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Por que o Brasil tem dificuldades em expandir as exportações de frutas?

País é o 3º maior produtor de frutas no mundo, mas apenas o 24º exportador; gargalo está relacionado à necessidade de certificações e logística

Área de contêineres refrigerados para exportação de carga congelada no Terminal de Contêineres de Paranaguá (TCP) (TCP/Divulgação)

Área de contêineres refrigerados para exportação de carga congelada no Terminal de Contêineres de Paranaguá (TCP) (TCP/Divulgação)

Mariana Grilli
Mariana Grilli

Repórter de Agro

Publicado em 30 de outubro de 2023 às 18h39.

Última atualização em 31 de outubro de 2023 às 10h06.

Desembarca na Índia, nesta segunda-feira, 30, o presidente da Associação Brasileira dos Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), Guilherme Coelho. Até dia 5 de novembro, uma comissão da entidade se dedica a avançar na abertura de mercados, esclarecer questões fitossanitárias e participar presencialmente da World Food Nova Delhi.

Em São Paulo, também nesta segunda-feira, agricultores, varejistas e profissionais envolvidos com a fruticultura se reúnem exatamente para discutir esta relação entre frutas e exportações. De uma ponta até a outra, há um componente essencial: as certificações. Para o setor de frutas, verduras e legumes, a mais relevante delas é a Global G.A.P.

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Presente em 130 países, este é o selo unânime para que produtores rurais comprovem corresponder às boas práticas tão exigidas pelo mercado internacional. Aqui no Brasil, o contingente é de apenas 602 certificações em um universo de 5.000 produtores. No mundo, há 195.000 certificações com o selo. Naturalmente, isso se traduz nos números de exportação do setor.

Embora o Brasil tenha atingido o recorde em faturamento, chegando a US$ 1,6 bilhão em 2022, o volume é irrisório próximo ao potencial de crescimento, segundo Eduardo Costa, diretor executivo da Abrafrutas. O cenário se agrava quando o país perde o protagonismo para vizinhos, a exemplo de Peru e Chile. Eles chegam a US$ 5 bilhões e US$ 7 bilhões em faturamento, respectivamente.

De acordo com Costa, a Europa tem “subido o sarrafo” em relação aos resíduos químicos nas frutas, por isso a urgência em educar o produtor e correr atrás da obtenção da Global G.A.P. Recentemente, ele revela, uma carga de uva que chegou na Europa, após fazer a análise aqui, foi rechaçada lá, porque as informações estavam “desencontradas”.

“Temos de nos policiar mais, porque eles estão mais rigorosos. Então, ou a gente se enquadra ou podemos arriscar o mercado. Certificações e acompanhamentos agronômicos podem mudar essa realidade”, diz.

A Abrafrutas corresponde a 85% de todas as frutas exportadas, sendo a União Europeia responsável por 70%. “Isso é uma coisa ‘temerável’, a gente tem quase todos os ovos em uma cesta só, por isso a Abrafrutas tem focado muito na questão da diversificação de mercados”, afirma Costa. Para ter uma ideia, o país é terceiro maior produtor de frutas do mundo, mas o 24º em exportação. Mas, afinal, qual a dificuldade de expandir a venda internacional?

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Questões culturais e de logística

Conquistar a certificação é, sobretudo, uma questão cultural, na visão de Lígia Carvalho, diretora-presidente da Abacates do Brasil e presidente da Comissão Nacional de Fruticultura da Confederação da Agricultura e Pecuária (CNA). Para ela, o convencimento com os agricultores sobre a importância da certificação ainda está atrelado a conseguir melhores preços, pois existe agregação de valor.

Ainda assim, ela diz que a gestão organizada da produção agrícola deve ser eficiente independente da aceitação no mercado externo. “Não dá para pensar por que fazer a análise de água, é preciso fazer e ponto. Hoje, os produtores da cadeia do abacate tropical e avocado sabem que é importante a certificação para a própria sobrevivência do negócio”, afirma.

Outro ponto de gargalo, assim como em outros segmentos do agronegócio, é a logística. Dados da Abrafrutas apontam que cerca de 90% das exportações seguem pelo modal marítimo e o restante é via aéreo e terrestre. “Temos problemas em portos e aeroportos. Não tem fiscal federal, não tem quem faça a vistoria dos contêineres, quem veja a questão fitossanitária. Tem porto que não tem tomada [para manter as frutas refrigeradas]”, relata Eduardo Costa, da Abrafrutas.

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Leonardo Machado, analista de negócios internacionais da Apex, conta que a qualificação dos produtores rurais passou a fazer parte dos trabalhos da agência, a fim de inserir pequenos e médios fruticultores na rota das exportações.

“Diferente de outros programas de qualificação, o segmento do agro abrange CNPJs e CPFs, com o objetivo de atender aquele agricultor que não está enquadrado enquanto empresa e sente dificuldade em exportar”, ele afirma. O principal polo da Apex nesta qualificação para fruticultura está em Petrolina, em Pernambuco, mas o projeto também inclui mel, cachaça, cacau, chocolate, algodão e lácteos.

“São 85 empresas e produtores rurais nesse polo, em atendimento, 65 em adesão para a exportação e 21 com plano de exportação concluído. A gente capacita, elabora o plano de exportação e estratégia de entrada em algum mercado. Apresentar certificações como Global G.A.P fazem parte desta jornada”, diz Machado.

Rastreabilidade

Junto à discussão da certificação está a rastreabilidade da produção agrícola, de acordo com Giampaolo Buso, diretor-executivo da PariPassu – empresa de tecnologia voltada ao rastreamento e gestão de qualidade de alimentos.

Para ele, a demanda do consumidor por mais transparência e a exigência dos mercados externos fomentam a necessidade de rastrear o que é produzido desde o campo, logo, quem tem certificação consegue atestar os processos ao longo da cadeia.

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Giampaolo Buso estima que a implementação da rastreabilidade represente, em média, cerca de 5% dos custos de produção, sobretudo se comparado com o peso de outros itens, como insumos e mão-de-obra.

“Além de representar um custo baixo em relação a outros que já existem na fazenda, o produtor percebe que certificação e rastreabilidade contribuem, inclusive, para reduzir alguns valores, já que a gestão passa a ser mais organizada. É uma questão de processos, como em qualquer outra indústria”, afirma.

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