De apartamento 3D a luvas nas obras, as ações da Loft contra o coronavírus

Além da startup, outras empresas do setor imobiliário vêm implementando adaptações. Segmento é um dos que mais podem ser impactados pela pandemia

Obras, decoração, reforma, visita a apartamentos. Como manter tudo isso em tempos de coronavírus? Para reformular sua operação de reforma e venda de apartamentos durante a crise em São Paulo, a startup do setor imobiliário Loft está fazendo uma série de adaptações no negócio.

Dentre a série de segmentos afetados pela pandemia global que já infectou mais de 190.000 pessoas, o setor imobiliário está entre um dos muitos alvos inevitáveis. “Temos um componente offline muito grande, que são as obras, as visitas a apartamentos”, diz o co-fundador e presidente da Loft, Florian Hagenbuch.

Para além dos mais de 500 funcionários, a companhia lida ao todo com uma cadeia de cerca de 12.000 trabalhadores diretos e indiretos, de pedreiros e decoradores a corretores imobiliários parceiros. São mais de 500 prédios onde a Loft opera no momento e que precisaram passar por mudanças na rotina.

Embora as obras de reformas não tenham parado, Hagenbuch e sua equipe vêm se inspirando em países do exterior para estabelecer medidas de segurança. Os trabalhadores agora só podem estar na obra com máscaras e luvas, a uma distância de 1 metro uns dos outros e com higienização frequente usando álcool em gel, oferecido no local.

Para os corretores parceiros, o tradicional aperto de mão com os clientes foi proibido — um aperto de mão pode conter de dez a 15 vezes mais bactérias do que um toque rápido como o high five, diz Hagenbuch. As visitas aos apartamentos estão mantidas por enquanto, mas os corretores receberam um manual de boas práticas para uma operação segura, como evitar elevadores cheios e transporte público.

Para reduzir o número de visitas presenciais, os corretores podem usar uma ferramenta de tour virtual, oferecida pela Loft, em que é possível fazer uma visita completa no apartamento à distância. A empresa oferece fotos em 3D para compradores interessados.

A Loft tem mais de 300 apartamentos à venda no momento, boa parte deles em bairros de alto padrão e custando acima de 1 milhão de reais. A empresa está em 37 bairros, após ter aumentado sua presença territorial nos últimos meses.

Além de São Paulo, a Loft chegou neste ano à cidade de Belo Horizonte, e tem ainda um escritório em São José dos Campos, no interior de São Paulo (mas não vende imóveis na cidade por ora). O rápido crescimento após a fundação, em 2018, fez a Loft entrar em dezembro passado para o seletro grupo de unicórnios brasileiros, empresas com valor de mercado acima de 1 bilhão de dólares.

Da lista de ações contra a pandemia de coronavírus, foram ainda disponibilizados a moradores dos 500 prédios onde a Rappi atua centenas de cupons de frete grátis na plataforma de entrega Rappi. A ideia é que moradores possam comprar itens de farmácia e supermercado sem sair de casa. A ação começou na segunda-feira, 16, e vai até 29 de março.

“Estamos muito preocupados com nossos vizinhos nos prédios onde atuamos. No geral, são bairros com grande número de idosos”, diz o presidente da Loft.

João Vianna, Mate Pencz e Florian Hagenbuch, fundadores da Loft: empresa distribuiu cupons do Rappi para moradores dos prédios em que atua

João Vianna, Mate Pencz e Florian Hagenbuch, fundadores da Loft: empresa distribuiu cupons do Rappi para moradores dos prédios em que atua (Loft/Divulgação)

Comitê de crise

Hagenbuch puxa a fila de um movimento de empresários, sobretudo de startups de tecnologia, que vêm elaborando uma série de práticas para lidar com o coronavírus e tentar evitar a disseminação intensa da doença. Em seu perfil no Linkedin, o empreendedor faz diversas postagens por dia alertando para os riscos da pandemia.

Um grupo de mais de 400 empresários, entre eles Hagenbuch, também assinou uma carta aberta batizada de “Compromisso pelo combate à propagação do vírus Covid-19 no Brasil”, inspirada no movimento #StopTheSpread dos Estados Unidos (pare a disseminação, em inglês). “O que fizemos agora vai mostrar se vamos ser a Coreia do Sul ou a Itália. É nossa responsabilidade como empresário tentar minimizar a questão sanitária de alguma forma”, diz Hagenbuch, que é alemão.

No mundo, há mais de 197.000 casos confirmados de coronavírus, mais de 55% deles fora da China — o que levou a Organização Mundial da Saúde a classificar a doença como uma pandemia global. O Brasil tinha até a noite desta terça-feira, 17, 291 casos confirmados e mais de 8.000 suspeitos, o que gera projeções de uma potencial subnotificação, com mais casos do que os confirmados pelo Ministério da Saúde. O país também registrou na terça-feira a primeira morte pelo novo coronavírus, em São Paulo.

