É possível transportar e armazenar a vacina da Pfizer no Brasil?

Em meio ao impasse da aprovação de uma vacina contra a covid-19 , empresas especializadas contam mais sobre a rotina dessa logística

Hoje, no mundo, não há um tópico em torno do qual exista tanta expectativa quanto a chegada de uma vacina contra a covid-19. Em meio ao cansaço, ao medo e à falta de contato social que a pandemia trouxe, a aprovação de uma cura contra a doença parece ser a alternativa ideal para apagar todos os males de 2020. Em meio às discussões sobre qual será a vacina escolhida – e quando sua aprovação virá – pouco se fala a respeito de um tópico: afinal, como ela vai chegar a todos os brasileiros?

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Algumas pistas para essa resposta já foram dadas. Nas palavras de Dimas Covas, diretor do Instituto Butantan, não se trata de uma logística habitual de vacinação. “Ela precisa ser muito rápida, muito eficiente, tem de ser feito um planejamento eficaz para garantir que a busca pela vacina não gere aglomerações e, assim, contaminação”, afirmou, em um programa de TV nesta segunda-feira (7).

Para entender o que isso quer dizer na prática, é necessário começar – é claro – pelo início: vacinas exigem refrigeração para não perderem seu efeito. A maior parte das que são transportadas utiliza como parâmetro a temperatura de 2°C a 8°C, segundo companhias especializadas no setor.

Não há uma data correta para quando isso foi estipulado, mas trata-se de um entendimento contínuo de que seria uma faixa de temperatura ideal para esse transporte, de acordo com Rene Najera, doutor em saúde pública pela Universidade Johns Hopkins e editor do site History of Vaccines, mantido pela Universidade da Filadélfia.

Contudo, estabelecer essa faixa de temperatura não significa que falte tecnologia (ou conhecimento) para levar de um lugar a outro itens que demandam temperaturas mais baixas do que isso. Hoje, itens com até -196°C são levados pelo país (como vacinas para aves, por exemplo; ainda que numa escala bem menor do que a exigida para a nova vacina da covid-19).

Mas, não é só isso. Segundo companhias especializadas logística para a cadeia do frio (nicho especializado no controle de temperatura ocorre desde a saída da fábrica e chegando até o destino final), a maior parte dos materiais transportados em temperaturas tão baixas atualmente está relacionada a componentes médicos específicos, geralmente, relacionados a materiais biológicos – como produtos para oncologia, por exemplo.

Ou seja, não se trata de algo novo. Para garantir que o material transportado chegue ao seu destino na temperatura correta, as companhias investem pesado em tecnologia. Sensores são acoplados à caixa onde vacinas são transportadas, aos caminhões que as levam e até mesmo aos navios e aviões para monitorar de forma contínua o estado da carga.

Isso pode ser feito com equipamentos do tamanho de antigos celulares (chamados dataloggers) que fornecem dados completos do monitoramento realizado – e podem ser programados para que, caso a temperatura da carga chegue a 3°C, um alarme seja disparado e o responsável por conduzir a carga possa consertar o problema.

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O início de todo o processo

Antes mesmo de a carga sair para o trajeto, uma rota cuidadosa é elaborada, com prevenção a todo tipo de riscos e imprevistos. A Maersk, uma das maiores empresas de logística integrada do mundo, afirma que esse é um dos pilares essenciais para garantir a segurança do item transportado. Recentemente, a companhia foi escolhida para transportar a vacina Covaxx – ainda sem previsão concreta de chegada ao Brasil – e já começou a fazer testes de stress para garantir que seu transporte será eficaz.

Para isso, a companhia insere líquidos cujas propriedades se assemelhem ao comportamento de uma vacina, mantém esse material em caixas refrigeradas e monitora sua temperatura ao longo dos trajetos que terão de ser realizados em breve. Dessa forma, é possível que a companhia se prepare de forma ainda mais precisa, sem desperdiçar componentes médicos tão importantes – e escassos.

Robin Townley, diretor de projetos especiais de Logística na Maersk, ressalta que se trata de uma operação complexa, principalmente pelo volume que terá de ser transportado em um curto espaço de tempo. Além disso, a colaboração entre diferentes agentes da esfera pública e privada terá de caminhar numa velocidade sem precedentes para que seja possível obter o melhor resultado possível.

 “É necessária a colaboração estreita entre quatro agentes: os responsáveis por produzir as vacinas, as autoridades públicas, as empresas de logística e agências internacionais. Há que se fazer um plano muito bem estruturado para que não existam falhas nesse processo e cargas não sejam perdidas. Além disso, é necessário avaliar como o esforço logístico da vacina vai afetar economicamente o transporte de outras cargas que também teriam de ser refrigeradas”, diz, em entrevista à EXAME.

A companhia tem vasta experiência com esse tipo de transporte, e, inclusive, participou da entrega de vacinas em Moçambique no ano passado, após a passagem do ciclone Idai.

“Tivemos que construir cadeias de frio independentes de qualquer infraestrutura e tivemos que fazer isso muito rápido para combater os surtos de doenças que vieram após o ciclone. Temos muita experiência com isso. Para a vacina contra a covid-19, não acreditamos que alguma tecnologia nova que terá de ser inventada, mas há outros desafios implícitos, como o planejamento para que a vacina realmente chegue até as pessoas. Aqui, acho que está um dos maiores gargalos até o momento”, afirma Townley.

