Primeira tarefa de Kerry no clima: reestabelecer a credibilidade dos EUA

Para trazer de volta os países céticos para futuras negociações, EUA terão primeiro de mostrar que falam sério sobre reverter o estrago dos últimos quatro anos

Para mostrar ao mundo que os EUA serão uma liderança ambiental mais uma vez, o presidente eleito Joe Biden está focando na força condutora por trás do acordo do clima que o presidente Donald Trump passou quatro anos enfraquecendo.

John Kerry, que foi secretário de Estado no governo de Barack Obama e ajudou a bolar o Acordo do Clima de Paris de 2016, assumirá um posto recém-criado no governo Biden: enviado especial do presidente para mudanças climáticas. A nomeação de Kerry marca a primeira vez em que uma autoridade dedicada a mudanças climáticas terá um assento no Conselho Nacional de Segurança, o que coloca o meio ambiente, em princípio, no centro de toda decisão de política externa. O novo papel pode se revelar um desafio de navegação em termos políticos porque seus poderes são, até aqui, vagos, e Kerry terá de coordená-los com várias agências de todo o governo.

Em 2017, o presidente Trump anunciou a intenção da América de sair do acordo climático de 189 integrantes, que visa limitar o aumento mundial da temperatura a até 2ºC por meio de grandes reduções nas emissões de gases do efeito estufa. Cientistas vêm alertando para o fato de que os impactos profundos do aquecimento global podem aparecer no mais tardar em 2040 e que uma ação rápida para conter as emissões é fundamental. Os EUA saíram oficialmente de Paris em novembro, e o governo Trump vem revogando dezenas de normas e regulamentações ambientais.

Para Kerry trazer de volta os países céticos para futuras negociações ambientais, os EUA terão primeiro de mostrar que falam sério sobre reverter o estrago criado ao longo dos últimos quatro anos, segundo diplomatas e especialistas.

 

Estamos em um momento da História em que temos de fazer algo dramático. A reputação de Kerry em termos globais é bastante impressionante e diz muita coisa sobre a liderança americana. Mas os EUA vão ter de apresentar primeiro seus próprios planos para cuidar do aquecimento global.

Andrew Steer, presidente e executivo-chefe do Instituto de Recursos Mundiais (World Resources Institute, no original em inglês)

Kerry vem trabalhando com a maioria dos nomeados de Biden para a segurança nacional, desde Anthony Blinken, escolhido para o cargo de secretário de Estado, a Jake Sullivan, o nome de Biden para liderar o Conselho Nacional de Segurança. Blinken já foi o vice de Kerry no Departamento de Estado, e os dois terão de lidar com uma sobreposição constante de seus cargos. Uma fonte a par da transição diz que detalhes sobre o tamanho e equipe que Kerry terá para trabalhar ainda não foram  definidos.

Por causa do perfil e ampla experiência de Kerry, “ele terá seus telefonemas atendidos, tanto nacional quanto internacionalmente. Ele já chega com relacionamentos imbutidos”, diz Jared Leopold, cofundador do grupo Evergreen Action e ex-assessor da campanha presidencial de Jay Inslee, governador do Estado de Washington. Kerry “vai estar na mesa para garantir que o tema clima esteja nas reuniões”, diz Leopold, “o que é realmente importante. O clima toca qualquer outro tema, mas em geral o clima é forçado a ficar só na mesa de discussões ambientais”.

Com a previsão de que os republicanos tenham ao menos 50 cadeiras no Senado, Biden talvez tenha de depender fortemente de regulamentações e ordens executivas para cumprir suas metas de descarbonizar o painel elétrico, avançar nas energias renováveis e brecar o desenvolvimento de combustíveis fósseis em solo federal. O governo fará diversos anúncios executivos nos primeiros dias de Biden no cargo que irão reverter ações da era Trump consideradas destrutivas, segundo uma fonte que acompanha de perto a transição. Os EUA também estão cogitando realizar uma cúpula do clima assim que Biden assumir o cargo, e a expectativa é de que funcionários de vários departamentos coloquem o clima no topo de suas prioridades, diz a fonte.

O governo Biden deve se comprometer a cortar emissões em 50% ao longo da próxima década com o objetivo de atingir uma meta de emissões zero até 2050, medida que ainda deixará os EUA atrás de outros países mas seria vista como uma “boa proposta”, diz Steer. Os EUA são responsáveis por cerca de 15% das emissões de dióxido de carbono do planeta, sendo que tem apenas 4% da população.

