A geração pós-bolha da internet

Os jovens empreendedores brasileiros da internet aprenderam o mais importante -- suas idéias, por melhores que sejam, não vão transformar a velha logica de que lucro é fundamental

O carioca Rodrigo Mol, de 28 anos, ainda se lembra em detalhes do primeiro negócio que fechou na vida, quando tinha 8 anos de idade, em 1988. Ele trocou uma bicicleta BMX Monark amarela por um computador MX 1600, um tipo rudimentar de CPU com teclado para ser acoplado a um televisor.

Desde então, Mol tornou-se um aficionado de videogames, programas de cálculos e computação gráfica. Há três meses, ele lançou junto com o sócio Bernardo Leitão o site Sedeubem.com, primeiro portal de internet brasileiro dedicado a realizar leilões reversos — modalidade de venda online em que o comprador insere no site as especificações, o preço e a forma de pagamento do produto que deseja e os fornecedores apresentam suas propostas.

Em sua curtíssima trajetória, o Sedeubem.com já atraiu 45 000 visitantes e fechou parcerias com 200 grandes representantes de marcas como Samsung, HP, Sony e Intel. Rodrigo Mol e Bernardo Leitão são exemplos de uma nova geração de empreendedores ligados à área de tecnologia que começa a atrair a atenção de grandes empresas e investidores depois do traumático e anunciado estouro da bolha da internet, há sete anos.

Em 2007, segundo dados da Fiesp, houve aumento de 40% no número de novos negócios da internet apenas em São Paulo. Estatísticas da consultoria e-bit apontam que existem hoje no país 14 900 pequenas e médias empresas na internet voltadas apenas para a área de varejo online.

O florescimento de uma geração pós-bolha no Brasil, de certa forma, repete — em escala bem mais modesta — o que tem acontecido nos Estados Unidos. Depois do frenesi ocorrido no final da década de 90, quando empresas recém-criadas — as start-ups — receberam um enorme afluxo de capital especulativo e depois faliram, um novo ciclo de empreendimentos vem surgindo.

São companhias também nascidas nos dormitórios das universidades, mas com diferenças cruciais em relação a suas antecessoras: oferecem algo que os consumidores precisam ou desejam, têm modelos de negócios que fazem pelo menos algum sentido e precisam dar resultado. É dessa nova leva o Facebook, site de relacionamento criado por um estudante de Harvard e seus amigos em 2004, que hoje congrega mais de 70 milhões de usuários e vale aproximadamente 5 bilhões de dólares.


Em março deste ano, o criador do site, Mark Zuckerberg, de 24 anos, entrou para a lista de bilionários da revista americana Forbes, com uma fortuna estimada em 1,5 bilhão de dólares. Adepto de um estilo desleixado, Zuckerberg inaugura uma geração de bilionários cujo uniforme é composto de camisetas surradas, jeans velhos e simplórios pares de chinelos. No último ano, o Facebook gerou uma receita de 150 milhões de dólares e lucrou 30 milhões de dólares.

Não dá para dizer que seja um resultado espetacular — mas o modelo de negócios por trás dele foi sedutor o suficiente para chamar a atenção de Bill Gates, um sujeito que não costuma queimar dinheiro. No ano passado, a Microsoft pagou 240 milhões de dólares por 1,6% de participação na empresa de Zuckerberg, sinalizando esperar números muito melhores daqui para a frente.

Os empreendedores brasileiros da geração pós-bolha ainda estão a anos-luz dos bilhões de Zuckerberg — poucos chegaram à casa dos milhões de reais –, mas demonstram conhecimento de tudo o que acontece na rede, mantêm contatos globais e criam produtos extremamente específicos para nichos de tecnologia que a maioria das pessoas nem sequer imagina existir.

A Boo-box é um exemplo. A companhia criou uma especialidade de negócio conhecida pelo enigmático nome de e-marketing conceitual e hoje exporta tecnologia para Estados Unidos, França e Japão. Como a maioria de suas congêneres, a Boo-box brotou quase espontaneamente dos experimentos que seu criador, o brasiliense Marco Gomes, de 21 anos, fazia em seu blog.

