Questões internas da China e dos EUA são motor da crise em Taiwan, diz especialista

Segundo a professora de relações internacionais da FAAP, Fernanda Magnotta, o risco de um conflito não é provável, embora seja possível
Fernanda Magnotta, professora da FAAP e senior fellow do Cebri (CEBRI/Exame)
Fernanda Magnotta, professora da FAAP e senior fellow do Cebri (CEBRI/Exame)
Carlo Cauti
Carlo Cauti

Publicado em 03/08/2022 às 18:39.

Última atualização em 03/08/2022 às 19:21.

No dia em que a presidente da Câmara dos Deputados dos Estados Unidos, Nancy Pelosi, deixou Taiwan, o governo local relatou uma incursão de 27 caças chineses na zona de defesa aérea da ilha.

Os caças que entraram no espaço aéreo de Taiwan foram são seis J-11, cinco J-16 e 16 Su-30.

Um sinal claro da irritação do governo da China, que reagiu de forma dura a visita de Pelosi à ilha, que considera uma "província rebelde".

Segundo a professora de Relações Internacionais da FAAP, Fernanda Magnotta, senior fellow do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), o conflito "não é provável, embora seja possível".

"As relações internacionais são feitas de sensibilidades e muitas vezes interpretações, erros de cálculo, podem culminar numa escalada indesejada de conflitos", explica a professora em entrevista à EXAME.

Segundo Magnotta, os Estados Unidos não têm interesse em mais uma instabilidade internacional. Isso porque existe uma grande dependência econômica entre os EUA e a China.

"Por isso, não parece ser o caso que um desses governos possa se beneficiar da criação de uma nova crise", disse Magnotta.

Confira os melhores trechos da entrevista com Fernanda Magnotta à EXAME

Essa crise foi provocada mais pelas tensões internacionais ou por questões de política interna dos EUA e da China?

Tanto os Estados Unidos quanto China passam por eleições esse ano. Portanto, todo esse movimento retórico tanto do lado americano quanto do lado chinês tem sim razões de "consumo doméstico". O presidente americano Joe Biden tem dificuldades domésticas, baixa popularidade, e não consegue lidar adequadamente com a inflação. Ele quer construir um legado, e o cenário internacional parece favorável a isso. No caso de Xi Jinping, a China enfrenta um período de transição. A eventual recondução de Xi pra mais um mandato no segundo semestre poderia levar o presidente a adotar um perfil mais agressivo em política externa. Mais nacionalista. E que trata essa questão da integridade territorial como uma pauta importante, vital para a China. São esses os cálculos de política doméstica que não podem ser isolados da conta. E é justamente o equilíbrio entre essas duas dimensões que foi em jogo em cada passo de Pelosi nessa visita.

É possível que um acidente, por exemplo, um caça chinês sendo abatido pela defesa de Taiwan, possa desencadear um conflito entre os dois países, envolvendo os EUA? Os chineses levariam um casus belli como esse até as extremas consequências, ou em Pequim há quem trabalhe para apaziguar esse cenário?

Existem forças tanto na China quanto nos Estados Unidos que têm tentado buscar um contraponto a essa escalada de tensões. O próprio presidente Biden chegou a desencorajar a viagem, o Pentágono alertou que implicava riscos de segurança desnecessários. Do lado chinês, existem grupos e interesses pro-business ou que tentam uma saída negociada, que buscam uma construção de pontes. Em suma, tem pessoas que estão tentando apaziguar, criar coesão internacional, pois para nenhum desses players o enfrentamento seria desejável. Isso acabaria com outras possibilidades de cooperação no mais longo prazo. Um acidente poderia eventualmente condicionar essa lógica. E nesse caso, cada movimento de resposta precisaria ser calculado bastante especificamente para determinar o rumo, a trajetória e o escopo dessas eventuais ações. Mas no momento não temos nada concreto que sustente esse cenário.

