Em crise, Netshoes se desfaz de operações na Argentina

Venda dos ativos já era esperada por investidores, com a Netshoes reportando prejuízos e já tendo se desfeito das operações no México no ano passado

Em um movimento já esperado pelo mercado, a loja online de artigos esportivos Netshoes anunciou a venda de sua operação na Argentina para o grupo de investimentos argentino BT8. O comunicado foi feito à SEC (Securities and Exchange Commission), agência reguladora do mercado de capitais dos Estados Unidos, país onde a Netshoes tem capital aberto. A companhia não informou o valor da operação ou detalhes sobre o grupo comprador.

No comunicado, a Netshoes afirma que “o desinvestimento da companhia de suas operações na Argentina está em linha com a estratégia de focar nas operações centrais no Brasil”. A empresa já havia vendido, em agosto do ano passado, sua operação no México para o grupo norte-americano Sierra Capital, um fundo privado com investimentos na América Latina.

A venda parece ter agradado aos investidores. Às 14h17, horas após o anúncio, a ação da Netshoes subia 3,92%, para 2,65 dólares. A empresa, que abriu capital nos Estados Unidos em abril de 2017, tem valor de mercado de cerca de 81 milhões de reais.

Quando abriu capital nos Estados Unidos, a lógica da Netshoes era buscar investidores mais acostumados às agruras do varejo online, e dispostos a apostar no Brasil. Mas ninguém esperava tanta agrura. De lá para cá, a crise econômica no Brasil se acentuou, prejudicando o consumo, e a Netshoes emendou uma sucessão de barbeiragens.

A empresa parou de crescer e não conseguiu reduzir os prejuízos. Foi forçada ainda a desembarcar de mercados anteriormente apresentados como relevantes para o futuro, como os próprios México e Argentina – ainda que o investimento para ingressar nesses mercados, além de outros que conhecia pouco, como o setor de suplementos, tenha sido considerado um erro por alguns analistas.

E mesmo dentro do Brasil a situação não anda fácil. Com uma operação puramente online, a Netshoes opera no negativo há anos. Neste cenário, desde o IPO, as ações caíram nada menos que 689%, indo de 14,67 dólares no primeiro dia no mercado em 2017 para 2,13 dólares após o último fechamento da bolsa de Nova York, na terça-feira.

A solução pode vir de um comprador. A informação é de que concorrentes como a rede de varejo Magazine Luiza e a companhia de comércio eletrônico B2W, dona da Americanas.com e do Submarino, estariam avaliando, cada uma, a aquisição da Netshoes. As empresas têm como vantagem o fato de a Netshoes, valendo menos de 20 milhões de dólares, ainda é relativamente barata.

Há espaço para crescer no mercado de artigos esportivos brasileiro, que faturou 33,2 bilhões de reais no ano passado, com crescimento acima do varejo físico em geral. Mas um dos problemas é que o segmento ainda é muito pulverizado: a Centauro, maior do setor (e que captou 772 milhões de reais com seu IPO no início de abril), domina apenas 5,4% do mercado, enquanto a Netshoes tem 4,6%.

Além disso, as varejistas tradicionais vêm buscando integrar varejo físico e online e atacar mercados com grande potencial na internet, algo em que a Netshoes, se vendida, poderia ajudar. A aquisição também pode dar à possível compradora presença maior no mercado de moda, no qual a Netshoes participa com seu braço no setor, a Zattini – seguindo o caminho da varejista Amazon, que vem expandindo no setor de moda, e da brasileira Dafiti.

A Netshoes é a companhia mais relevante no mercado online de produtos esportivos, enquanto a Centauro ainda tem grande foco nas lojas físicas. Para tentar solucionar a crise, nos últimos trimestres, a companhia se dedicou a arrumar a casa para se concentrar em seu negócio de origem, de artigos esportivos, e no braço de moda representado pela Zattini.

Mas os problemas ainda são grandes: no terceiro trimestre de 2018 (o último com resultados divulgados), o prejuízo da Netshoes praticamente triplicou. O faturamento da empresa encolheu 3,2% no trimestre em relação ao terceiro trimestre de 2017, fechando em 417,8 milhões de reais na ocasião. Isso tudo apesar do crescimento de 18,2% no número de clientes (no período de 12 meses encerrado em setembro do ano passado).

Quando o presidente da Netshoes, Marcio Kumruian, tocou a campainha da Bolsa de Valores de Nova York em 2017, concretizou um plano de pelo menos cinco anos da empresa que ajudou a fundar em 2000 e cresceu de uma sapataria em São Paulo a uma das estrelas brasileiras. Mas a história da varejista foi de conto de fadas a pesadelo, e nunca concretizou o potencial esperado. O que restou da Netshoes guarda um potencial razoável, mas também um caminhão de problemas quase tão grande quanto o número de vendas na internet.

Obrigado por ler a EXAME! Que tal se tornar assinante?


Tenha acesso ilimitado ao melhor conteúdo de seu dia. Em poucos minutos, você cria sua conta e continua lendo esta matéria. Vamos lá?


Falta pouco para você liberar seu acesso.

exame digital

R$ 15,90/mês

  • Acesse onde e quando quiser.

  • Acesso ilimitado a conteúdos exclusivos sobre macroeconomia, mercados, carreira, empreendedorismo, tecnologia e finanças.
Assine

exame digital + impressa

R$ 44,90/mês

  • Acesse onde e quando quiser

  • Acesso ilimitado a conteúdos exclusivos sobre macroeconomia, mercados, carreira, empreendedorismo, tecnologia e finanças.

  • Edição impressa quinzenal.

  • Frete grátis
Assine

Já é assinante? Entre aqui.