Revista Exame

A batalha da comida: preços dos alimentos aumentaram com a pandemia

Os preços dos alimentos dispararam no mundo por causa da guerra e das mudanças climáticas. A onda protecionista chegou. O Brasil também é afetado, mas pode se beneficiar do caos

Prejuízos para a lavoura foram muito grandes nesse período (Dhiraj Singh/Bloomberg/Getty Images)

Prejuízos para a lavoura foram muito grandes nesse período (Dhiraj Singh/Bloomberg/Getty Images)

CA

Carla Aranha

Publicado em 24 de junho de 2022 às 06h00.

Em maio, o produtor rural indiano nirman kurman, dono da Kranti­ Farms, ficou chocado com o que viu no céu: pássaros despencavam em pleno voo em consequência de uma forte desidratação causada por temperaturas extremas, de quase 50 graus Celsius, e tempo seco. O fenômeno podia ser observado em outras partes do país. “Fiquei espantado, pois onde tenho minhas plantações, no norte da Índia, perto do Nepal, o clima é bem agradável nessa época do ano”, diz. “Os prejuízos para a lavoura foram muito grandes, já que o trigo estava em plena maturação.” Kurman colhe 2.000 toneladas de trigo e açúcar por ano. Por causa do clima, nesta safra, a previsão é de uma redução de 10% na colheita de trigo. No país todo, a produção deve cair 4,4%, segundo o governo indiano — e isso em um cenário de custos dos alimentos pressionados, em meio a uma inflação de 7,1% em maio, pouco inferior à taxa de 7,7% registrada em abril (a maior dos últimos oito anos). Segundo maior produtor de trigo do mundo, o país decidiu restringir as exportações do grão para coibir a alta dos preços. Em um intervalo de poucos dias, a Índia limitou também as vendas externas de açúcar a fim de aumentar os estoques domésticos — e, mais uma vez, tentar domar a alta de preços.

Pelo menos outros 22 países tomaram medidas parecidas nos últimos meses, segundo o Instituto Internacional de Pesquisa em Política Alimentar (IFPRI, na sigla em inglês), um think tank americano baseado em Washington. A Malásia, por exemplo, limitou a exportação de frango no início de junho — a decisão provocou uma corrida aos supermercados em Singapura, já que 34% das aves são importadas de Kuala Lumpur. A Indonésia, responsável por 60% da produção mundial de óleo de palma, proibiu as vendas externas da commodity. O veto total aos embarques, imposto em abril, acabou sendo substituído por um sistema de cotas de exportação para assegurar um estoque doméstico. A expectativa é que o preço global do óleo de palma, matéria-prima para produtos que vão de pão de forma a sabonete, aumente 60% até o fim do ano, com a redução da oferta — nos últimos meses, a alta chegou a 40%, segundo a consultoria britânica LMC International. “A preocupação é que o mundo passe a conviver com preços mais altos e um aumento generalizado do protecionismo”, diz Peter Timmer, professor emérito da Universidade Harvard e especialista em segurança alimentar.

O protecionismo agrícola é a ponta do iceberg de um fenômeno maior, que combina mudanças climáticas com a inflação global causada pelos efeitos da pandemia, da guerra na Ucrânia e das sanções à Rússia. “É muita coisa acontecendo ao mesmo tempo, o que sinaliza mudanças importantes na economia e nos fluxos de comércio”, diz Satyam Panday, economista-chefe da agência de risco S&P Global. “A duração do conflito armado no Leste Europeu, celeiro da Europa, vai determinar em boa parte a extensão desse novo normal.” Um estudo do IFPRI aponta que as limitações nas exportações impactam diretamente 20% das calorias consumidas no mundo. Entre os produtos mais afetados pelo protecionismo estão trigo, óleo de palma, milho, óleo de girassol e soja. Para piorar, neste ano a colheita global de grãos deverá cair pela primeira vez desde 2018, em razão do impacto das ondas de calor na Índia e da guerra na Ucrânia, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). Em março, a inflação de alimentos chegou a 13%, um recorde histórico. Nesse cenário, o risco de insegurança alimentar só cresce mundo afora. Segundo estimativas da entidade, o número de desnutridos pode aumentar em 13 milhões de pessoas até 2023, especialmente na África, na Ásia e no Oriente Médio, elevando o total global para quase 830 milhões de pessoas com privação alimentar.