Quanto essa crise afeta o crescimento da China, e por consequência do Brasil também?

Do ponto de vista da economia internacional, essa é uma péssima notícia. Mais uma fonte de instabilidade que afeta os mercados, a competitividade dos países e tem uma série de efeitos em escala. Um efeito dominó, inclusive. O mundo está atravessando um período de dificuldade de abastecimento das cadeias globais de produção por causa das restrições impostas pela pandemia. Isso acabou gerando desabastecimento em vários lugares do mundo. A guerra na Ucrânia gerou muitos problemas de abastecimento dos combustíveis, que levou para a alta dos preços que estamos vivenciando agora, com uma consequente pressão inflacionária que está se alastrando para o preço dos alimentos, impactando a segurança alimentar no mundo. No caso do Brasil, essa situação está impactando setores econômicos específicos, como o agronegócio. Uma nova situação de contencioso definitivamente abala as estruturas de um mundo que ainda está em um período de lenta recuperação. Entretanto, devemos lembrar que os Estados Unidos e a China são interdependentes economicamente, seja do ponto de vista do mercado, seja dos suprimentos de matérias-primas e os chineses são os detentores da maior quantidade de títulos da dívida pública americana. Isso tem um impacto no mercado financeiro global.

Quanto essa série de crises internacionais pode afetar a capacidade da comunidade internacional de gerenciar tantos cenários?

Essa nova crise revela na verdade como as transformações da distribuição de poder internacional acabam impactando a ordem internacional. Todas as vezes na história em que houve uma mudança do equilíbrio de poder, a dinâmica acabou impactou também a percepção dos interesses compartilhados entre os players e, por consequência, nas estruturas de governança global existentes. Desde os anos 1940 temos a mesma estrutura estabelecida no sistema da ONU e de Bretton Woods, que se tornaram a base das relações internacionais. Só que dos anos 1940 para cá o mundo mudou bastante. Não estamos nem mais em um contexto de bipolaridade nem de unipolaridade. Os Estados Unidos não são mais uma hegemonia incontestável. Nós temos um mundo multipolar de valores heterogêneos, a China está despontando como uma potência interessada em um reequilíbrio. A dificuldade de resposta da comunidade internacional é acompanhada justamente pelo fato de que as estruturas de governança estão se mostrando cada vez mais anacrônicas em relação à própria condição de distribuição de capacidades dentro do sistema. É cada vez mais urgente uma reforma, uma rediscussão, uma readequação dessas estruturas para que elas sejam capazes de apaziguar circunstâncias de conflito e tornar o ambiente internacional mais estável.

A China hoje tem uma capacidade militar muito menor do que os Estados Unidos. Os chineses têm consciência dessa superioridade ou acham que os EUA não vão intervir para proteger Taiwan?

A questão não é apenas a capacidade militar. É claro que dispor dos recursos é um primeiro passo na hora de cogitar ou não um enfrentamento militar. Mas mais do que dispor dos recursos é importante entender se os países têm os incentivos em usar esses recursos e lidar com as consequências que derivam dessa decisão. Então, a pergunta não é se os Estados Unidos têm capacidade de enfrentamento da China, mas se os Estados Unidos têm interesse, condições e se estão do ponto de vista do capital político capazes de lidar com isso como uma prioridade. Se a resposta for não, os recursos militares não adiantam. Nesse momento a pergunta é até que ponto essa declaração de apoio seria acompanhada de medidas efetivas e em que medida os Estados Unidos seriam os playmasters do sistema internacional. Nos últimos anos percebemos que a capacidade, o interesse americano de atuar nesse sentido e arcar com os custo da estabilidade internacional, por assim dizer, foram bastante reduzidos em relação a outros momentos da história contemporânea, pela própria condição dos Estados Unidos nessa nova era. Então, pode ser que os chineses apostem que os Estados Unidos não têm interesse prioritário em lidar com esse tipo de consequência, ainda que tivessem condições de fazê-lo materialmente falando.