Sergio Martins Barbosa, presidente executivo da RAR Agro & Indústria: "A gente escala a empresa dentro do nosso segmento, que é o premium. A gente não vai para o lado do 'bastantão', porque aí a disputa é muito grande e exige muito investimento" (RAR/Divulgação)
Repórter de Negócios
Publicado em 14 de abril de 2026 às 08h03.
Em meados dos anos 1990, Raul Anselmo Randon — o empresário que construiu uma das maiores fabricantes de semirreboques da América Latina — voou para Ohio, nos Estados Unidos, comprou 140 vacas prenhas e as mandou de avião para o Brasil.
O objetivo: fazer queijo tipo grana, um queijo de pasta dura com maturação longa inspirado no italiano grana padano, num país onde praticamente ninguém conhecia o produto.
A operação foi um ponto de virada da RAR Agro & Indústria, empresa agrícola da família Randon com sede em Vacaria, no norte gaúcho, a cerca de 120 quilômetros de Caxias do Sul.
Hoje, além do queijo, a empresa produz maçãs, vinhos, espumantes, azeite e embutidos, e faturou 550 milhões de reais em 2025.
A RAR está em um momento de reorganização. A empresa está reestruturando a diretoria de suas unidades de negócio e tem uma meta clara: chegar a 1 bilhão de reais em receita até 2034.
"Alcançamos avanços importantes nos últimos anos e, para sustentar esse ritmo e seguir em direção à nossa visão de 1 bilhão de reais, entendemos que este é o momento de fortalecer a governança e ampliar a capacidade de gestão do negócio", diz Sergio Martins Barbosa, presidente executivo da RAR Agro & Indústria.
A mudança inclui a promoção de executivos formados dentro da própria empresa, como Jiovani Foiatto, que assume a diretoria da unidade de gastronomia, e Raquel Manfredi Pandolfo, que passa a liderar a diretoria executiva.
Mais do que uma troca de cargos, é uma tentativa de preparar a operação para uma escala maior, sem perder o controle sobre a qualidade.
O desafio de dobrar o faturamento em menos de uma década passa por uma expansão de distribuição em mercados onde a empresa ainda não chegou — sem comprometer o abastecimento dos canais já consolidados.
Num ambiente de juros altos e consumo pressionado, crescer no segmento premium exige mais do que produto diferenciado.
A história da RAR começa antes das vacas importadas.
"Naquela época, praticamente 97% do consumo vinha de fora", diz Barbosa sobre o mercado de maçãs nos anos 1970.
Os primeiros 70 hectares foram em Vacaria, cidade que ele já conhecia bem.
O começo foi duro: no primeiro ano de colheita, vieram granizo e seca. Ainda assim, a produção cobriu os custos — o suficiente para convencer o fundador a seguir.
O plantio cresceu. Hoje são cerca de 1.500 hectares, e a maçã continua sendo o principal negócio da companhia, responsável por quase metade da receita. Mas o que diferencia a RAR veio depois.
A virada do negócio, porém, foi o queijo.
Em meados dos anos 1990, Raul Randon aprendeu com um amigo italiano sobre as particularidades do grana padano.
Quis reproduzir o produto no Brasil. O problema era a matéria-prima: fazer queijo tipo grana exige leite cru de alta qualidade, um padrão que praticamente não existia no país.
A solução foi radical.
Raul voou para Ohio, comprou 140 vacas holandesas prenhas e as trouxe ao Brasil em dois aviões cargueiros. A partir desse plantel inicial, a RAR construiu o maior rebanho leiteiro do Rio Grande do Sul.
"A ideia não era fazer mais um queijo. Era fazer um queijo premium, um tipo grana", diz Barbosa. "Hoje, são cerca de 50 mil litros de leite por dia, e 100% disso vai para o nosso queijo", afirma.

A diversificação continuou. Em 2002, Raul Randon encontrou outra "boa desculpa" — as bodas de ouro do seu casamento — para começar a produzir vinhos.
O que era para ser uma comemoração familiar virou linha comercial. Hoje, a RAR trabalha com 36 rótulos entre vinhos e espumantes, entre produção própria e importados da Itália e da Argentina.
Depois vieram os embutidos e o azeite. Nem todos os movimentos deram certo — como a tentativa de produção própria de oliva em escala maior —, mas a lógica se manteve: construir um portfólio coerente, ancorado em qualidade e voltado para o segmento premium.
Essa estratégia impõe uma escolha clara: não competir por volume.
"A gente escala a empresa dentro do nosso segmento, que é o premium. A gente não vai para o lado do 'bastantão', porque aí a disputa é muito grande e exige muito investimento", diz Barbosa.
Na prática, crescer no premium significa avançar devagar — e de forma estruturada.
A RAR exporta maçãs para mais de 15 países e mantém presença em mercados da Europa e da Ásia. No mercado interno, a expansão passa por abrir novos pontos de distribuição sem comprometer o abastecimento dos canais existentes.
"Tem pontos no Brasil onde a gente ainda não chegou. Então a gente vai abrindo mercado com estrutura. Não adianta chegar hoje e não conseguir abastecer amanhã", afirma Barbosa.
A empresa também aposta em lojas próprias e franquias. A rede Spaccio RAR Gastronomia tem unidades em Gramado, Curitiba, São José dos Campos, Florianópolis e Vacaria, e a meta é chegar a entre 20 e 50 lojas pelo país.
O ambiente econômico complica essa equação. Juros altos e inadimplência crescente afetam o consumo, inclusive no segmento premium.
"A gente sentiu, claro. Seria mentira dizer que não. Mas, com canais bem estruturados e produto diferenciado, a gente consegue atravessar esses momentos", diz Barbosa.
Chegar a 1 bilhão de reais até 2034 exige paciência que poucos negócios demandam. "No queijo, por exemplo, estamos falando de até 24 meses entre produção e venda. Na maçã, leva anos para o pomar atingir o potencial. Então tudo é planejado com muita antecedência", diz Barbosa.
A empresa já investiu em infraestrutura — 84 câmaras frias com capacidade para 50 mil toneladas de maçãs, além de equipamentos para a produção de queijo — para suportar o crescimento. O foco agora está em executar.
Das 140 vacas que cruzaram o Atlântico em dois Boeings, a RAR construiu o maior rebanho leiteiro do Rio Grande do Sul e o único queijo tipo grana produzido fora da Itália. A próxima travessia é chegar ao bilhão.