Impulsionado por ganhos iniciais de produtividade, o agronegócio brasileiro começa a incorporar a inteligência artificial às suas operações – mas o processo sinaliza uma reconfiguração no mercado de trabalho do setor, mostra a 29ª edição da CEO Survey, da PwC.
Segundo o estudo, 33% das empresas do agro relataram aumento de receita associado ao uso de IA, e outros 33% apontaram redução de custos operacionais. A pesquisa, divulgada nesta terça-feira, 3, ouviu mais de 4.400 executivos em 95 países.
“A inteligência artificial já começa a se consolidar como vetor de crescimento para parte das empresas do agronegócio brasileiro”, afirma a sócia e líder de Agribusiness da PwC Brasil, Mayra Theis.
Apesar disso, a maioria (58%) das empresas ainda não percebe efeitos expressivos nas receitas com o uso de inteligência artificial. Os primeiros impactos positivos aparecem principalmente em áreas operacionais, com destaque para automação, otimização de processos e uso mais eficiente de dados.
O dado mais sensível do estudo refere-se à força de trabalho: 60% dos CEOs do agronegócio no Brasil esperam precisar de menos profissionais em início de carreira nos próximos três anos. Entre eles, um terço prevê uma redução superior a 16% no quadro operacional.
A expectativa é de menor impacto para cargos médios e seniores, mas o sinal de alerta está dado. “As empresas já indicam uma reconfiguração de perfis profissionais demandados no setor, puxada pela automação e pela maturação da IA nas operações agrícolas”, diz o estudo.
Segundo a executiva, a principal contribuição da inteligência artificial hoje está na redução de custos e no desempenho de funções operacionais.
A pesquisa não mapeou outros impactos de forma detalhada, mas indica que a tecnologia atua sobretudo na preparação de dados, na consolidação de informações e no direcionamento básico que sustenta a tomada de decisão.
"Na prática, a IA reduz parte do papel exercido por esses cargos iniciais ao oferecer ganhos de eficiência na base do processo. Embora ainda não substitua a análise crítica baseada em experiência, a tecnologia entrega resultados operacionais com maior velocidade e custo significativamente menor do que o da mão de obra disponível hoje no país", diz.
Em contraste, apenas 23% dos líderes projetam a necessidade de novas contratações no mesmo período — abaixo da média nacional (28%).
IA no agro
Mesmo com avanços operacionais, o uso da tecnologia no agronegócio ainda não está conectado às grandes decisões estratégicas. Embora já aplicada em frentes como previsão climática, gestão de insumos e rastreabilidade de grãos, a IA ainda não se firmou como um vetor de transformação profunda no setor.
Segundo a PwC, as empresas do agro utilizam a tecnologia principalmente como uma ferramenta de apoio operacional — e não como instrumento para reinventar modelos de negócio.
Apenas 25% das companhias têm processos definidos para considerar riscos e oportunidades climáticas ao alocar capital ou tomar decisões de fusões e aquisições.
Na cadeia de suprimentos, a integração da IA também é limitada: só 23% das empresas levam em conta variáveis climáticas nas decisões de compras e logística.
“O potencial da IA como instrumento de adaptação climática continua distante da prática”, afirma a pesquisa.
No desenvolvimento de produtos, o cenário é mais promissor: 43% das empresas já incorporam de forma estruturada aspectos climáticos no design e na inovação de portfólio — um percentual acima da média global de 24%.
Outro obstáculo é como os líderes distribuem seu tempo. Segundo a pesquisa, 54% da agenda dos CEOs do agro é dedicada a temas com horizonte inferior a um ano, o que reduz a capacidade de enfrentar desafios estruturais ligados à inovação e sustentabilidade.
A pesquisa da PwC destaca que empresas que priorizam transformação — mesmo em contextos de incerteza — crescem mais rápido e com margens mais saudáveis.
“O desafio não é escolher entre curto e longo prazo, mas equilibrar ambos de forma deliberada”, diz o relatório.