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Gargalos na ciência: Por que falta visão de longo prazo no país

Para a economista Fernanda De Negri, visitante do Instituto de Tecnologia de Massachusetts, o país gasta com ciência sem ter objetivos claros

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Pesquisa: No Brasil, estamos acostumados a ver períodos de maiores investimentos seguidos por cortes abruptos das verbas (Caroline Seidel/AFP/AFP)

Pesquisa: No Brasil, estamos acostumados a ver períodos de maiores investimentos seguidos por cortes abruptos das verbas (Caroline Seidel/AFP/AFP)

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Revista EXAME

Publicado em 2 de novembro de 2017 às, 05h43.

Última atualização em 14 de novembro de 2017 às, 12h15.

A economista paranaense Fernanda De Negri é uma profunda conhecedora dos gargalos da ciência no Brasil. Doutora em economia pela Universidade de Campinas e pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Fernanda publicou cinco livros sobre o tema. Um deles, Produtividade no Brasil: Desempenho e Determinantes, foi finalista do Prêmio Jabuti, o mais prestigiado do mercado editorial brasileiro, em 2015. Atualmente, ela é pesquisadora convidada do Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, onde prepara estudos sobre os entraves ao investimento em pesquisa científica no Brasil. Na entrevista a seguir, Fernanda explica por que falta visão de longo prazo sobre o tema no país — e como corrigir o problema.

Fernanda De Negri: nos Estados Unidos, o presidente define as prioridades de pesquisa | Ruy Baron/Valor/Agência O Globo

O Brasil investe pouco em ciência?

O país tem investido menos do que outras economias emergentes, como China e Coreia do Sul. Mas o problema mais grave é não ter uma preocupação sobre aonde a gente quer chegar como país com o recurso aplicado. Os investimentos em ciência percorrem um caminho longo até trazer resultados. Um exemplo que costumo citar é o do Captopril, tratamento para hipertensão que passou a ser comercializado no mundo nos anos 70.

A fabricação do remédio foi possível com o uso de moléculas presentes no veneno da jararaca, cuja propriedade medicinal havia sido descoberta por cientistas brasileiros 30 anos antes. Apesar disso, no Brasil, estamos acostumados a ver períodos de maiores investimentos seguidos por cortes abruptos das verbas disponíveis, como os que estão acontecendo agora. O orçamento do governo federal para a pesquisa científica caiu pela metade do ano passado para cá. Isso é péssimo para o cientista, que, sem segurança sobre o futuro de suas pesquisas, desiste dos estudos ou vai para outros países para terminá-los.

Por que isso acontece?

Há uma porção de fatores por trás do problema. Um dos principais é a falta de um diálogo da comunidade científica brasileira com o restante da sociedade sobre quais desafios a própria sociedade gostaria de ver resolvidos pelos cientistas. Essa visão deveria estar nas estratégias de ciência e tecnologia do governo, mas não está. Os documentos muitas vezes atendem aos pleitos da comunidade científica em detrimento das necessidades do país, o que é um erro.

E a crise econômica deve piorar a situação…

Numa situação de ajuste fiscal, como a que o Brasil vive agora, pouca gente entende a importância de preservar a ciência dos cortes de verbas. Isso acaba colocando em risco todo o investimento já realizado.

Como resolver essa falta de diálogo?

A agenda de ciência e tecnologia do governo deveria envolver gente de todas as áreas, e não apenas de um ministério designado para o assunto, como é o comum no Brasil. Nos Estados Unidos, a maior parte da verba para o tema sai do orçamento dos departamentos de Energia e Defesa. Há uma secretaria específica, ligada ao presidente da República, que coordena a comunicação entre os departamentos e estabelece as pesquisas estratégicas para o futuro do país. É um modelo com eficácia comprovada: os americanos estão tradicionalmente na vanguarda do avanço científico. O Brasil deveria espelhar-se nesse tipo de governança.

As empresas privadas poderiam investir mais em ciência no Brasil?

Achar que as empresas serão as grandes protagonistas do avanço científico é um mito. Normalmente, elas não dispõem de tempo, muitas vezes longo, para uma descoberta chegar ao mercado. No MIT, por exemplo, que é uma das maiores referências no mundo em ciência básica, apenas 10% do orçamento para as pesquisas vêm diretamente de empresas. O restante é verba do governo federal e dos fundos patrimoniais da universidade, os chamados endowments, mantidos por doações de ex-alunos ou de empresas que financiam o ensino superior em troca de benefícios fiscais. Dito isso, creio que as empresas poderiam colaborar mais para o avanço do conhecimento no Brasil.

Quais são os principais obstáculos para a participação privada e como removê-los?

Em grande medida, na raiz do problema, estão grandes carências do capitalismo brasileiro, como a baixa abertura comercial e o excesso de burocracia no ambiente de negócios. Esses entraves reduzem os incentivos e trazem complicações desnecessárias para as empresas inovadoras. Há ainda questões intrínsecas ao modelo de financiamento à ciência, como a falta de regras claras sobre a gestão dos fundos patrimoniais de universidades. Discutir o assunto, como o Congresso brasileiro vem fazendo atualmente, é um bom caminho para estimular a participação das empresas no financiamento da ciência no Brasil.

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