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O enfant terrible Xavier Niel e seus inimigos

Desafeto do presidente Sarkozy, o bilionário Xavier Niel, que fez fortuna com pornografia e internet, abala o mercado das telecomunicações na França — e atrai o ódio do establishment

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O bilionário francês Xavier Niel (Wikimedia Commons)

O bilionário francês Xavier Niel (Wikimedia Commons)

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Guilherme Manechini

Publicado em 15 de maio de 2012 às, 10h36.

São Paulo - Às vésperas das eleições presidenciais marcadas para o fim de abril, a França é um país­ em contínuo estado de negação. Apesar do alto endividamento e do baixo crescimento da economia, Nicolas Sarkozy, presidente de centro-direita que busca a reeleição, e seu principal rival, o socialista François Hollande, não querem saber dos urgentes ajustes que o país pede — o máximo que prometem são cortes quase cosméticos nas despesas.

Não que isso traga qualquer surpresa. Boa parte dos franceses culpa as agências de classificação de risco e o próprio capitalismo pelas agruras sofridas pelo país. De acordo com pesquisas de opinião, apenas 30% dos franceses dizem apoiar o livre mercado. 

Curiosamente, milhões de consumidores franceses estão tendo uma aula prática dos benefícios da competição — e parecem satisfeitos com ela. É o que se depreende do sucesso do último empreendimento lançado por Xavier Niel, o empresário francês mais bem-sucedido dos últimos anos.

Dono de uma fortuna estimada em 4,5 bilhões de dólares, a sétima da França, Niel estremeceu o segmento de telefonia celular ao criar a empresa Free e lançar, em janeiro, o plano mais barato do mercado — 2 euros mensais, valor que equivale a menos de um quinto do cobrado pela líder Orange, marca da France Telecom. Desde então, quase 2 milhões de pessoas se tornaram clientes da empresa. 

O próprio fascínio provocado pela trajetória de Niel é uma prova de que os franceses têm, no fundo, alguma admiração pelo espírito empreendedor. Uma das informações que ajudam a entender Niel é que ele detém parte dos direitos da música My Way, um dos grandes sucessos da longa carreira de Frank Sinatra.

Sem sobrenome aristocrático, sem diploma das prestigiosas universidades de elite da França, Niel abriu sua primeira empresa aos 19 anos. Sempre fiel “ao seu jeito”, criou um serviço de chat erótico e, mais tarde, passou a investir em casas de peep show — onde os clientes assistem a stripteases em cabines individuais.

A associação com a indústria do sexo, anos mais tarde, lhe renderia uma temporada de 30 dias na cadeia, sob acusação de exploração da prostituição (da qual foi inocentado). Nos anos 90, aos 28 anos, Niel arrefeceu sua pulsão sexual e lançou o Worldnet, primeiro provedor de internet francês. 

Vendeu o provedor pelo equivalente a 66 milhões de dólares — antes do estouro da bolha. Comparada aos valores praticados no mercado americano, a venda do Worldnet era um pingo no oceano. Na França, foi o suficiente para transformar Xavier Niel em símbolo da nova geração.


Em 2002, ele criou uma tecnologia que permitiu vender acesso a internet, TV e telefone num mesmo pacote. Com base na estratégia de low cost, Niel conquistou quase 25% do mercado de banda larga em cinco anos.  

Sem fraternité 

Quem está extremamente incomodado com a nova investida de Niel são as rivais Orange, SFR (da Vivendi) e Bouygues, cujo dono, Martin Bouygues, é um dos melhores amigos do presidente Sarkozy, além de padrinho de um de seus filhos. Sarkozy não engole Niel, a quem chama de “o homem do peep show”, uma referência às cabines de striptease que ainda fazem parte do portfólio de negócios do empresário.

Em 2010, Niel comprou o controle acionário do jornal francês Le Monde, de centro-esquerda, junto com os empresários Matthieu Pigasse e Pierre Bergé, ligados ao ex-diretor-geral do FMI Dominique Strauss-Kahn, um dos maiores desafetos de Sarkozy e outro adepto dos prazeres carnais.

Desprezado por parte da elite política e empresarial, o enfant terrible dos negócios é reverenciado por milhões de consumidores. “Talvez seja meu sucesso que desperte tanta inveja”, diz Niel.

Diante das acusações dos concorrentes de que seu modelo de negócios para a telefonia não é sustentável, ele se defende dizendo que a política de preços do setor é que é irreal — e não é o único a usar esse argumento. “Se a Free propõe tarifas baixas, é porque as outras têm grandes margens de lucro”, afirma Jan Ondrus, professor da Essec Business School, uma das principais escolas de negócios da França. 

A aura de outsider pode provocar antipatia nos círculos do poder, mas é valorizada pela autoridade reguladora de telecomunicações na França, conhecida pela sigla Arcep, interessada no aumento da competição. Recentemente, Jean-Ludovic Silicani, presidente da Arcep, declarou ao jornal Le Figaro que são infundadas as acusações de que a Free não esteja cumprindo os investimentos previstos na concessão.

Os ataques, porém, não param. Para os funcionários da SFR e do grupo Bouygues, a expansão da operadora de Niel vai resultar em demissões. A própria Arcep aceita que a competição no setor pode provocar o corte de até  10 000 empregos nas concorrentes em dois anos — e demissões são o que o presidente Sarkozy não quer nem ouvir falar às vésperas das eleições.  

“Nossa intenção sempre foi cortar os preços pela metade e devolver o dinheiro às famílias francesas”, diz Niel. Assim como na música My Way, o enfant terrible está fazendo tudo do jeito dele. E os consumidores — mesmo os franceses — estão adorando.

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