Aglomerados e sem renda: quem são os brasileiros mais afetados na pandemia

Pesquisa com moradores de favelas mostrou que os brasileiros da periferia tentam tomar medidas de proteção, mas sofrem com casas pequenas e perda de renda

Cada dormitório em uma residência nas favelas brasileiras comporta, em média, quatro pessoas. A aglomeração nas habitações é um dos principais desafios dos moradores de favelas para se proteger contra a covid-19, como mostra uma nova pesquisa do Data Favela, do Instituto Locomotiva. O estudo aponta ainda que, além do medo de perder a renda, boa parte dos moradores desse grupo se queixa de aumento de gastos durante a pandemia, sobretudo com as escolas fechadas e a presença dos filhos em casa.

O estudo teve como entrevistados 3.321 moradores de 239 favelas brasileiras, ouvidos entre 19 e 22 de junho. O Brasil tem 13,6 milhões de pessoas vivendo em favelas -- uma população que, junta, representaria o quinto maior estado do Brasil.

Dentre as principais descobertas, a busca por renda faz com que a quarentena não seja uma realidade nas favelas brasileiras. Nove em cada 10 moradores saiu de casa na última semana, a maioria em cinco dias ou mais. Só 15% dos que saíram o fizeram somente em um dia na semana.

Metade dos que afirmaram ter saído de casa o fez para ir ao trabalho. As saídas majoritárias, na faixa de 70% ou mais cada, foram para ir ao supermercado, entorno de casa, casa de amigos ou farmácia. Só 11% disse ter ido a algum centro de compras.

No geral, há um esforço para se proteger. Cerca de 4 em cada 10 moradores de favelas diz que está procurando seguir as medidas de proteção. Mas uma fatia quase igual (39%) diz que procura seguir as medidas, mas nem sempre consegue. Só 8%, menos de uma pessoa em cada dez, disse que não está sequer tentando seguir as precauções de proteção.

Em todo o Brasil, o isolamento é um desafio maior para os moradores mais pobres do que para o restante da população. Enquanto 50% dos brasileiros têm quatro ou mais pessoas em casa, entre o percentual mais pobre essa fatia chega a 60%.

Poupança escassa

A preocupação com a renda e com a saúde anda lado a lado para os moradores das favelas. O risco de perder o emprego, citado por 88% dos moradores, se equipara às preocupações com saúde dos parentes mais velhos, que foi a maior preocupação dos entrevistados. Essa faixa de preocupação com a renda era menor em março, de 75%.

A renda também diminuiu para boa parte dos moradores, que são majoritariamente trabalhadores informais. Metade das famílias está sobrevivendo com só metade da renda que tinha antes da pandemia.

O desemprego na favela é o dobro da população brasileira e há uma taxa maior de informalidade

Caso parem de trabalhar, a reserva financeira duraria somente uma semana para dois terços dos moradores. Só 3% dos entrevistados aguentaria mais de um mês sem trabalhar.

O desemprego é o dobro na favela na comparação com o restante da população brasileira. A média brasileira de emprego formal também é o dobro do que é na favela, onde menos de 20% dos trabalhadores são empregados com carteira assinada.

Para complementar a renda em queda, 7 em cada 10 famílias diz que pediu o auxílio emergencial de 600 reais do governo federal, mas 41% ainda não recebeu nenhuma parcela. Entre quem recebeu o dinheiro, 62% disse que destinou parte do valor para ajudar amigos e parentes, o que, para o Locomotiva, está "evidenciando a força dos laços de solidariedade dentro da favela".

Mais gastos e menos educação

Dentre as famílias com filhos em casa, a maioria aponta que os gastos aumentaram porque as crianças deixaram de ir para a escola. Quase 9 em cada 10 pessoas cujos filhos deixaram de ir à escola disseram que os gastos "aumentaram muito" ou "um pouco".

O cancelamento das aulas presenciais também dificultou a própria obtenção de renda para 8 em cada 10 entrevistados. Só 2 em cada 10 disseram que ter os filhos em casa em vez de na escola não dificultou "em nada" a obtenção de renda.

Dos moradores com mais de 14 anos, 53% têm filhos, com uma média de três filhos por família. Oito em cada dez pais também disse acreditar que seus filhos não estão estudando em casa o tanto quanto deveriam.

Ter os filhos em casa fez os gastos aumentarem para a maioria das famílias nas favelas e também prejudicou a obtenção de renda

Caso alguém adoeça, o acesso à saúde se restringe ao sistema público. Cerca de 96% dos moradores de favelas respondeu que não tem plano de saúde, ante 76% da média brasileira.

Apesar dos desafios, os moradores acreditam que a pandemia ainda vai demorar a passar. Quase sete em cada dez moradores (67%) acha que a pandemia está no início ou no meio. Outros 18% acham que está no final e só 10% (ou menos de dois em cada dez) avalia que ela já acabou ou nunca existiu.

A margem de erro do estudo é de 1,6 ponto percentual, com intervalo de confiança de 95%. A base de entrevistados comporta diferentes perfis de idade, região e ocupação e moradores de todos os estados do Brasil e vem do Painel Data Favela, um pré-cadastro do Instituto Locomotiva com 20.000 moradores de favelas brasileiras.

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