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Crise ameaça ascensão do empreendedor negro

Quatro em cada dez pretos e pardos dirigem algum negócio, mas as empresas deles têm menos fôlego financeiro para atravessar a quarentena

A crise do coronavírus atinge em cheio os empreendedores, mas se mostra particularmente desafiadora para pequenos empresários negros. Nos últimos anos, o empreendedorismo se tornou uma das principais alternativas econômicas da população negra — historicamente negligenciada no mercado de trabalho formal — por necessidade ou como forma de ascensão social. A paralisação de atividades econômicas pegou de surpresa esses empresários. A maioria ainda dava os primeiros passos com poucas reservas financeiras e acesso limitado ao crédito.

Na tentativa de salvar seus negócios, muitos buscam uma saída nas redes sociais, que acabaram mais abertas a ações antirracistas com o movimento global desencadeado pelo assassinato do cidadão negro George Floyd por um policial branco nos EUA.

No primeiro trimestre deste ano, o Brasil contava 36,8 milhões de trabalhadores informais. Desse total, 61,5% são pretos ou pardos: 22,6 milhões de mulheres e homens que sustentam suas famílias sem carteira assinada, boa parte deles trabalhando por conta própria sem qualquer registro.

O empreendedorismo tem sido o caminho para a formalização. Uma pesquisa realizada pelo Sebrae em 2018 mostrou que, a cada dez negros adultos, quatro dirigem algum tipo de negócio. Entre os brancos, essa proporção é mais próxima de três. No entanto, a maior parte dos negros ainda empreende por necessidade.

Abrir um negócio por oportunidade é o caso de 71,5% dos brancos e de 55,5% dos negros. Dos negros que dão este passo, quase 23% têm renda familiar acima de três salários mínimos. Entre os brancos, são 42,4%. Ainda segundo o Sebrae, 13,6% dos empreendedores brancos faturam mais de R$ 36 mil por ano, quase o dobro da proporção entre pretos e pardos: 7,7%.

Mais difícil para a mulher

À frente da Umbono Comunicação, uma agência de marketing digital, os empresários Igor Izidoro e Bruno Rico sentiram o baque da crise provocada pela pandemia. Mas, como trabalham muito com redes sociais, viram seu negócio começar a tomar fôlego com a procura de outros empreendedores negros, que não tinham presença digital até o início da pandemia.

— No início ficamos temerosos, até perdemos alguns clientes de estrutura pequena, mas outros maiores vieram na sequência, e conseguimos um crescimento de 30% — diz Izidoro.

Rico conta que muitas de suas clientes são mulheres negras à frente de pequenos negócios. Ele nota que elas enfrentam ainda mais dificuldades que os homens:

— É tudo muito mais difícil para elas. A maior dificuldade desse público é a falta de estrutura. Muitas são mães, e, com as escolas fechadas, as crianças tiveram que ficar em casa. Isso afetou diretamente a produção delas.

Compensar a queda nas receitas com crédito é outro desafio para os empreendedores negros. Uma pesquisa encomendada pela PretaHub, aceleradora do empreendedorismo negro no Brasil, no fim de 2019 mostrou que 32% já tiveram crédito negado sem explicação. Foi o que aconteceu com a empresária Jaciana Melquiades, fundadora da Era uma vez o Mundo, uma loja de bonecas negras em Copacabana, na Zona Sul do Rio.

— Já tentei com o nome sujo e sem, mas nunca tenho crédito aprovado. A própria necessidade de abrir minha conta (de pessoa) jurídica foi um desafio, porque demorou muito. Quando questionei, a gerente disse que estavam verificando se eu não ia usar a máquina de cartão para prostituição. Não sei se falariam isso para uma mulher branca — lamenta.

Com a loja fechada por causa da pandemia, Jaciana quase perdeu o negócio de vez. Um desabafo nas redes sociais gerou uma corrente de apoio, e as vendas a distância triplicaram. Ela ganhou fôlego:

— Estava com algumas contas atrasadas e, de repente, vendemos 150 bonecas

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