A reação na Colômbia à morte de Rincón — e o que diz sobre eleição no país

O falecimento de Rincón foi comentado por uma série de políticos colombianos, às vésperas de eleições presidenciais decisivas, em 29 de maio
Rincón em partida pelo Corinthians: ídolo na Colômbia e no Brasil (Getty Images/MARIE HIPPENMEYER/AFP)
Rincón em partida pelo Corinthians: ídolo na Colômbia e no Brasil (Getty Images/MARIE HIPPENMEYER/AFP)
Por Carolina RiveiraPublicado em 14/04/2022 13:15 | Última atualização em 14/04/2022 14:25Tempo de Leitura: 7 min de leitura

O ex-jogador de futebol colombiano Freddy Rincón morreu na noite de quarta-feira, 13, após um acidente de carro no começo da semana.

Ídolo por sua atuação na seleção colombiana e em vários times pelos quais jogou no Brasil, como Corinthians e Palmeiras, o ex-meia teve o carro atingido por um ônibus em Cáli, na Colômbia. Rincón teve traumatismo craniano e chegou a ser operado, mas não resistiu.

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A confirmação de sua morte cerebral nesta madrugada causa comoção nacional na Colômbia nesta quinta-feira, 14. A prefeitura de Cáli, onde Rincón se projetou para o futebol, decretou luto oficial de três dias, e colocou o estádio do América de Cáli - onde Rincón jogou no começo da carreira - à disposição para o funeral.

Nascido Freddy Eusébio Gustavo Rincón Valencia, em 1966, Rincón parte com 55 anos. O atleta começou a carreira em times colombianos e chegou ao Brasil em 1993, jogando no Palmeiras e depois na Europa, onde atuou por Napoli (da Itália) e Real Madrid (da Espanha). Na volta ao Brasil, se tornaria ídolo no Corinthians.

Além das autoridades locais, o falecimento de Rincón foi comentado por uma série de políticos colombianos, às vésperas de eleições decisivas no país, em 29 de maio.

O pleito presidencial deve ser o mais disputado na Colômbia em duas décadas, com a queda de popularidade do presidente Iván Duque e de seu grupo de direita, e a liderança inédita de um candidato de oposição.

Nas falas dos políticos, momentos de Rincón sobretudo com a seleção colombiana foram lembrados. O meia disputou três Copas do Mundo pela Colômbia, no que é considerada uma das melhores gerações da história do futebol colombiano. 

O presidente Iván Duque ofereceu condolências a familiares e amigos de Rincón nesta quinta-feira. "Freddy Rincón foi e será sempre um ídolo do futebol colombiano. Obrigada Freddy por toda essa magia e força em campo e que nos inspirou e encheu de momentos inesquecíveis", escreveu.

Mentor político de Duque, o ex-presidente Álvaro Uribe, também se manifestou. "Causa muita tristeza a partida de Freddy Rincón, gerou tantos momentos de expectativas, emoções, alegrias", disse.

O candidato de oposição e senador, Gustavo Petro, também falou sobre os feitos do jogador e seu simbolismo para a população colombiana: "Que lamentável a morte de Fredy Rincón. Que a tamanha alegria deixada para o povo da Colômbia lhe acompanhe em sua viagem." Aos 61 anos, Petro lidera em intenções de voto, sendo o principal candidato de esquerda à presidência e ferrenho opositor dos governos Uribe e Duque.

Já um candidato da "terceira via" colombiana, Sergio Fajardo, lembrou o histórico gol feito por Rincón contra a Alemanha na Copa de 1990, tido como um dos principais tentos da história da Colômbia e da carreira de Rincón. Era a primeira Copa que a seleção colombiana disputava após 28 anos, enquanto a Alemanha era uma das melhores seleções do torneio - e viria a ser campeã naquele ano.

"Fredy Rincón, 19 de junho de 1990: o gol mais importante, e bonito, da história da Colômbia. Para sempre em nossos corações. Obrigada. Descanse em paz", escreveu Fajardo.

