Ghosn pensou que Cessão do Palácio de Versalhes para festa era presente

O ex-executivo é alvo de uma investigação que apura se a festa no palácio foi um benefício financeiro que ele obteve indevidamente
 (Mohamed Azakir/Reuters)
(Mohamed Azakir/Reuters)
Por ReutersEFE
Publicado em 08/01/2020 às 17:13.

Beirute — Ex-chefe da Nissan-Renault, Carlos Ghosn disse nesta quarta-feira que inicialmente não pagou para realizar uma festa familiar nas dependências do suntuoso Palácio de Versalhes por acreditar que ele estava lhe sendo oferecido de graça.

Ghosn, que no mês passado foi para o Líbano após fugir do Japão, onde estava detido sob fiança e aguardava um julgamento, é alvo de uma investigação separada na França para se determinar se a festa no palácio do Século 17 foi um benefício financeiro que ele obteve indevidamente.

Falando em sua primeira coletiva de imprensa desde sua prisão de novembro de 2018 no Japão, Ghosn disse que acreditou que o uso das dependências do local opulento foi um "gesto comercial" do palácio em troca das reformas patrocinadas pela Renault.

Ghosn disse que mais tarde ficou surpreso ao saber que o uso do edifício do Grand Trianon, localizado no terreno do Palácio de Versalhes, em outubro de 2016 foi cobrado da Renault.

"Catherine Pegard, que é a chefe de Versalhes, me disse 'senhor Ghosn, o senhor é um grande benfeitor, o senhor sabe que de tempos em tempos podemos disponibilizar quartos para nossos grandes amigos. Se o senhor tiver uma festa particular, podemos disponibilizar quartos'. Eu digo, muito obrigado".

Ligações para o escritório de Pegard no Estabelecimento Público do Palácio, que administra Versalhes, não tiveram resposta.

Meses após seu contato com Pegard, Ghosn disse que decidiu realizar a festa de aniversário de 50 anos de sua esposa, Carole, no palácio.

O evento foi organizado por uma empresa, disse ele, que apresentou um documento na coletiva de imprensa de Beirute que disse mostrar que os organizadores listaram o custo de aluguel do edifício como "zero euros".

"Então vocês sabem, quando vejo isso eu digo 'é um gesto comercial'."

Ele descreveu sua surpresa ao descobrir mais tarde que a taxa foi de 50 mil euros e que esta foi deduzida do que ele chamou de "o crédito que a Renault colhe por ser uma patrocinadora de Versalhes".

"Dissemos 'ok, estamos dispostos a pagar'", contou Ghosn. "Pensamos de boa fé que isto era um tipo de gesto comercial."

O inquérito francês foi iniciado depois que a Renault disse em fevereiro de 2019, três meses após a prisão de Ghosn no Japão, que encontrou indícios de que arcou com parte dos gastos da comemoração em uma investigação interna.

Ghosn disse que, se as autoridades legais francesas quiserem falar com ele, está disposto a fazê-lo.

Convocado para depoimento

Ghosn foi convocado pelo procurador-geral do Líbano, Ghasan Oueidat, para prestar depoimento amanhã, devido às autoridades do país terem recebido uma circular vermelha da Interpol sobre o brasileiro, fugitivo da Justiça do Japão.

Segundo a agência de notícias estatal libanesa "ANN", o depoimento também tem relação com "reuniões com oficiais israelenses", pelas quais foi apresentado um processo judicial contra Ghosn no Líbano, país tecnicamente em guerra com Israel.

O anúncio foi feito no mesmo dia em que o executivo fez sua primeira aparição pública em Beirute após fugir do Japão, onde é acusado de irregularidades financeiras.

Em entrevista coletiva na capital libanesa, Ghosn disse que estava "preparado" para comparecer a qualquer tribunal "se for um julgamento justo", questionou o sistema de justiça japonês e denunciou ser vítima de uma "perseguição política" no país asiático.

O ex-executivo declarou que foi alvo de "ataques vergonhosos e contínuos da mídia orquestrados por promotores japoneses e executivos da Nissan" durante sua estada no país, onde considera que "nunca deveria ter sido preso".