Calor de 50ºC na Índia mata pássaros no ar e afeta cultivo de trigo

Temperaturas são as maiores dos últimos 122 anos; país, segundo maior produtor mundial de trigo, decide suspender exportações do cereal para manter estoques domésticos
Onda de calor na Índia: altas temperaturas prejudicam cultivo de trigo e país decide suspender exportações (Debarchan Chatterjee/NurPhoto via Getty Images/Getty Images)
Onda de calor na Índia: altas temperaturas prejudicam cultivo de trigo e país decide suspender exportações (Debarchan Chatterjee/NurPhoto via Getty Images/Getty Images)
Carla Aranha
Carla Aranha

Publicado em 17/05/2022 às 17:05.

Última atualização em 18/05/2022 às 10:58.

Ondas de calor extremo de 50ºC estão causando efeitos devastadores na Índia. Depois de bater um recorde histórico em março, com os termômetros marcando as maiores temperaturas dos últimos 122 anos, desde quando teve início a série histórica de medições climáticas, o calor segue em níveis elevados em maio.

O país têm registrado eventos raros como pássaros caindo do céu por desidratação. Quando chegam vivos ao solo, veterinários tentam reanimá-los com água, dada em conta-gotas. Uma das consequências mais graves do fenômeno climático, no entanto, é o impacto no cultivo de trigo -- a Índia é o segundo maior produtor mundial, atrás apenas da China.

Neste final de semana, o governo da Índia anunciou a suspensão das exportações do cereal em favor do abastecimento doméstico. A medida também visa controlar a taxa de inflação, que chegou a 7,8% em abril, ante 6,9% em março.

Na região Norte, considerada o celeiro do país, entre 10% e 15% das plantações foram destruídas por causa da onda de calor extremo.

Até pouco tempo atrás, havia a expectativa de que o país pudesse suprir o mundo com 10 milhões de toneladas de trigo a fim de equilibrar a redução de exportações da Ucrânia, outro grande produtor. Agora, a projeção será revista.

Globalmente, a cotação do trigo aumentou mais de 60% desde o início da guerra no Leste Europeu. A Ucrânia e a Rússia respondem, juntas, por quase 30% dos embarques mundiais do cereal. Nesta segunda, dia 16, o preço futuro do trigo subiu 6% na Bolsa de Chicago em reação à decisão da Índia de banir as exportações de trigo.

Os países mais prejudicados pelo retrocesso nas expectativas de vendas externas de trigo da Índia são o Egito, que era um dos maiores compradores do cereal produzido na Ucrânia, Indonésia e China -- apesar de ser o maior produtor mundial, Pequim precisa importar o alimento em função da expressiva demanda interna.

G7 discute escassez de alimentos

Em um cenário no qual os países aumentaram seus estoques de alimentos diante de incertezas de abastecimento causada pela guerra na Ucrânia, o alarme da insegurança alimentar começou a soar mais forte. Nesta quarta, dia 18, os líderes do G7, que reúne as maiores economias do mundo, discutem propostas para aliviar a fome e o risco da falta de alimentos.

O encontro acontece em Bonn, na Alemanha. O Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento devem participar. A reunião será liderada pelos Estados Unidos.

O G7 vem criticando o banimento às exportações de trigo da Índia, que acusa o país de piorar a crise da escalada de preço das commodities. "Se todo mundo começar a impor restrições às exportações ou fechar seus mercados, o problema se tornará mais grave", disse Cem Ozdemir, ministro de Agricultura da Alemanha, durante uma coletiva de imprensa em Sttutgart. 

A inflação dos alimentos, que atingiu o recorde dos últimos 32 anos em março -- a série histórica da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO) teve início em 1990. O aumento no preço de cereais, óleos vegetais, açúcar e carnes foram os principais responsáveis pela alta.

Restrições às exportações 

Com a disparada dos preços, causada principalmente pelas disrupções nas cadeias globais de suprimento devido à pandemia, a alta no custo do conteinêres e, mais recentemente, a guerra na Ucrânia, os países começaram a estocar alimentos. Além da Índia, a Rússia também deu início a uma política de restrição às exportações de produtos como trigo, óleo de girassol e açúcar. Moscou instituiu cotas de embarques para esses alimentos -- o objetivo é domar a inflação.

A Ucrânia, por sua vez, baniu as exportações de trigo e aveia. A intenção é garantir o abastecimento interno. Os embarques de óleo de girassol, do qual o país é o maior exportador mundial, vêm enfrentando dificuldades logísticas por causa da guerra.

O óleo de palma parou de ser exportado pela Indonésia, maior exportadora de óleos comestíveis do mundo, em abril. O motivo? O aumento internacional dos preços da mercadoria em um cenário global fortemente afetado pelo conflito armado na Ucrânia. Na Indonésia, a alta no preço do óleo de cozinha superou 40% neste ano. A inflação foi o estopim para protestos e queda na popularidade do presidente, Joko Widodo.

O Casaquistão, um dos maiores exportadores mundiais de trigo, adotou restrições para os embarques internacionais do produto. A medida, que tem o objetivo de assegurar o abastecimento interno e aliviar a inflação -- o aumento o preço do trigo chegou a 30% até abril no país --, deve continuar em vigor até o dia 15 de junho.

LEIA MAIS: