Entre o home office e o escritório

Enquanto as pessoas se adaptam ao trabalho em casa devido à pandemia, as empresas preparam as instalações para a volta ao expediente

Como tantas e tantas companhias, a Boehringer Ingelheim tem meditado sobre os prós e os contras de suspender o regime de home office imposto pela quarentena. Em São Paulo, onde fica a sede brasileira da farmacêutica alemã, a volta ao esquema tradicional foi autorizada pela prefeitura no começo de junho.

Com ressalvas: por enquanto, os escritórios só podem funcionar 4 horas por dia e o início e o fim do expediente não podem calhar com os horários de pico do trânsito, das 7 às 10 horas e das 17 às 20 horas. “Não temos urgência para voltar à rotina de antes porque a experiência do trabalho remoto tem sido um sucesso”, diz Esteban Ziegler, diretor de recursos humanos da farmacêutica no Brasil. “Agora é hora de refletir sobre quais funções precisam de fato ser desempenhadas presencialmente e como deve ser o escritório de amanhã.”

A bem da verdade, não é de hoje que a companhia se opõe à velha rotina corporativa. Ou pelo menos em sua sede brasileira, que se espalha por quase dois andares em uma das duas torres do complexo Rochaverá Corporate Towers, no bairro do Brooklin, na zona sul paulistana — os medicamentos são produzidos nos municípios de Paulínia e Itapecerica da Serra, em São Paulo.

Um dos diferenciais do escritório é o número de estações de trabalho, nenhuma delas com dono. São 312, ou 68 a menos do que o total de funcionários alocados no endereço. A desproporção, instituída em 2009, tem como objetivo impor a todos pelo menos um dia de home office por semana. Alguns trabalham de casa até 12 dias por mês — com a bênção do RH e dos chefes, e bem antes da covid-19. “A relação de confiança que estabelecemos na última década explica a naturalidade e a eficácia com que nos adaptamos ao home office compulsório”, avalia Ziegler.

Até segunda ordem, os funcionários só vão pisar novamente no Rochaverá se convencerem seus gestores de que determinadas tarefas não podem ser bem desempenhadas à distância — para os que pertencem ao grupo de risco para a covid-19 não há conversa. Enquanto a lista de empregados com sinal verde não é definida — nem a data de regresso deles —, a diretoria se debruça sobre as mudanças indispensáveis para a volta da rotina tradicional com menos risco de contágio. Alguns atributos do escritório, que ostenta o selo Gold da Leadership in Energy and Environmental Design (Leed), concedido pela ONG americana U.S. Green Building Council, favorecem a retomada em segurança.

É o caso do sistema de acendimento automático das luzes do teto, implantado, originalmente, para aumentar o aproveitamento da iluminação natural e diminuir o consumo energético. No contexto atual, o dispositivo se destaca pela ausência de interruptores, potenciais focos de contaminação. Outras características bem-vindas em tempos de pandemia: os vistosos jardins verticais, que oxigenam o ambiente, e a falta de paredes ao redor de muitas das mesas de reuniões, o que impede o aprisionamento do ar e facilita o distanciamento.

Eis as feições dos escritórios do futuro, de acordo com os especialistas ouvidos para esta reportagem. Para o estúdio de arquitetura e engenharia It’s Informov, eles terão portas automatizadas, para evitar o contato com barras e maçanetas, e setas indicativas no chão determinando um trajeto único, circular. O objetivo delas é evitar o cruzamento de funcionários — porventura sem máscaras, espalhando perdigotos adiante — em direções diferentes.

Responsável pela sede do iFood e do Bradesco, o estúdio também prevê cabines individuais para facilitar reuniões online mesmo com colegas presentes na empresa e a instalação de totens nas entradas para acelerar a medição da temperatura de quem chega — mais de 37,8 graus Celsius atestam febre, um dos sintomas da covid-19. “Os escritórios não vão deixar de existir, mas servirão mais como pontos de apoio ao trabalho remoto”, acredita Murilo Toporcov, diretor executivo da It’s Informov. Às voltas com 24 obras de novos escritórios — as companhias são mantidas em sigilo —, o estúdio vai implementar em parte deles algumas das novidades.

