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SaaSpocalypse? Para Benioff, a IA não vai acabar com o software

Com líderes da Nvidia, Anthropic e OpenAI, Dreamforce mostra como agentes de IA estão reinventando os softwares e a maneira de trabalhar

Por Exame Brand Solutions

Publicado em 29/10/2026, às 14:30.

Última atualização em 29/10/2026, às 14:30.

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Será que o software como conhecemos está prestes a mudar? No Vale do Silício, o avanço da inteligência artificial colocou essa pergunta no centro das discussões sobre o futuro da tecnologia.

Afinal, se a IA já consegue acessar dados, executar tarefas e conduzir processos, como será nossa relação com os programas que usamos todos os dias? A transformação ganhou até um nome provocativo: SaaSpocalypse, uma combinação de SaaS, sigla em inglês para software como serviço, com apocalipse.

Para Marc Benioff, CEO da Salesforce, o mercado pode estar olhando para o lugar errado. “A SaaSpocalypse não era sobre o fim do software, mas talvez sobre o fim do software que faz os humanos realizarem todo o trabalho”, afirmou o executivo durante o Dreamforce 2026, conferência anual da companhia realizada em setembro, em São Francisco.

A declaração ajuda a entender o que esteve no centro do evento, que reuniu cerca de 50 mil participantes ao longo de três dias. Depois de conquistar espaço como ferramenta de consulta e geração de conteúdo, a inteligência artificial começa a realizar atividades que antes exigiam uma sequência de comandos e a intervenção constante das pessoas.

É o avanço da chamada IA agêntica, capaz de consultar informações, tomar decisões dentro de regras estabelecidas e executar ações para atingir determinados objetivos. Mais do que automatizar tarefas, a tecnologia promete mudar a rotina das empresas e a própria maneira de utilizar os softwares.

Veja como foi o Dreamforce 2026

O software não acaba, mas a interface muda

“A inteligência artificial está criando uma revolução das interfaces”, afirmou Benioff. A declaração ajuda a entender o principal lançamento apresentado pela Salesforce na Dreamforce: o AIforce, uma camada tecnológica que leva os recursos da plataforma para diferentes ambientes de trabalho.

Até agora, para consultar informações de clientes, atualizar registros ou acompanhar uma negociação, o colaborador precisava acessar o sistema e navegar por telas, menus e campos.

A proposta agora é permitir que essas atividades sejam realizadas diretamente em ferramentas como Claude e Slack, por meio de comandos em linguagem natural.

Um vendedor poderá, por exemplo, perguntar quais clientes estão há mais tempo sem contato, solicitar uma análise das oportunidades em andamento ou atualizar informações sem precisar abrir separadamente o sistema de gestão de relacionamento com clientes, conhecido pela sigla CRM.

A mudança vai além de substituir cliques por conversas. Segundo a Salesforce, o AIforce também permite criar interfaces personalizadas a partir de uma descrição do que o usuário precisa.

Em vez de depender de uma tela fixa, será possível solicitar uma visualização com determinados indicadores e receber um ambiente interativo construído para aquela necessidade.

Para que isso funcione, os agentes precisam acessar informações confiáveis, compreender regras de negócio, respeitar permissões e se conectar aos processos da organização. É nessa infraestrutura que a Salesforce pretende ampliar sua atuação.

A companhia afirma que o AIforce utiliza os dados, as regras e os mecanismos de segurança já existentes em sua plataforma, sem exigir que as empresas abandonem seus sistemas atuais.

O que pensam os líderes da IA

A discussão sobre o futuro do software também mobilizou alguns dos principais nomes da indústria de tecnologia.

Jensen Huang, CEO da Nvidia, rejeitou a ideia de que o avanço da inteligência artificial represente o desaparecimento dos softwares. Para ele, os agentes de IA devem funcionar como uma nova camada de inteligência sobre os sistemas existentes, ampliando suas capacidades.

A Nvidia e a Salesforce anunciaram ainda uma colaboração em torno do Koa, modelo de IA voltado ao raciocínio em processos de gestão de relacionamento com clientes.

Já Dario Amodei, CEO da Anthropic, chamou atenção para a distância entre o potencial da inteligência artificial e o que as empresas efetivamente conseguem aproveitar.

Segundo sua avaliação, mesmo que os modelos deixassem de evoluir, as organizações ainda teriam um enorme espaço para extrair valor das ferramentas disponíveis. Ele estimou que apenas de 5% a 10% do potencial da tecnologia esteja sendo utilizado.

A observação ajuda a explicar por que a corrida pela IA está mudando de direção. O desenvolvimento de modelos cada vez mais sofisticados continua importante, mas a capacidade de transformar esses avanços em produtividade, eficiência e resultados concretos passou a ocupar o centro da discussão.

Sam Altman, CEO da OpenAI, acrescentou outra perspectiva ao debate. Para ele, a inteligência artificial poderá ampliar a capacidade das pessoas de criar negócios, desenvolver projetos e realizar atividades que hoje exigem estruturas maiores.

Altman também destacou a importância de preservar o papel humano nessa transformação e de acompanhar o desenvolvimento da tecnologia com mecanismos de segurança, transparência e avaliação de riscos.

As visões apresentadas no Dreamforce apontam para uma mesma questão: o valor da inteligência artificial não estará apenas na qualidade das respostas que produz, mas na capacidade de ajudar pessoas e empresas a fazer mais.