Além de Kerry, Biden já começou a reunir o time que irá conduzir sua ambiciosa pauta climática e de energia limpa. Gina McCarthy, que chefiou a Agência de Proteção Ambiental no governo Obama, comandará um novo órgão da Casa Branca focado em mudanças climáticas e trabalhará próxima de Kerry, como fez na época de Obama. O regulador ambiental da North Carolina Michael Regan é o indicado de Biden para liderar a APA, e Jennifer Granholm, ex-governadora do Michigan, para tocar o Departamento de Energia. Em um primeiro sinal de quão pesada a ação ambiental será no país, um grupo de indicados para os setores de energia e meio ambiente de Biden está lançando uma campanha de relações públicas para apoiar sua base no Senado à medida que a oposição republicana começa a aumentar.

O próximo governo está de olho em novas regulamentações que podem ter grande impacto nas emissões climáticas americanas, como os critérios poluentes de carros e usinas. “Biden reconhece que nós quitamos um pedaço da conta ambiental no governo Obama, mas também reconhece que temos de avançar muito mais – o mais depressa que conseguirmos”, diz Heather Zichal, ex-assessora ambiental de Obama e que trabalhou anteriormente como diretora legislativa de Kerry. Um acordo bipartidário aprovado pelo Congresso em dezembro para reduzir o uso de hidrofluorocarbonos, um potente gás do efeito estufa usado em sistemas de ar condicionado e refrigerado, é algo tangível que os EUA já podem mostrar para o mundo.

Crucial para Kerry em seu papel global será como atrair países em desenvolvimento em que o desmatamento florestal está descontrolado, da Indonésia ao Brasil. Alguns destes países estão desapontados com a falta de ajuda na questão das vacinas e a ausência de auxílio financeiro durante a pandemia de covid-19. Uma consequência da retirada de Trump do Acordo de Paris é que ele deu a líderes como Jair Bolsonaro, do Brasil, cobertura política para ignorar seus próprios compromissos.

Kerry também terá de trabalhar de perto com a China, uma vez que a confiança entre as duas superpotências vem diminuindo. Nenhum país pode fazer mais para impedir os efeitos catastróficos do aquecimento global do que a China, o maior emissor. O presidente Xi Jinping surpreendeu o mundo em setembro com um compromisso de tornar a China neutra em carbono até 2060, embora o discurso dele no início deste mês em uma cúpula ambiental tenha desiludido grupos ambientais. Ainda que seja improvável que Biden deixe de confrontar a China em temas como direitos humanos e roubo de propriedade intelectual, Kerry talvez tenha de fazer o papel do tira bom com Pequim, já que qualquer ação séria no meio ambiente exige cooperação entre os dois países.

Ao longo da Guerra Fria, nós descobrimos maneiras de trabalhar com a Rússia; ou seja, EUA e China têm de descobrir jeitos de lidar com a destruição global climática.

Sherri Goodman, secretária-geral do Conselho Militar Internacional do Clima e da Segurança

Colocar um oficial-sênior do setor ambiental no Conselho Nacional de Segurança reconhece o que especialistas e os próprios militares da América há tempos vêm alertando: Desde tempestades poderosas que podem atingir instalações militares litorâneas a episódios de falta de água e comida que podem levar a conflitos desde a América Latina ao Oriente Médio, um clima em mutação representa uma ameaça aos interesses americanos internamente e no exterior.

Kerry pode usar os recursos tecnológicos e econômicos dos EUA, além da força diplomática, para convencer países que têm sido menos ousados em suas metas climáticas, como a Índia, a se mexer mais depressa. A fonte que acompanha de perto a transição diz que os EUA planejam recorrer a finanças climáticas e conhecimento técnico para firmar parcerias com países que ainda estão em cima do muro. Ainda assim, fazê-los mudar de ideia não vai ser fácil, diz Zichal.

“Como é possível chegar em uma liderança global e dizer ‘sei que andamos sumidos nos últimos quatros anos, mas estamos de volta de verdade agora, cara!’?”, pergunta ela. “Acho que vai haver um problema de credibilidade.”

Tradução por Fabrício Calado Moreira

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