Correndo por fora na disputa presidencial, em quarto nas pesquisas, Fajardo é visto como centrista e diz ser o único candidato "independente" da disputa. Ele é matemático e ex-prefeito de Medellín entre 2004 e 2007, quando foi elogiado por políticas de segurança e revitalização urbana da cidade, antigo centro do cartel do narcotraficante Pablo Escobar.

O que esperar das eleições na Colômbia

A Colômbia é comanda pelo grupo político do ex-presidente Álvaro Uribe há duas décadas. Uribe presidiu o país entre 2002 e 2010, em um período que ficou sobretudo marcado por uma guerra frontal contra as guerrilhas na selva colombiana — pelo que o ex-mandatário carrega até hoje uma extensa legião de defensores, mas também de muitos críticos.

Depois, Uribe elegeu seu sucessor escolhido, Juan Manuel Santos (2010-2018), com quem romperia mais tarde por um acordo de paz com as Farc que rendeu a Santos o prêmio Nobel da Paz. Uribe voltaria então a eleger seu candidato na eleição seguinte, em 2018, quando Iván Duque foi o vencedor. 

Mas, desta vez, a baixa popularidade de Duque fez com que o grupo de Uribe não tenha um candidato no páreo. O vácuo deixa a eleição presidencial na Colômbia embolada como poucas vezes nas últimas décadas.

As pesquisas, por ora, dão liderança a Petro: o candidato do Pacto Histórico tem pouco mais de 30% de intenção de voto, à frente do direitista Federico "Fico" Gutiérrez, com cerca de 20%. Fico Gutiérrez tem apoio indireto de Uribe, embora não seja o candidato oficial do ex-presidente.

Atrás com entre 9% e 12% dos votos vêm Rodolfo Hernández, um empresário e ex-prefeito que defende medidas liberais e é opositor especialmente de Petro. (Hernández não fez declarações publicas sobre Rincón até o fechamento desta reportagem.)

Em quarto está o centrista Sergio Fajardo, com entre 8% e 10% dos votos. O grupo de indecisos e nulos pode passar de 15% a depender das pesquisas.

Petro e sua candidata a vice, Francia Marquez, ao anunciar candidatura: liderança nas pesquisas após desgaste de governos de direita (Sebastian Barros/NurPhoto/Getty Images)

Favorito para disputar o segundo turno com Petro, Gutiérrez pode ser prejudicado como resquício das críticas à direita na Colômbia após os protestos que tomaram o país em 2021 e, antes disso, em 2019, na chamada "primavera colombiana".

O governo Duque foi criticado pela violência policial, com mais de 60 mortos em todo o país, a maioria civis.

Petro defende pautas como redução da dependência colombiana do carvão, investimento em energias renováveis e promete redução de desigualdades com tributação mais rigorosa sobre os mais ricos. A política tributária pesada para a classe média e não para os mais ricos foi um dos pontos centrais dos protestos do ano passado, que começaram após uma proposta de reforma tributária do governo Duque.

As propostas do senador de esquerda - que no passado foi guerrilheiro das Farc e é visto como uma "esquerda mais palatável" dentro dos ex-defensores do grupo - vão em linha com nomes como o presidente do Chile, Gabriel Boric. Petro visitou Boric na posse do novo presidente chileno neste ano, e Boric disse que espera poder colaborar com Petro se o colombiano for eleito.

O grupo de Petro foi o grande vitorioso das eleições legislativas da Colômbia realizadas neste ano. A aliança Pacto Histórico, liderada por Petro, empatou com os conservadores e liberais em força no Senado e na Câmara, um resultado sem precedentes na história recente.

Apesar da vitória legislativa, a missão da oposição na eleição presidencial será difícil. Petro já havia aparecido como promessa nas eleições de 2018, mas terminou derrotado pelo atual presidente Duque. A direita comanda a Colômbia desde os anos 2000 e o país é visto como altamente conservador nos costumes.

Serão meses agitados no país: após o primeiro turno em maio, o próximo presidente será eleito em 19 de junho, para um mandato de quatro anos. Mas nesta quinta-feira, o foco na Colômbia - mesmo na política - é lamentar a perda de um de seus maiores ídolos.