Fã de Bob Marley e adepto do estilo rastafári — em que não faltam nem mesmo os dreadlocks no cabelo –, Gomes criou um mecanismo pelo qual é possível associar informações complementares a conteúdos na internet. Funciona assim: um usuário passa o mouse sobre uma palavra, texto ou imagem e imediatamente uma janela se abre com uma informação publicitária ligada àquele conteúdo.

Sua invenção ganhou o mundo quando um site americano, o TechCrunch, referência no setor de tecnologia, a descobriu e publicou uma reportagem a respeito. “Depois da publicação, começaram a chover pedidos para o uso da tecnologia. Hoje temos cerca de 5 000 usuários da ferramenta espalhados pelo mundo”, diz Gomes. Com o surgimento dos clientes, a Boo-box atraiu a atenção dos investidores e recentemente recebeu 300 000 dólares da gestora de fundos Monashees.


O INTERESSE DOS INVESTIDORES DE RISCO TEM SIDO, em larga medida, a grande mola impulsionadora de novos empreendedores brasileiros na internet. Com crescimento de 200% em relação a 2004, a indústria brasileira de capital de risco fechou 2007 com cerca de 600 milhões de dólares comprometidos em aplicações de venture capital, que oferecem perspectiva de ganhos maiores — e que envolvem muito mais risco — do que as aplicações tradicionais.

Por motivos óbvios, a área de internet está entre as que mais atraem a atenção dos investidores no momento, ao lado dos setores de biocombustíveis, especialmente etanol, e de biotecnologia. Uma dessas gestoras de capital de risco é a Brainer’s, empresa do publicitário Roberto Justus, criada no ano passado para investir em novos negócios de jovens empreendedores.

Em abril, a Brainer’s comprou uma participação de 51% na empresa Tríade do Tempo, criada em 2006 pelo santista Christian Barbosa, de 27 anos. Seu principal produto é um software de gerenciamento de tempo, específico para empresas. Desde a adolescência, Barbosa é fanático por computação — aos 13 anos, antes mesmo de concluir o ensino fundamental, ganhou uma bolsa para fazer um curso de especialização na sede da Microsoft, em Redmond, nos Estados Unidos.

Aos 17 anos, trabalhava 18 horas por dia em desenvolvimento de softwares para terceiros até que sofreu um colapso por excesso de trabalho. “O médico recomendou que eu freqüentasse um curso de gestão de tempo”, diz. Esse conselho desencadeou o projeto que levou à criação da Tríade. Barbosa passou a dar cursos, inclusive, a gestores da Microsoft nos Estados Unidos.

Fruto de um investimento inicial de 600 000 reais, bancado pelo próprio Barbosa, a Tríade possui hoje o maior banco de dados mundial sobre produtividade. “A empresa tem um custo operacional baixo e, pelas nossas avaliações, tem potencial de retorno de até 50 milhões de reais ainda neste ano”, diz Justus.

A grande ironia em torno da internet é que, passada a depressão pós-bolha, a rede tornou-se, de fato, tudo aquilo que se ima    ginava dela. É difícil conceber o mundo moderno — e o ambiente de negócios — desvinculado da rede. O sucesso de empresas que sobreviveram à derrocada inicial, como Google e Amazon, solidificou o conceito de economia virtual, com uma excepcional performance em bolsa de valores mas também com resultados concretos.


“Basicamente, foi uma questão de tempo de amadurecimento. Na época pré-bolha, havia um fluxo incrível de investimento especulativo em empresas que não tinham a menor condição de recebê-lo”, diz Álvaro Gomes Jr., um dos sócios da Brainer’s. Na comparação com a geração pré-bolha, os atuais empreendedores contam com pelo menos três vantagens.

A primeira é o irrisório custo de infra-estrutura para manter uma empresa online. Enquanto os negócios pioneiros exigiam altos investimentos em tecnologia, hoje é possível manter um site de e-commerce com menos de 200 reais por mês.

