Ansiedade social e divisões cresceram com pandemia no Brasil e nos EUA

Protestos e embates entre polícia e manifestantes são resultado de deterioração econômica e falta de liderança, segundo economistas e diplomatas

Os Estados Unidos vivem há dias uma série de manifestações que tem levado a confrontos crescentes, tendo como ponto de partida a violência policial. O Brasil viveu neste domingo em cidades como São Paulo, Rio e Brasília uma leva de manifestações (contra e a favor do governo, veja fotos no pé da matéria), que também levaram a confrontos. O maior deles, em São Paulo, envolveu torcidas organizadas em defesa da democracia, de um lado, e apoiadores do governo Bolsonaro, de outro.

Quais as semelhanças entre os dois países? E quais as diferenças? A Exame ouviu analistas na tarde deste domingo. Embora em contextos e magnitudes diferentes, a origem das crises vivenciadas por Brasil e Estados Unidos, neste momento, é a mesma, na visão dos entrevistados: a deterioração da economia provocada pela crise do coronavírus.

O que mais une os dois movimentos é o clima de elevada ansiedade social que tem predominado nos dois países”, diz Gabriel Brasil, analista de risco político da Control Risks. “Há uma rejeição crescente de certos setores da sociedade frente aos presidentes Trump e Bolsonaro que, em boa medida, são reconhecidos por esses grupos como responsáveis centrais pela crise em função da postura negacionista que adotaram no começo da pandemia”.

Os dois países, concordam os analistas, enfrentam a pandemia com presidentes polarizadores, Donald Trump, do lado americano, e Jair Bolsonaro, do lado brasileiro. “São líderes que incitam semanalmente suas bases políticas”, afirma o diplomata Paulo Roberto Almeida, professor do Centro Universitário de Brasília (Uniceub). “Ambos têm se mostrado ineptos para enfrentar a pandemia da covid-19 e a recessão econômica trazida pela doença. Isso é um fator que une os protestos observados aqui e lá”. 

Brasil e Estados Unidos, neste momento, lideram os rankings de mortes e de contaminação por coronavírus, com o Brasil à frente. A semelhança no contexto político, no entanto, contrasta com as diferenças socioeconômicas. “Nos Estados Unidos, há uma fila de 40 milhões de desempregados. Aqui, há 40 milhões de informais que seguem trabalhando, apesar da pandemia, porque estão em uma situação terrível, em que o auxílio emergencial não chega e, se chega, não é suficiente”, diz Almeida. 

Para a economista Monica de Bolle, diretora de estudos-latino americanos e mercados emergentes da universidade americana Johns Hopkins, a pandemia e os protestos estão interligados, na medida em que a degradação econômica, produto da crise sanitária, empurra milhões de pessoas para uma condição de desalento. “Era inevitável”, afirma de Bolle. “Com esse grau de polarização e uma tensão latente, era impossível esperar outro desfecho. O Brasil, no entanto, encontra-se numa posição mais arriscada por ter uma economia menos dinâmica”.

Lucas de Aragão, mestre em Ciência Política pela Fordham University e sócio da Arko Advice, ressalta que há grandes diferenças entre o contexto dos dois países (com a questão social muito marcante nos Estados Unidos). Mas afirma que ambos têm presidentes polarizantes, que politizam temas de saúde, como remédios e o uso de máscaras . “As motivações e os contextos estruturais são diferentes”, afirma. “Mas claro que a chance de manifestações aumenta num país dividido”. 

O racismo em pauta

A questão racial, manifestada na brutalidade policial contra as camadas mais pobres, formadas majoritariamente por negros e pardos, neste contexto, serve de gatilho para o descontentamento. Nos Estados Unidos, o assassinato do segurança George Floyd por um policial branco, numa ação violenta e cruel gravada em vídeo, deu início aos protestos. No Brasil, a morte do menino João Vitor, no Rio de Janeiro, também pelas mãos de policiais, teve um papel relevante para a mobilização da oposição.

“Quando crianças morrem, não vale a narrativa do ‘era bandido, por isso morreu’”, afirma Renato Meirelles, fundador da empresa de pesquisas Locomotiva, com amplos estudos sobre as favelas. “As desigualdades que sempre existiram vem à tona com o processo de crise econômica somado ao isolamento social, que aumenta a irritabilidade de todos, sobretudo dos que moram em casas pequenas, muitas vezes sem água corrente”.

O contexto histórico da desigualdade racial, no entanto, é diferente nos dois países, afirma Oliver Stuenkel, professor de relações internacionais da Fundação Getúlio Vargas. “Nos Estados Unidos, a tensão racial antecede o atual governo. O país enfrenta esse tipo de protesto há décadas”, afirma. Neste momento, o paralelo entre os dois países está no padrão de liderança dos dois governos, mais comum em governos autocráticos do que democráticos. “Trump e Bolsonaro operam da mesma maneira, buscando a mobilização constante de seus seguidores mais radicais. Não vemos isso em democracias como Alemanha e França”, diz Stuenkel.

Para Joel Pinheiro da Fonseca, economista pelo Insper e mestre em filosofia pela Universidade de São Paulo, embora a questão racial esteja presente na pauta, no Brasil, a demanda central dos manifestantes está mais ligada à política do que ao racismo. “Os grupos de oposição que protestaram hoje no País, como os torcedores organizados e os grupos antifascistas, têm a causa da violência policial como um aspecto importante. Mas, as manifestações são muito mais políticas”, afirma. “No fundo, é uma pauta contra os bolsonaristas, que emerge em reação aos protestos pró-governo e tem a intenção de mostrar superioridade numérica”.

Nas próximas semanas, a expectativa dos analistas é de que o clima de polarização se acentue com a escalada retórica por parte dos dois governos. “Trump já deu sinais claros nesse sentido, classificando o movimento Antifas (antifascista) como um grupo terrorista. É bastante razoável assumir que Bolsonaro adotará a mesma abordagem, como ele havia indicado em novembro do ano passado, quando da erupção dos protestos do Chile”, afirma o analista político Gabriel Brasil, da consultoria Control Risks.

A mobilização social também deve influenciar as eleições americanas, marcadas para novembro. Antes da pandemia, Trump era o franco favorito. Mas, sua rejeição aumentou consideravelmente durante a crise sanitária e econômica. “Como o próximo pleito será quase totalmente virtual, sem o engajamento presencial dos voluntários, o peso do voto pelo correio, que nunca foi grande, vai aumentar. Isso complica bastante a vida de Trump”, afirma Maurício Moura, presidente da consultoria Idea Big Data e professor da George Washington University.

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