Entre julho e setembro de 2026, as concessões de crédito rural caíram 24% em relação ao mesmo período de 2025, passando de R$ 168,9 bilhões para R$ 129,2 bilhões, segundo dados do Banco Central compilados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). (Afribeiro/Getty Images)
Repórter de agro e macroeconomia
Publicado em 30 de outubro de 2026 às 06h00.
O governo Lula avalia cobrar IOF sobre LCA e outros investimentos hoje isentos, segundo O Globo, em meio à retração do crédito rural em 2026. Dados da autoridade monetária Banco Central, compilados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), mostram queda de 24% nas concessões entre julho e setembro, para R$ 129,2 bilhões. Analistas ouvidos pela EXAME preveem crédito agrícola mais caro.
A possibilidade de o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) cobrar o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) sobre investimentos que hoje têm alíquota zero, incluindo títulos usados para financiar o agronegócio, voltou a preocupar o setor. A proposta, segundo reportagem do jornal O Globo, surge em um momento de retração do crédito rural e pode encarecer ainda mais os financiamentos dos produtores, segundo analistas ouvidos pela EXAME.
Entre julho e setembro de 2026, as concessões de crédito rural caíram 24% em relação ao mesmo período de 2025, passando de R$ 168,9 bilhões para R$ 129,2 bilhões, segundo dados do Banco Central compilados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa).
A possível tributação incluiria Letras de Crédito Imobiliário (LCI), Letras de Crédito do Agronegócio (LCA), Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI), Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) e debêntures incentivadas. A medida faz parte das alternativas discutidas pelo Executivo para ampliar a arrecadação.
A preocupação do setor é que a cobrança reduza a atratividade desses instrumentos para investidores e aumente o custo do dinheiro destinado ao financiamento agrícola.
Para David Télio, diretor executivo de novas estruturações financeiras da TerraMagna, as LCAs vinham oferecendo uma alternativa de financiamento com custos inferiores aos das operações convencionais. Mesmo sem a cobrança do novo imposto, porém, essa fonte de recursos já perdeu espaço.
“As operações de LCA vinham dando um certo conforto, por terem um custo um pouco abaixo do que vinha sendo praticado no mercado”, afirma à EXAME.
Segundo o levantamento do Mapa, as concessões de crédito rural com recursos de LCA livre caíram 40%, de R$ 20,4 bilhões para R$ 12,2 bilhões, entre julho e setembro de 2025 e o mesmo período de 2026.
Nessa modalidade, os bancos têm liberdade para negociar as taxas de juros e as condições dos empréstimos com os produtores, conforme as condições de mercado.
Já nas operações de LCA com recursos controlados, que seguem regras específicas do Conselho Monetário Nacional (CMN), incluindo limites para os juros, a retração foi de 15%, de R$ 14,6 bilhões para R$ 12,4 bilhões.
Para Télio, o recuo reflete a combinação de menor demanda dos agricultores por financiamento e maior cautela dos bancos diante da inadimplência.
“De um lado, o mercado agrícola está se contraindo. Por outro, o banco está mais restrito na liberação de crédito”, diz.
O especialista avalia que uma nova cobrança poderia agravar o cenário. “O agronegócio não tem condições nem margem para absorver os juros atuais, que estão sendo praticados de 20% a 25% ao ano”, afirma.
Não é a primeira vez que o governo tenta tributar esses instrumentos. Em junho de 2025, o Executivo propôs uma alíquota de 5% de Imposto de Renda sobre rendimentos de novas emissões desses títulos a partir de janeiro de 2026.
A estimativa era arrecadar R$ 2,6 bilhões em 2026. A medida provisória também previa mudanças na tributação das apostas esportivas, conhecidas como bets, e dos juros sobre capital próprio (JCP), com impacto total estimado em R$ 20,6 bilhões.
Desta vez, a discussão envolve o IOF, cujas alíquotas podem ser alteradas pelo Executivo dentro dos limites legais, diferentemente de uma mudança no Imposto de Renda, que depende de aprovação legislativa.
Fontes do Mapa disseram à EXAME que souberam da possibilidade da tributação pela imprensa. Segundo eles, se confirmada a informação pelo governo, a situação deve 'machucar ainda mais o produtor rural'.
