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Na prática, o governo já renunciou

Desde a campanha de 2014, o que temos é um ex-governo. A bancarrota política se expressa na incapacidade de quem foi eleito propor soluções para os problemas

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	 Panelaço: o governo considera inimigos os cidadãos que pretendem protestar nas ruas
 (Reprodução/Youtube/Neguinha&Morê)

Panelaço: o governo considera inimigos os cidadãos que pretendem protestar nas ruas (Reprodução/Youtube/Neguinha&Morê)

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J.R. Guzzo

Publicado em 12 de agosto de 2015 às, 18h43.

São Paulo — Eis Aí o Brasil, mais uma vez, diante de mais uma dessas situações em que não dá para saber, realmente, como seria possível encontrar soluções quando o responsável pelo encontro dessas soluções acha que não há problemas — ou, se porventura houver algum, atribui sua existência a causas imaginárias.

É a velha história do cidadão que perdeu o relógio no jardim e procura por ele no quintal, ou nem sabe que perdeu alguma coisa. Tanto faz: em qualquer dos casos é certo que não vai encontrar nada. O presente governo da presidente Dilma Rousseff, que já há bom tempo se transformou num ex-governo, meteu o país nesse impasse permanente, e não dá nenhum sinal de que tenha capacidade de sair dele.

Como sair do beco se o governo não reconhece que está num beco? A última palavra oficial sobre a questão, que é a mesma de ontem e de anteon­tem, foi dada dias atrás pela presidente, pelo ex-presidente Lula e pelo PT, no programa de propaganda dos partidos políticos que a população é obrigada, de tanto em tanto tempo, a ouvir no rádio e ver na televisão, em cadeia nacional.

Ali, no meio da barulheira de panelas e buzinas que ressoou por todo o Brasil em sinal de protesto, como vem acontecendo cada vez que o governo abre a boca, nossas mais altas autoridades garantiram a todos que estão cuidando muito bem de tudo. Vá lá, disseram — talvez não estejamos fazendo exatamente o ideal, mas estamos fazendo melhor do que qualquer governo que veio antes de nós.

Se há uma ou outra dificuldade, a culpa é da “crise internacional”, não nossa, e se ninguém sabe que crise é essa — bem, paciência. Daqui a pouco vai estar tudo beleza de novo. Parem de nos incomodar; Lula já está de “saco cheio”. Não existe nos registros da ciência terapia conhecida para o tratamento desse tipo de patologia.

Alguma saída vai acabar aparecendo, mais cedo ou mais tarde; já aconteceu antes, como na patética comédia do governo Fernando Collor, e vai acontecer de novo. Enquanto isso, o que se tem é o convívio com a provação. O ponto que mais chama a atenção, no momento, não é exatamente o boletim que anota a cada dia as misérias do atual desempenho da economia.

É sempre mais do mesmo. A inflação, em sete meses de 2015, já estourou a meta do ano inteiro. (Por falar nisso: talvez não exista meta, mas, quando for atingida essa meta que não existe, o governo vai dobrar a meta. É o que reza a atual filosofia da presidente Dilma.) O dólar sobe em ritmo de república bananeira, quando a população é capaz de acreditar em tudo, menos na seriedade da moeda que tem no bolso.

Estima-se que mais de 100 000 empregos estejam desaparecendo a cada mês — e por aí segue a procissão. O fato que realmente incomoda, neste momento, é a falência política em volta das derrotas econômicas. Essa bancarrota se expressa, sobretudo, na pura e simples incapacidade de governar por parte dos que foram eleitos para cumprir essa obrigação.

O governo de Dilma, Lula e PT deixou de governar o Brasil em algum momento da campanha eleitoral do ano passado, quando renunciou a todas as suas responsabilidades para alcançar o objetivo único de se reeleger por mais um período. De lá para cá, não voltou a dar sinais de vida. O resultado disso, como comprovado mais uma vez no último programa oficial que levou ao ar, é um governo que se declara em estado de hostilidade contra os 70% da população que o condena — os piores índices já registrados na história nacional das pesquisas de opinião.

Não foi capaz, do primeiro ao último minuto do programa, de propor uma única ideia coerente para lidar com nenhum dos problemas urgentes que estão aí. Empenhou-se, sombriamente, em ameaçar os brasileiros com “consequências trágicas” caso não se conformem com a crise que ele próprio criou e mantém.

Continua em guerra contra as investigações judiciais que apuram a corrupção sem limites da máquina do Estado. Considera inimigos os cidadãos que forem para as manifestações de rua deste dia 16 de agosto.
Vai piorar antes de melhorar. 

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