As repercussões da crise de alimentos e da escalada da inflação global estiveram entre os principais temas debatidos neste ano no Fórum Econômico Mundial, em Davos, que ocorreu pela primeira vez presencialmente desde o início da pandemia. “Tivemos choques nos preços das commodities em muitos países. Os preços dos alimentos continuam subindo e subindo”, disse a diretora-gerente do Fundo Monetário Internacional, Kristalina Georgieva. “Podemos reduzir nosso uso de gasolina quando o crescimento econômico desacelera, mas temos de comer todos os dias.” Mais de 90% dos analistas ouvidos pelo Fórum de Davos esperam uma inflação “alta” ou “muito alta” em 2022 em todos os países, exceto na China e no leste da Ásia. E dois terços dos economistas entrevistados esperam que a renda real das famílias diminua nas economias mais avançadas do mundo.

Refugiados no Iêmen: com a escalada dos preços dos alimentos, a expectativa é que o número de desnutridos aumente em 13 milhões de pessoas neste ano (Khaled Ziad/AFP/Getty Images)

À medida que a guerra se prolonga, a luz no fim do túnel para a crise dos combustíveis, um dos principais motores da alta de preços mundial, parece cada vez mais distante, pelo menos no curto prazo. A determinação da União Europeia em banir as importações de 90% de petróleo russo até o final do ano não deve ajudar muito. A Alemanha, maior economia europeia, compra da Rússia, terceiro maior produtor mundial, 30% de todo o petróleo que consome — países como a Polônia e a Finlândia são ainda mais dependentes do insumo russo, que responde por 65% do combustível utilizado por essas nações, segundo a consultoria Oxford Economics. “A grande questão é de quem a Europa vai comprar petróleo e que preço vai pagar por isso, já que a oferta é limitada”, diz Panday. Desde o início do conflito, o preço do barril do petróleo aumentou mais de 30%, com algumas flutuações — em março, logo depois da invasão da Ucrânia, chegou a ser negociado a quase 140 dólares. O patamar atual, de 120 dólares, não é nenhum refresco: no meio de junho, o galão de gasolina bateu 5 dólares nos Estados Unidos, apenas 8% mais em conta do que os valores atingidos na crise financeira de 2008. Por aqui, na sexta-feira, 17 de junho, a Petrobras anunciou o reajuste de 5,2% para a gasolina e 14,2% para o diesel nos preços de venda para as distribuidoras, o que deve acarretar um aumento imediato nos valores praticados nos postos de combustíveis.

Transporte de frutos de palma, na indonésia: Responsável por 60% da produção mundial de óleo de palma, o país proibiu as exportações (WAHYUDI/AFP/Getty Images)

 

(Arte/Exame)

Outro motivo que faz a atual crise ser ainda mais grave é o próprio papel na produção de alimentos das nações envolvidas diretamente na guerra. Juntas, a Ucrânia e a Rússia respondem por quase 30% das exportações mundiais de trigo e milho, itens básicos para a alimentação dos seres humanos e para a ração utilizada na pecuária. No caso do óleo de girassol, outro alimento essencial, os dois países respondem por metade da produção mundial, segundo a FAO. A Rússia, que nos últimos anos colocou em prática políticas para se tornar autossuficiente na produção agropecuária, está incorporando 13 milhões de hectares de terras agrícolas, graças a investimentos em tecnologia e incentivos como taxas de juro mais baixas para negócios de pesquisa e inovação — proprietários rurais que investem em novas técnicas também podem usufruir de linhas especiais de crédito. “Fazendas pouco produtivas, da época da União Soviética, estão se transformando em celeiros”, diz Marcos Jank, professor de agronégocio do Insper. Os avanços conquistados pelos russos, no entanto, serão usufruídos pelo próprio país e seus aliados, como a China.