A redução dos recursos não se limita às LCAs. No primeiro trimestre da safra 2026/27, entre julho e setembro, as concessões para custeio agrícola caíram 27%, de R$ 67,9 bilhões para R$ 49,6 bilhões.
Nos financiamentos destinados a investimentos, como aquisição de máquinas e ampliação da infraestrutura produtiva, a queda foi ainda maior, de 38%, para R$ 15,3 bilhões.
O número total de contratos de crédito rural, incluindo operações com Cédulas de Produto Rural (CPR), também diminuiu 24%, de 767.430 para 582.148.
O cenário ajuda a explicar a resistência à possibilidade de uma nova tributação. Para Octaciano Neto, fundador da Zera.ag, o governo tenta ampliar a arrecadação justamente quando os produtores já enfrentam juros elevados e custos crescentes.
“Para mim, o governo está querendo tirar com as duas mãos”, afirma à EXAME.
Na avaliação de Neto, o desequilíbrio das contas públicas contribui para manter os juros elevados, enquanto uma eventual cobrança de IOF poderia tornar mais caras fontes privadas de financiamento.
Segundo ele, o Plano Safra responde por aproximadamente um terço do financiamento agrícola, enquanto os outros dois terços dependem de recursos obtidos fora do programa. “O governo está escolhendo os piores caminhos”, afirma.
Para Neto, a prioridade do governo deveria ser reduzir estruturalmente os juros por meio de um ajuste fiscal, em vez de ampliar a tributação sobre o financiamento agrícola.
“A maior política agrícola que o governo poderia fazer hoje é um juro estrutural baixo”, afirma.
O especialista defende a obtenção de superávit primário, quando as receitas superam as despesas públicas, sem considerar os juros da dívida. “Eu trocaria todas as isenções de imposto de renda de LCA e CRA por uma Selic de 7% ou 8%”, diz.
O eventual encarecimento do crédito pode atingir uma cadeia produtiva que já enfrenta pressão sobre as margens.
Segundo Télio, parte das empresas fornecedoras de insumos agrícolas absorve custos financeiros para manter as vendas e permitir que os produtores continuem comprando fertilizantes, defensivos e sementes.
“Cada vez mais, toda a cadeia de suprimentos está comprimindo suas margens ao mínimo possível para manter as vendas e o nível de produção”, afirma.
Não. Segundo reportagem do jornal O Globo, a cobrança de IOF sobre LCA e outros investimentos com alíquota zero está entre as alternativas discutidas pelo Executivo para ampliar a arrecadação.
A possível tributação alcançaria Letras de Crédito Imobiliário (LCI), Letras de Crédito do Agronegócio (LCA), Certificados de Recebíveis Imobiliários (CRI), Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA) e debêntures incentivadas.
As concessões de crédito rural caíram 24% entre julho e setembro de 2026 ante o mesmo período de 2025, de R$ 168,9 bilhões para R$ 129,2 bilhões, segundo dados do Banco Central compilados pelo Ministério da Agricultura e Pecuária.
A cobrança pode reduzir a atratividade das LCAs e de outros títulos para os investidores, o que elevaria o custo dos recursos destinados ao crédito agrícola. David Télio, diretor executivo da TerraMagna, afirma que o agronegócio já enfrenta juros de 20% a 25% ao ano e não tem margem para absorvê-los.
Segundo levantamento do Mapa, as concessões com recursos de LCA livre caíram 40%, de R$ 20,4 bilhões para R$ 12,2 bilhões, entre julho e setembro de 2025 e o mesmo período de 2026. Nas operações de LCA com recursos controlados, a retração foi de 15%, de R$ 14,6 bilhões para R$ 12,4 bilhões.
A discussão atual envolve o IOF, cujas alíquotas podem ser alteradas pelo Executivo dentro dos limites legais. Em junho de 2025, o governo propôs cobrar 5% de Imposto de Renda sobre rendimentos de novas emissões a partir de janeiro de 2026, mudança que dependia de aprovação legislativa e tinha arrecadação estimada em R$ 2,6 bilhões naquele ano.