Coca-Cola financia pesquisas que dizem que comer mal é OK

De acordo com o New York Times, a empresa está patrocinando pesquisas científicas que absolvem o papel da má alimentação na obesidade


	Latas de Coca-Cola: a empresa é criticada por financiar pesquisas que dizem que a culpa pela obesidade não é da má alimentação
 (Reuters/ Dylan Martinez)

Latas de Coca-Cola: a empresa é criticada por financiar pesquisas que dizem que a culpa pela obesidade não é da má alimentação (Reuters/ Dylan Martinez)

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Da Redação

Publicado em 19 de agosto de 2015 às 15h46.

São Paulo - A Coca-Cola quer fazer você acreditar que basta fazer exercícios para ser magro.

De acordo com o New York Times, a empresa está patrocinando pesquisas científicas que absolvem o papel da má alimentação na obesidade. Trata-se de uma "verdade" conveniente à gigante dos refrigerantes.

Como denunciou o jornal americano, a Coca-Cola está colocando dinheiro na mão de pesquisadores influentes por meio de uma organização sem fins lucrativos chamada Global Energy Balance Network (GEBN).

"O foco da mídia e das publicações científicas é que estamos comendo muito, comendo muito, culpando o fast food e as bebidas adoçadas. E realmente não há evidências definitivas de que isso seja a causa", disse o vice-presidente da GEBN, em vídeo de divulgação.

Segundo especialistas consultados pelo New York Times, a mensagem é enganosa, e só serve para mascarar, junto à opinião pública, o papel dos refrigerantes no aumento da obesidade e do diabetes tipo 2.

Hoje, há sólidas evidências de que exercícios físicos têm impacto bem mais sutil na redução do peso do que a dieta.

Mas isso não é bom para os negócios. Conclusões científicas sobre os males do açúcar e do sódio arranharam profundamente a imagem das bebidas açucaradas nas últimas duas décadas. Isso ajudou a derrubar as vendas de bebidas adoçadas em 25% nos EUA durante este período.

Além disso, a Coca-Cola está enfrentando um cerco cada vez maior a seus produtos: campanhas para aumentar a taxação de bebidas calóricas e retirá-las dos cardápios das escolas estão ganhando cada vez mais força nos estados americanos.

E a luta contra a obesidade é a principal bandeira de Michelle Obama como primeira-dama.

A GEBN diz ser uma organização privada independente, sem fins lucrativos. Segundo o New York Times, porém, as relações entre a ONG e a Coca-Cola são umbilicais.

O site da GEBN está registrado na sede da Coca-Cola, em Atlanta. A fabricante de refrigerantes também é listada como administradora do domínio.

Além disso, a Coca já investiu muita grana na "causa". Há registros de repasses diretos de US$ 4 milhões aos dois fundadores da GEBN, além de US$ 1,5 milhão para começar a organização.

Apesar de a ligação entre a Coca e a GEBN não ser nada discreta, as redes sociais da ONG escondem o patrocínio da gigante dos refris.

O site da GEBN também não fazia menção à Coca até que Yoni Freedhoff, especialista em obesidade da University of Ottawa, questionou o financiamento do projeto.

Este não é o primeiro exemplo de relação escusa entre instituições de pesquisa e a indústria. Nos Estados Unidos, setor de tabaco é famoso por financiar, desde os anos 1960, estudos que servem como cortina de fumaça para os males do cigarro.

A American Society for Nutrition também já foi alvo de críticas por desenvolver pesquisa em parceria com a Kraft, o McDonald's e outras marcas.

O grande problema é que parcerias entre a indústria e a academia são, quase sempre, fonte de meias verdades.

Um estudo publicado na PLOS Medicine descobriu que pesquisas financiadas pela indústria do açúcar têm chances cinco vezes maiores de não apontarem nenhuma ligação entre o ganho de peso e a ingestão de bebidas doces do que os estudos independentes.

Portanto, sempre que no rodapé de um estudo houver uma nota dizendo "*Financiado pela Coca-Cola Company", abra bem os olhos.

Atualização de EXAME.com (19/ago/2015): o título da matéria foi alterado para refletir melhor o conteúdo do texto.

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