Com filiais em 16 países e uma lista de clientes que inclui o Facebook e a Toyota, o estúdio de arquitetura Gensler propõe que os banheiros ganhem entradas similares às dos aeroportos, que dispensam os usuários de encostar em maçanetas. Sistemas automáticos de descarga e acionamento de água e sabão também são recomendados. Outra proposta da multinacional é montar áreas de isolamento para os funcionários que manifestarem durante o expediente algum dos sintomas do novo coronavírus — como o objetivo é impedir o contágio de outros empregados, é crucial que elas não estejam ligadas ao sistema de ar condicionado do restante do escritório. Mais uma recomendação: transformar terraços, rooftops e outras áreas ao ar livre em salas de reuniões, que também podem ser usadas para refeições.

Algumas mudanças, inevitáveis e exigidas pela prefeitura de São Paulo, estão ancoradas nas diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS). Uma delas é o espaçamento das estações de trabalho, para garantir 1,8 metro de distância. O ideal é o formato cruzado, para que ninguém se sente na frente de ninguém — instalar placas de acrílico até a altura do rosto e limitar a quantidade de funcionários por turno são outras soluções. A disponibilização de álcool em gel na entrada, nas áreas de trânsito e em cada estação de trabalho também é inevitável, assim como a higienização redobrada, inclusive dos elevadores e dos filtros de ar-condicionado.

A responsabilidade, portanto, também recai sobre as administradoras dos edifícios comerciais. A uma quadra da Avenida Paulista, o edifício Santos Augusta, que abriga os escritórios do Spotify e da Farfetch, está instalando lâmpadas ultravioleta, nocivas ao novo coronavírus, em todas as saídas de ar. Também reforçou os protocolos de limpeza e demarcou os pisos para incentivar o distanciamento, entre outras medidas desse tipo, bem-vindas mesmo quando a pandemia em curso tiver sido vencida.

Há alterações que vão além do espaço físico. O Hospital Albert Einstein, onde foi registrado o primeiro caso de ­covid-19 na América Latina, recomenda que as jornadas deixem de coincidir com a hora do almoço. “Eliminam-se os riscos de contaminação nos restaurantes e de aglomeração na copa da empresa”, explica Anarita Buffe, diretora do setor de consultoria do Einstein.

Desde o início da pandemia em curso, o hospital já foi contratado por cerca de 40 companhias, como Cinemark, BRF, Gol e Vigor, ávidas por permanecer na ativa em segurança. As consultorias do Einstein iniciam em 60.000 reais, no caso de escritórios mais simples, e podem passar de 1 milhão de reais, quando envolvem fábricas com complexas linhas de produção. Algumas recomendações dispensam explicações: uso de máscaras durante todo o expediente e nos trajetos de ida e volta; e nada de compartilhar canetas e canecas.

Enquanto algumas companhias correm para adaptar suas instalações, outras quebram a cabeça para assimilar o trabalho remoto em definitivo — várias fazem as duas coisas. A XP Investimentos, por exemplo, informou que os funcionários poderão escolher entre trabalhar ou não de casa após a quarentena e que pretende montar uma sede, menor, nos arredores de São Paulo, destinada mais a treinamentos, dinâmicas e recepção de clientes e parceiros. Em regime de home office até o fim do ano, o Google disponibilizou 1.000 dólares para cada empregado, ou o equivalente em moeda local.

O dinheiro só pode ser gasto, mediante reembolso, com a compra de itens que facilitem o trabalho remoto, como cadeiras apropriadas. É bom ouvir o arquiteto Guto Requena, de cuja prancheta saiu a primeira configuração da sede do Google em São Paulo. “Os escritórios que mais estimulam o trabalho são os que se preocupam com o bem-estar”, explica ele. “Daí a importância de investir em plantas, em iluminação mais aconchegante e na melhora acústica. Tudo isso também vale para o home office.”

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