A segunda é a popularização da própria internet e das redes de banda larga, que permitem rápida conexão e um vasto mercado potencial para qualquer tipo de produto ou serviço online. Hoje, no Brasil, há 45 milhões de usuários de internet, dos quais 20% têm conexão de alta velocidade. A terceira vantagem da geração pós-bolha é o bom momento econômico brasileiro.

“O Brasil é hoje um mercado mais maduro e estável, e os empreendedores têm uma clara noção de gestão de negócios online, o que não existia antes do estouro da bolha da internet”, diz Eric Acher, ex-executivo do setor financeiro e sócio da Monashees, que deve fechar o ano com investimentos em cinco empresas de internet.

Apesar do crescente interesse dos investidores em financiar novos negócios de tecnologia no Brasil, atrair recursos para uma empresa start-up não é tarefa trivial. A primeira dificuldade está nos meios para identificar um novo negócio promissor. “Nos Estados Unidos, as próprias universidades montam departamentos que fazem essa ponte entre os estudantes e os investidores.

É assim que funciona o Vale do Silício”, diz a investidora americana Kimberlie Cerrone, que tem em seu currículo o financiamento do Yahoo!, em 1994, quando seus fundadores ainda estudavam na Universidade Stanford, em Palo Alto, na Califórnia.

“No Brasil, isso praticamente não existe, e essa lacuna dificulta muito a entrada de investidores estrangeiros, que não têm nem mesmo por onde começar a procurar bons negócios.” Um exemplo dessa deficiência brasileira é o site de vídeos na internet Videolog, criado em 2004 pelos cariocas Ariel Alexandre, de 25 anos, e Edson Mackensy, de 26.


O site tem uma tecnologia muito semelhante à do YouTube, que surgiu nos Estados Unidos em 2005 e foi vendido em menos de dois anos ao Google, por 1,6 bilhão de dólares. Há quatro anos na web, o Videolog ainda não tem investidor. No ano passado, fechou uma parceria com o UOL. “Até 2006, movimentamos cerca de 250 000 reais por ano com venda de publicidade. Em 2007, tivemos faturamento de 1,2 milhão de reais”, diz Mackensy.

O mundo das empresas start-ups de tecnologia é regido por uma das mais cruéis formas de darwinismo — seja no Brasil, nos Estados Unidos, seja em qualquer parte do mundo. As estatísticas apontam que, de cada dez empresas novas que nascem e recebem investimentos externos (o que já acontece bissextamente), apenas duas dão lucro e três empatam o capital investido.

As razões para isso vão desde os problemas de gestão de negócio até o tipo de produto oferecido e a agressividade dos concorrentes. “Basicamente, a maior causa de fracasso entre as novas empresas são deficiências nos modelos de negócios e avaliações erradas sobre o potencial comercial que possuem”, diz Carlos Eduardo Guillaume, diretor executivo da Confrapar, gestora de capital de risco sediada em Belo Horizonte.

No início deste ano, Guillaume aplicou aproximadamente 2 milhões de reais no Via6.com, site de relacionamento que conecta profissionais e funciona no modelo colaborativo da Wikipédia, criado pelos estudantes de computação Renato Shirakashi, de 24 anos, e Diego Monteiro, de 25. A expectativa de Guillaume com o negócio é conseguir um retorno de pelo menos 15% a 20% ao ano sobre o valor aplicado.

Antes do investimento feito pela Confrapar, o Via6.com tinha uma média de 20 000 usuários cadastrados, que hoje já ultrapassam 220 000. Com o crescimento, a empresa recebeu propostas de parceria de empresas como o grupo Estado, que edita o jornal O Estado de S. Paulo. Jovens empresários da internet, como Shirakashi e Monteiro, oferecem mais — muito mais — que a maioria dos empreendedores dos tempos da bolha.

Eles, acima de tudo, não têm a ilusão de que idéias pretensamente geniais podem tudo, inclusive mudar a lógica dos negócios. Não podem. E eles têm um longo caminho para ver como isso funciona na prática.

Apoie a Exame, por favor desabilite seu Adblock.