Como o Black Money quer ser um plano de poder com base em capital

A pandemia ampliou o fosso das desigualdades no Brasil. O Black Money é um grito de guerra para o impacto que queremos alcançar e uma via de como alcançá-lo

No meu primeiro artigo para a EXAME não poderia deixar de falar sobre o que é Black Money e por que estamos construindo um plano de poder com base em capital. Historicamente a sociedade brasileira tem sido construída sob o prisma das desigualdades, o que nos mantém ancorados nos porões das potências econômicas globais. 

O Brasil é o segundo país com maior concentração de renda no mundo. Mais de 28,3% da renda brasileira está concentrada nas mãos de apenas 1% das pessoas. Além disso, esse 1% mais rico ganha mais de 33 vezes o valor recebido pelos 50% mais pobres. O olhar para o composto racial da sociedade brasileira é crucial na análise dessa realidade. Negros são 56% da população brasileira e movimentam cerca de 1,9 trilhão de reais por ano no país. Se essa população estivesse geograficamente concentrada como uma nação ainda faria parte do G20 — no entanto, recebem em média 1.200 reais a menos do que seus colegas de trabalho brancos. 

Antes que alguém pense em argumentar que essa não é uma questão racial, o IBGE mostrou que os brancos possuem uma renda média 40% superior à de pretos e pardos. Negros representam 77% da população que está na faixa dos 10% mais pobres e 67% dos desempregados do Brasil. Isso sem falar dos índices de homicídio, feminicídio, encarceramento, evasão escolar e morte de pessoas trans: em todos os índices a raça é determinante para o agravamento dos números. Por isso é tão importante que haja um movimento direcionado para mudar esse cenário. 

O Black Money é uma prática baseada na filosofia do pan-africanismo, com a proposta de deixar o capital financeiro, intelectual e social circulando o maior tempo possível na comunidade negra. A busca é por oportunidades com equidade, porque sabemos que a igualdade não existe. Nesse contexto, a meritocracia é utópica; afinal, não há como todos alcançarem o mesmo patamar se cada um larga com condições diferentes. Por isso o objetivo é gerar nossa própria cadeia produtiva, desde o fornecimento até o consumo consciente e intencional de produtos e serviços de negros, fazendo com que mais negros e negras sejam donos dos meios de produção. Nessa movimentação estamos criando o infinito Black Money, onde a própria comunidade negra fomenta o crescimento e cria empregos. 

O movimento é uma espécie de hackeamento do sistema: um centro de inovação que busca a emancipação por meio de ferramentas digitais. E por que urge acelerarmos essa mudança? A pandemia amplia as desigualdades raciais por causa das condições marginais que pessoas negras já enfrentavam em nossa sociedade, seja com inadequações domiciliares, precariedade no acesso à saúde pública, seja com alto índice de informalidade.

Os setores de mercado onde há maioria negra estão entre os mais impactados com a crise — comércio e serviços, entre eles o trabalho doméstico remunerado. A crise do coronavírus só desmascarou e ampliou o fosso das desigualdades no Brasil, mas os problemas são heranças de um sistema pautado no racismo estrutural. O Black Money também é uma resposta intencional a esse círculo vicioso de segregação.

As disparidades persistem, mesmo quando se levam em consideração fatores como área problemática ou níveis de educação. Para quem ainda acredita que o problema econômico no Brasil está apenas baseado em classe social, podemos pegar o medidor de educação, que teoricamente é um dos maiores agentes de transformação para mobilidade social. Um trabalhador branco sem instrução ou com ensino fundamental incompleto tem rendimento-hora 1,29 vez maior que o de um trabalhador negro com a mesma escolaridade.

Esse diferencial de raça é ainda maior se compararmos trabalhadores com ensino superior completo: o trabalhador branco tem rendimento 1,44 vez maior que o de um negro (SIS IBGE 2020). Isso não é um fenômeno apenas brasileiro. Segundo dados da bolsa Echoing Green’s Black Male Achievement, que se concentra em melhorar os resultados de vida de homens e meninos negros nos Estados Unidos, as receitas das organizações lideradas por negros são 45% menores do que as das organizações lideradas por brancos, e os ativos líquidos irrestritos das organizações lideradas por negros são 91% menores do que os das organizações lideradas por brancos. 

A comunidade negra sempre empreendeu, mas está mais presente entre os micro e pequenos negócios, não conseguindo empregar uma segunda pessoa em seu estabelecimento. Urge a necessidade de aumentar o empresariado negro no Brasil. O Black Money é a maneira pela qual esses empreendimentos podem receber investimento intencional a partir do consumo de sua própria comunidade além do diálogo com agentes do mercado financeiro para melhores condições de crédito para alavancar tecnologia e processos. 

A partir do Black Money tem sido feito um resgate da ancestralidade e do protagonismo negro no universo empreendedor e em organizações não negras abertas ao diálogo com ação. Tais associações contribuem para a consolidação de iniciativas que trazem retorno à população negra e impacto social para toda a pirâmide socioeconômica brasileira. Ações baseadas em acesso à educação de qualidade, formação de lideranças políticas, fomento a crédito e instituições financeiras autônomas, difusão de ferramentas tecnológicas e visibilidade para afroempreendimentos e melhor empregabilidade para profissionais negros são parte desse plano estratégico para reequilíbrio e reparação social.

Discutem-se fome e crise sistêmica, mas não se declara que miséria e violência têm cor no Brasil. A demanda por justiça racial em erupção em uma nação devastada por uma pandemia que afetou desproporcionalmente as comunidades negras é um chamado à ação. O momento para filantropos e governos investirem em lideranças negras e organizações com histórico de emancipação negra é agora. Esperança e discurso vazio de que “somos todos iguais” não são estratégias. Black Lives Matter e Black Money não devem ser apenas gritos de guerra para o impacto que queremos alcançar, e sim vias de como alcançá-lo.  

 (Leandro Fonseca/Exame)

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