Baixo crescimento
Nos corredores mundiais do poder, o sinal de alerta sobre os efeitos econômicos e políticos de uma nova era de preços mais altos de energia e alimentos vem soando mais forte. Agências de risco como a S&P Global e a Eurasia vêm exprimindo receio em relação à deterioração do contexto macroeconômico na Europa e nos Estados Unidos. O crescimento econômico global deve cair de 5,7% em 2021 para 2,9% neste ano, segundo o Banco Mundial. E deve seguir nos mesmos patamares nos próximos anos — nas economias avançadas, a queda deve ser contínua, com uma projeção de expansão do PIB de apenas 1,9% em 2024. Depois disso, é difícil prever, embora haja sinalizações preocupantes. “A intenção de proteger os estoques domésticos diante de incertezas geopolíticas e econômicas deve continuar aumentando e faz parte dessa nova realidade”, diz o cientista político Christopher Garman, diretor executivo para as Américas da Eurasia. “Há uma incapacidade dos governos de lidar com esses desafios e propor soluções efetivas”, afirma Garman.

(Arte/Exame)

As mudanças podem ser muito mais profundas do que se imagina à primeira vista. “Os Estados Unidos e a Europa, machucados por questões inflacionárias e de baixo crescimento, além de incertezas políticas, dificilmente recuperarão sua hegemonia geopolítica e econômica na próxima década”, diz o historiador americano Alfred McCoy, da Universidade de Wisconsin. “Estamos vivendo um momento de transição histórica, com as grandes potências ocidentais passando por um período de ostracismo e o Oriente ganhando projeção.” Até 2030, a China continuará crescendo cerca de 4,7% ao ano, segundo a consultoria britânica Centre for Economics and Business Research, enquanto as economias europeia e americana deverão declinar. Com uma queda de 1,5% do PIB no primeiro trimestre, os Estados Unidos podem estar se aproximando de um período de crescimento baixo, de no máximo 2% ao ano, segundo projeções do Banco Mundial, e inflação persistente. Na Europa, a situação não é muito melhor: a Alemanha, maior economia da zona do euro, cresceu apenas 0,2% nos primeiros três meses do ano em comparação ao período anterior. Na melhor das hipóteses, o país deverá fechar o ano com uma expansão de cerca de 2% no PIB, segundo o governo alemão. “As preocupações com uma recessão na Europa e nos Estados Unidos têm aumentado, ao mesmo tempo que a China e as economias do Sudeste Asiático continuam resilientes”, diz Garman.

A Índia, hoje uma das maiores compradoras do petróleo russo (em maio, foram mais de 740.000 barris por dia), deverá crescer 6,5% em 2024, segundo o Banco Mundial, deixando bem para trás países como os Estados Unidos (2%). As projeções para o Brasil são de um crescimento igualmente tímido, na casa dos 2%. A boa notícia é que, em uma nova configuração geopolítica e econômica mundial, a competição pelo fornecimento de commodities no mundo também deverá mudar. “Com os recordes de produtividade que vem batendo, o Brasil está bem posicionado para aumentar ainda mais seu papel no cenário global do comércio de alimentos”, diz Jank, do Insper.

Milho produzido na bahia: Apesar de sofrer as consequências da crise alimentar, o Brasil é considerado um dos países que fazem parte da solução (Dado Galdieri/Bloomberg/Getty Images)

Essa perspectiva se traduziu no tratamento recebido pelo Brasil no Fórum Econômico Mundial, em Davos. Antes da guerra no Leste Europeu, o país era ora escanteado nas discussões globais, ora cobrado pelo avanço do desmatamento e pelo pouco empenho na área ambiental. Por isso, nessa edição do Fórum de Davos, o Brasil foi considerado parte da solução, e não mais o “patinho feio” na sala. O ministro da Economia, Paulo Guedes, o presidente do BNDES, Gustavo Montezano, e executivos brasileiros que participaram do Fórum notaram o interesse em conversar nos encontros bilaterais, e em estreitar relações com o país. Eles mesmos admitiram que a agenda deste ano foi muito mais intensa do que nas edições passadas do Fórum. O mundo todo queria falar com o Brasil, considerado um dos únicos países capazes de substituir a Rússia e a Ucrânia na produção de alimentos neste momento em falta no mundo. O Brasil também foi considerado um possível fornecedor de petróleo e de gás, extraídos do pré-sal. Resta ao país se posicionar para aproveitar as oportunidades.


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