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Do discurso à operação

Se nos palcos a discussão era sobre o futuro, os casos apresentados durante o evento mostraram como essa transformação começa a ganhar aplicações práticas.

No Brasil, o Agibank é um dos exemplos. O banco passou a utilizar agentes de inteligência artificial integrados ao WhatsApp para atender clientes e conduzir diferentes etapas do relacionamento com a instituição.

A iniciativa tem uma particularidade importante: boa parte do público atendido pelo banco possui renda mensal de até R$ 3.500. Isso exige uma tecnologia capaz de compreender diferentes sotaques, expressões regionais e maneiras de formular perguntas, sem depender de comandos padronizados.

Em vez de seguir apenas roteiros rígidos, como ocorre em muitos chatbots tradicionais, os agentes identificam a intenção do cliente, consultam informações relevantes e podem acionar processos internos.

A estrutura inclui diferentes agentes especializados. Um deles identifica o motivo do contato e encaminha a solicitação. Outro consulta uma base de conhecimento para responder dúvidas. Há ainda um agente voltado a situações relacionadas à portabilidade de empréstimos.

“A curadoria da base de conhecimento é o que define a qualidade do agente. Também é fundamental estabelecer claramente o que ele deve e não deve fazer — os guardrails. Um agente bem instruído e bem alimentado resolve jornadas que antes só um humano conseguia conduzir”, afirma Matheus Girardi, CMO do Agibank.

Segundo dados divulgados pelo banco e pela Salesforce, a tecnologia já alcançou um índice de 80% de resolução sem encaminhamento para atendimento humano nas consultas relacionadas a propostas de crédito. Nas perguntas frequentes, o índice informado é de 30%, com mais de 60 mil clientes atendidos desde novembro de 2025.

Outro agente, dedicado a consultas sobre o andamento de empréstimos, recebe aproximadamente 70 mil solicitações mensais.

Números do Agibank

  •  80% das consultas sobre propostas de crédito são resolvidas sem transferência para atendimento humano.
  • Mais de 60 mil clientes atendidos com respostas a perguntas frequentes desde novembro de 2025.
  • 70 mil consultas mensais sobre o andamento de empréstimos.

​​Veja exemplos de empresas brasileiras que usam IA a favor dos negócios

A IA ganha sotaque brasileiro

Além do case de Agibank, o público do Dreamforce pode acompanhar os resultados da Globo, que apresentou o Bial, agente de IA que permite aos assinantes conversar e explorar conteúdos.

A Ford mostrou uma aplicação para facilitar o agendamento de serviços nas concessionárias. Já a Arcos Dorados, maior franqueadora do McDonald’s no mundo, destacou o uso da tecnologia em sua estratégia de marketing.

Os exemplos indicam que a IA começa a ser incorporada a tarefas do dia a dia. O desafio é ampliar essas aplicações preservando a qualidade das informações, a segurança das operações e a experiência dos clientes.

O que a IA já está fazendo nas empresas
AgibankAgentes no WhatsApp respondem dúvidas, consultam informações e conduzem etapas do atendimento.
GloboAgente inspirado em Bial amplia as possibilidades de interação dos assinantes com os conteúdos.
FordAplicação de IA ajuda clientes a agendar serviços nas concessionárias.
Arcos DoradosInteligência artificial incorporada à estratégia de marketing.

O discernimento ainda é humano

O Dreamforce também colocou em pauta uma questão que vai além da eficiência nas empresas: o que continua dependendo das pessoas em um mundo cada vez mais automatizado?

Em uma programação promovida pela revista TIME, que pertence a Marc e Lynne Benioff como investimento familiar e mantém independência editorial em relação à Salesforce —, Matthew McConaughey, Reese Witherspoon, will.i.am e Sterling K. Brown discutiram criatividade, cultura, negócios e os limites da tecnologia.

Ao abordar o uso da inteligência artificial, McConaughey defendeu que as respostas produzidas por essas ferramentas sejam examinadas com atenção. “Não se esqueça de questionar a resposta que a IA deu”, afirmou.

O conselho ganha relevância à medida que os sistemas deixam de apenas sugerir respostas e passam a executar tarefas. Quanto maior sua autonomia, mais importantes se tornam a supervisão humana, a verificação dos resultados e a definição de responsabilidades.

Na Dreamforce, a Salesforce celebrou os 20 anos da comunidade Trailblazer

Uma comunidade de 23 milhões de pessoas

Por fim, a transformação tecnológica também depende de profissionais capazes de colocar as novas ferramentas em funcionamento.

No Dreamforce, a Salesforce celebrou os 20 anos da comunidade Trailblazer, formada por desenvolvedores, administradores de sistemas, arquitetos de soluções e outros especialistas que trabalham com suas tecnologias.

Segundo a companhia, a comunidade reúne 23 milhões de pessoas em 90 países. Ao longo de sua trajetória, seus integrantes desenvolveram 12 milhões de aplicativos na plataforma, de acordo com a Salesforce.

Durante o evento, Steve Molis recebeu o Golden Hoodie, reconhecimento concedido a integrantes que se destacam por suas contribuições à comunidade.

A dimensão dessa rede mostra que a transformação impulsionada pela IA não depende apenas dos avanços dos modelos. Também exige profissionais capazes de adaptar processos, integrar sistemas, organizar dados e definir como os agentes devem atuar.

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