No caso da vacina para a covid-19, o executivo ainda alerta para o fato de que que uma série de produtos é transportada pela logística de cadeia do frio – como alimentos, por exemplo – e que direcionar todos os esforços existentes no mundo todo para o transporte da vacina pode gerar falta desses suprimentos em diferentes países.

Na prática, o que isso quer dizer? Segundo Townley, se não houver planejamento, produtos que são exportados e que exigem refrigeração deixarão de embarcar. Para evitar esse tipo de consequência, o executivo alerta para a necessidade de conhecimento a respeito do setor.

Do mar para a terra

Saindo do transporte internacional para pensar como a vacina pode ser distribuída pela extensão do Brasil, é necessário encontrar empresas que já fizeram esse tipo de transporte antes. Alguns dos nomes envolvidos nesse tipo de trabalho são: Kodex Express, Via Expressa, Atento Express, Biotecno, Termofischer Scientific e Andreani Logística.

No país, hoje, as normas para conservação de vacinas estão descritas na parte de “cadeia do frio” dentro do Plano Nacional de Imunização. Desde o ano passado, com a resolução da norma 430 pela Anvisa, foi oficializado que as companhias têm de rastrear de forma detalhada a carga que transportam e acompanhar suas variações de temperatura de forma precisa.

A reportagem conseguiu contato com três dessas empresas e obteve, delas, conceitos bastante similares: conhecimento para o transporte no Brasil existe (não é necessariamente barato, mas funciona); tecnologia é a chave para garantir a precisão exata no transporte de cargas tão delicadas; e estão todos à espera da aprovação de vacinas para traçar novas estratégias e planos.

O setor, aparentemente, não sofreu com a pandemia. Ao contrário: as três empresas relataram que tiveram bons resultados em meio ao caos gerado e que muito disso se deve, juntamente, ao fato de que a área da saúde não parou de trabalhar neste ano. Sem abrir detalhes financeiros, as companhias contam como realizam esse trabalho no dia a dia – e o que esperam encontrar pela frente.

“Nosso trabalho envolve um processo extremamente detalhado. Temos de certificar os caminhões que fazem o transporte, fazer contas sobre quantas vacinas são transportadas e em quanto tempo devem chegar. Quando falamos de acesso da vacina a lugares remotos, às vezes é necessário fracionar a carga para que chegue ao seu destino na temperatura correta. No caso da vacina contra a covid-19, isso terá de ser feito de forma exemplar”, afirma Leila Almeida, líder do Comitê de Logística Farmacêutica na Associação Brasileira de Logística (Abralog) e gerente na Andreani Logística.

Ela explica que o plano traçado tem de prever todo o tipo de incidentes -- desde a manutenção preventiva de caminhões até possíveis paradas ao longo do caminho em locais que tenham tomadas onde possa ser possível restabelecer a temperatura da parte refrigerada.

E, com uma carga tão desejada e cuja precisão da temperatura afeta milhões de pessoas, o desafio se multiplica. Contudo, não se trata de algo que as companhias nunca fizeram antes – e sim, numa escala em que nunca fizeram. Mesmo no caso de transporte de uma vacina que exija temperaturas extremamente baixas (como a da Pfizer, em fase de negociações com o governo brasileiro), não se trata de algo sem precedentes.

“Conhecimento para isso existe, faz tempo. Desde 1999 trabalho nesse setor e já fazíamos transporte de itens que precisavam ficar refrigerados a temperaturas baixíssimas. O desafio será entender as melhores rotas a serem traçadas, mas com certeza é um investimento que valerá a pena. Olhe quantas pessoas estão internadas hoje, quantas pessoas estão gravamente afetadas por essa doença. É algo que terá de ser resolvido logo”, explica Lisa Palla Tavolaro, gerente sênior de contas ThermoFischer Scientific, empresa especializada no transporte de materiais em fase de estudo clínico.

Para entender por que a escala é um desafio, mesmo com tanta experiência, é necessário lembrar de um componente: sazonalidade. Hoje, de acordo com Leila Almeida, da Abralog, as vacinas têm um calendário estabelecido durante o ano todo para a sua produção e distribuição, com a qual os operadores logísticos já estão acostumados. Mudar toda essa ordem exige que as empresas explorem toda a sua capacidade no transporte da vacina contra a covid-19.

As companhias afirmam que o uso de gelo seco será essencial para o armazenamento das vacinas. Estudos para verificar quanto tempo essa componente dura em transporte terrestre e aéreo terão de ser conduzidos – e novas iniciativas para aumentar a quantidade de itens transportados também. De acordo com a Abralog, os ultrafreezers são os equipamentos mais populares para realizar esse armazenamento, porém, carregam uma quantidade limitada a cada viagem (cerca de 10 mil doses).

Ainda assim, as empresas veem com bons olhos a chegada dessa grande quantidade de trabalho. Roberto Olivares, diretor comercial da Biotecno, empresa especializada em refrigeração médica e científica, ressalta que diferentes investimentos devem ser realizados para garantir o pleno funcionamento da cadeia de distribuição.

“Estamos há vinte anos nesse mercado e, além do Brasil, estamos presentes em outras empresas da América Latina e pretendemos expandir para o Oriente Médio em breve, também. Certamente, estamos preparados para qualquer adversidade que possa surgir no meio do caminho. Hoje, nossas câmaras frias podem aguentar até mesmo queda de energia superior a 72 horas. Temos um grande desafio pela frente, mas temos a certeza de que valerá a pena”, finaliza Olivares.

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