que tinham de trabalhar e 30% afirmaram que saíram por não conseguir acompanhar as atividades. Ter de ficar em casa para cuidar de familiares também foi um dos motivos mais citados, com 29% (o mesmo aluno poderia escolher mais de um motivo).

Nesses motivos, há um componente de desigualdade, como meninas que têm de fazer cuidados doméstico, diz Mônica Dias Pinto, chefe de Educação do Unicef no Brasil. Em outra pergunta, 49% das meninas se disseram "sobrecarregadas", contra 36% dos meninos. Já na recuperação da aprendizagem, 50% dos alunos pretos ou pardos disseram ter se sentido "despreparados" para acompanhar as atividades, contra 39% dos brancos.

O Ipec coletou respostas entre 9 e 18 de agosto com 1.100 entrevistas seguindo amostragem em todo o Brasil. A margem de erro é de três pontos percentuais para o total da amostra, e o nível de confiança é de 95%.

"É importante ouvir nossos adolescentes e jovens, porque a educação deles diz respeito ao futuro de todos nós", diz Pinto, do Unicef.

A especialista aponta que o estudo não inclui crianças abaixo dos 11 anos, e que os números totais de crianças fora da escola tendem a ser ainda maiores.

Há também o risco de que o número de jovens fora da escola aumente. Mesmo entre quem está estudando, 21% pensaram em desistir nos últimos três meses (o percentual é maior entre quem tem 15 e 19 anos, chegando a 27%).

Alunos estão felizes em voltar, mas pedem atenção à saúde mental

Um dos destaques positivos, segundo o Unicef, é que mais de 70% dos alunos afirmam estar se sentindo animados em voltar à escola. "Esse número nos deixa muito feliz", diz Pinto, afirmando que o resultado deixa claro a "centralidade" do papel da escola e da convivência entre os pares.

A pesquisa mostra também que a maioria dos jovens considera que as escolas voltaram melhores em termos como preocupação com higiene e motivação dos professores.

Porém, passado o período de afastamento, as respostas dos alunos deixaram claro como a demanda por atenção à saúde mental está posta. Ao todo, 80% dos estudantes disseram ser necessário que a escola ofereça atendimento psicológico, e 74% disseram que deveria existir espaço para falar sobre "seus sentimentos".

Essa frente foi oferecida a 39% e 43% dos alunos respondentes - um número que Pinto, do Unicef, viu como positivo e reflexo de como algumas escolas se prepararam para o retorno, mas que ainda precisará melhorar para atender à demanda dos jovens.

Nas escolas em que houve esse oferecimento, quase oito em cada dez alunos que participaram apontam que o atendimento com profissional - ou o espaço oferecido para falar sobre sentimentos - fez o aluno "se sentir melhor ou mais feliz". Mais de 70% dos alunos também disseram que o apoio psicológico melhorou aprendizado, convivência com colegas e com familiares.

Um dos objetivos da pesquisa, segundo o Unicef, foi ouvir o ponto de vista dos alunos e entender como os jovens estavam passando pelo retorno às aulas após mais de dois anos de pandemia. Pinto afirma que recuperar o atraso envolverá sobretudo ação "intersetorial", com medidas de apoio de frentes de atenção social e saúde entre as diferentes secretarias dos governos.

Às vésperas das eleições de outubro, o Unicef também lançou nesta semana uma campanha batizada #VotePelaEducação, com a agência Artplan, em que o objetivo é "mobilizar a sociedade para que cobre de candidatas e candidatos que priorizem a educação na hora do voto".