Na Loft, Hagenbuch criou um comitê de crise que se reúne duas vezes por dia (remotamente, é claro) e atualiza o cenário do coronavírus e medidas empresariais em um documento aberto, que disponibilizou em suas redes sociais. No documento, há desde as medidas tomadas pela própria Loft até dicas para outros empreendedores, como ferramentas para reunião e organização online ou medidas para proteger o negócio em tempos de crise.

“Eu falo todos os dias com contatos da China sobre como foi lá. E tirando setores como as empresas de colaboração e de vídeo, como Zoom ou Trello, tem poucas que saíram ilesas”, diz o fundador da Loft. Por outro lado, o empreendedor acredita que o caso pode ser uma oportunidade para que diversos setores da economia, dentro de suas especificidades, se digitalizem e se preparem para novas crises no futuro.

Sobre possivelmente interromper as operações físicas nas obras e apartamentos, Hagenbuch diz que uma paralisação pode impactar drasticamente os trabalhadores indiretos. “É uma cadeia de milhares de pessoas que depende da Loft, então a decisão é muito mais complexa. Nós levamos isso muito a sério e estamos reavaliando o tempo todo para tomar novas medidas se necessário”, diz Hagenbuch.

Os obstáculos do mercado imobiliário

A Loft acompanha os desafios que serão vividos no setor imobiliário durante as semanas — ou meses — de tensões pelo coronavírus. No Brasil, são mais de 389.000 corretores de imóveis e mais de 48.000 imobiliárias, segundo dados de 2019 do Conselho Regional de Corretores de Imóveis (Creci). Boa parte destes profissionais são autônomos ou ganham por comissão, dependendo das novas vendas ou locações para gerar renda.

A construção e os profissionais envolvidos nas obras também serão afetados. Associações do setor como a Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias (Abrainc) ou a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) ainda não divulgaram projeções do impacto do vírus no segmento. Mas uma eventual paralisação das cidades em meio ao coronavírus e as quarentenas que já começam a ser realizadas em cidades muito afetadas, como São Paulo, tendem a reduzir drasticamente as movimentações no setor, prejudicando empresas e trabalhadores.

Assim como a Loft, a concorrente Vitacon lançou mão de um tour virtual para que compradores visitem os empreendimentos. A empresa informou por meio de sua assessoria de imprensa que cancelou novos lançamentos previstos para março, fechou os estandes de vendas e colocou seus corretores apenas em plantão online. Todos os trabalhadores estão em regime de home office, incluindo os corretores associados à incorporadora.

A Homer, startup que atua na intermediação entre corretores parceiros e clientes interessados, também criou um manual de dicas para os corretores. São mais de 40.000 corretores cadastrados na plataforma (e que não são funcionários diretos da Homer, atuando somente como parceiros). A presidente Lívia Rigueiral fez uma transmissão ao vivo para os profissionais nesta semana, e novos webinars devem ser agendados ao longo do mês. Um evento da empresa também precisou ser cancelado em virtude do vírus.

Obra: construção civil e mercado imobiliário estão entre os inevitáveis alvos do coronavírus

Obra: construção civil e mercado imobiliário estão entre os inevitáveis alvos do coronavírus (Elza Fiúza/Agência Brasil)

Em São Paulo, principal área de atuação da Loft e maior mercado imobiliário do país, o impacto do coronavírus ainda não chegou em janeiro, quando a pandemia ainda estava restrita à China. Naquele mês, foram comercializadas 2.315 novas unidades residenciais, alta de quase 43% em relação a janeiro de 2019, segundo o Secovi, sindicato de habitação de São Paulo.

Antes do coronavírus, o ano de 2020 era para ser de ouro para o setor, em meio a um período de juros baixos no Brasil — em 2019, só em São Paulo, foram mais de 44.700 unidades comercializadas, número recorde e alta de 49,5% em relação a 2018. A previsão para 2020 no Brasil inteiro era conseguir vender 1 milhão de imóveis, segundo o presidente da Abrainc e dono da MRV, Rubens Menin, disse no ano passado.

Na China, país onde o coronavírus começou e onde há mais de 81.000 casos confirmados, as vendas de imóveis residenciais caíram quase 35% nos primeiros dois meses do ano, segundo dados da economia divulgados pelo governo chinês nesta semana.

É com base nesta perspectiva pessimista que as ações de grandes incorporadoras brasileiras vêm despencando na bolsa. Papéis como os da construtora Tecnisa caíram 55% neste ano, assim como os da MRV (42%), da Tenda (31%), da Gafisa (62%) e da Trisul (46%). Os da recém-chegada Mitre caíram 46% desde a oferta inicial de ações (IPO) em fevereiro. O Ibovespa, maior índice da bolsa brasileira, caiu 37% no período. Ao menos cinco empresas que fariam abertura de capital nos próximos meses devem adiar o IPO.

A Loft ainda não divulga projeções de o quanto suas vendas ou visitas podem ser impactadas pelo coronavírus. Mas prevê que serão tempos conturbados até que a pandemia passe. “Será um desafio para a Loft, assim como será para a economia inteira”, diz Hagenbuch. “No curto prazo será dolorido para todo mundo.”

*A matéria foi atualizada para incluir ações da startup para corretores Homer. 

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