Uribe, ex-presidente da Colômbia: direita não pode esquecer do social

EXCLUSIVO: ex-presidente da Colômbia entre 2002 e 2010, Álvaro Uribe falou à EXAME sobre a retomada econômica, sua oposição ao acordo com as FARC e o papel da direita na América Latina

Álvaro Uribe: crescimento não basta sem combate à pobreza

Álvaro Uribe: crescimento não basta sem combate à pobreza (Tomas Ayuso/Bloomberg/Getty Images)

Nos anos 2000, Álvaro Uribe chegou a ser o presidente mais popular da América Latina. Um dos principais nomes da direita na região, o político comandou a Colômbia entre 2002 e 2010, em um dos melhores momentos econômicos do país, impulsionado pelo crescimento geral latino-americano. Seu governo ficou sobretudo marcado por uma guerra frontal contra as guerrilhas na selva colombiana — pelo que carrega até hoje uma extensa legião de defensores, mas também de muitos críticos.

Abordando temas como a retomada econômica, os recentes protestos na Colômbia e a preservação da Amazônia, Uribe concedeu entrevista à EXAME dias antes de participar nesta sexta-feira, 17, do "Fórum Liberdade e Democracia", organizado pelo Instituto de Formação de Líderes de São Paulo.

O colombiano falará, por videoconferência, em painel sobre o futuro da América Latina ao lado do ex-presidente brasileiro Michel Temer.

Uma década depois de deixar o poder, Uribe mantém sua crítica ferrenha ao acordo de paz com as FARC, que rendeu ao sucessor e ex-aliado Juan Manuel Santos (2010-2018) o prêmio Nobel da Paz. "Em nome da paz, como disseram, deram impunidade absoluta a grupos terroristas, e o que isso fez foi criar mais violência", diz.

Enquanto isso, no momento mais difícil do atual presidente Iván Duque, que Uribe ajudou a eleger, seu grupo político tem sido criticado pela violência policial nos protestos deste ano — que começaram por uma reforma tributária que aumentaria impostos de forma pouco progressiva, e se ampliaram para pautas como desemprego e desmilitarização da polícia. Os atos deixaram mais de 60 mortos, a maioria civis.

Como o Brasil, a Colômbia irá às urnas em 2022. Uribe admite que "podem ter havido" erros na condução da crise, mas acusa grupos que chama de "neocomunistas" de inflar a violência para ganhar a eleição.

Em uma breve autocrítica, no entanto, aponta que o combate à pobreza precisa ser prioridade, e que o crescimento por si só não basta. "A maior dificuldade, para uma democracia, é ter níveis de pobreza de 42,5% como tem a Colômbia por causa desta pandemia", diz, mas defende que a recuperação econômica está acontecendo "em V" no governo Duque, após queda de 6,8% do PIB no ano passado.

"É preciso mostrar simultaneamente que a economia está crescendo e que as políticas sociais estão avançando."

Também no ano passado, em meio à pandemia, Uribe ficou em prisão domiciliar preventiva por quase dois meses, acusado de manipular testemunhas contra um adversário político. O ex-presidente foi liberado por falta de provas e acusa falhas no processo, mas o caso o fez renunciar à sua cadeira no Senado, que ocupava desde 2014.

Tendo sido chamado de "herói" pelo deputado Eduardo Bolsonaro por sua posição sobre as FARC, Uribe diz que não teve oportunidade de conversar com o presidente Jair Bolsonaro. Na outra ponta, em posição relativamente oposta à do brasileiro, o colombiano é mais categórico sobre a Amazônia, que ocupa 40% do território da Colômbia: defende o "uso científico" da floresta e incentivo ao turismo, mas "nada de destruição". Veja abaixo os principais trechos da entrevista.


A pandemia impactou imensamente os países da América Latina, que já vinham em crise antes. Quais são os principais desafios para a retomada?
A verdade é que na Colômbia a economia cresceu muito até 2012, 2013. Depois disso, colocaram impostos excessivos, acabaram com estímulos aos investimentos, o gasto público e a burocracia cresceram muito, aumentou o narcotráfico, a violência e a corrupção. E isso freou o crescimento. Quando o presidente Duque chegou em 2018, baixou os impostos, tomou decisões que reconstruíram a confiança para investimentos, a economia cresceu bem até fevereiro de 2020. E então veio a pandemia. O governo tomou medidas sociais que ajudaram, mas apesar disso a pobreza subiu. Os impostos estavam aqui [diz, mirando o alto], antes da pandemia o governo Duque os abaixou, e agora está subindo um pouco para ampliar as políticas sociais. Acredito que [o plano] está bem equilibrado. A economia colombiana está em uma retomada em V, mas que esperamos que se traduza em redução da pobreza.

Vivemos uma dicotomia entre excesso de liquidez nos mercados globais, mas falta de perspectiva para os mais pobres em muitas partes do mundo. Quais saídas o senhor enxerga?
Primeiro, o governo da Colômbia está trabalhando com educação gratuita para os mais pobres. Segundo, o desemprego cresceu muito, está acima de 23%. O governo está subsidiando emprego a mais de 500.000 jovens, e há uma série de estímulos a empreendimentos. Eu diria que essas são as políticas mais importantes: orientadas a emprego, empreendedorismo e aos jovens. O governo também está subsidiando as pequenas empresas, para recuperar os níveis de emprego.

Há muitos que são contra os subsídios. Mas a teoria econômica e social aponta que para superar grandes dificuldades não há opção. Porque a maior dificuldade, para uma democracia, é ter níveis de pobreza de 42,5% como tem a Colômbia hoje por causa desta pandemia.

Na época de seu mandato, havia uma grande expectativa sobre toda a América Latina. O que deu errado?
Eu diria que para a Colômbia o que deu errado foi que o governo que elegemos em 2010 pegou nossas teses e as abandonou. [O governo Santos] Fez uma aliança com Venezuela, com Cuba, deram impunidade às FARC. Em nome da paz, como disseram, deram impunidade absoluta a grupos terroristas, e o que isso fez foi criar mais violência. Eliminaram programas importantes para a selva. O governo anterior também subiu muitos os impostos, aumentou a corrupção, e freou a redução da pobreza ao desacelerar o investimento e a economia.

 (Arte/Flourish/Exame)

Como vê a relação entre Brasil e Colômbia hoje? 
Quando era presidente, buscamos muita integração com o Brasil e com o Mercosul. Nossos dois países têm mais de 1.600 quilômetros de fronteira, a Colômbia tem 50 milhões de habitantes, tem uma economia muito dinâmica. Acredito que essa integração é muito importante, e nós sempre a defendemos, em toda a América Latina. No entanto, há grupos que renegam os valores democráticos, prejudicam a integração e tratam de impor ideologias, como é o caso da Venezuela.

O Mercosul tem perdido força nos últimos anos. O senhor avalia que essa integração se dará por meio dos blocos?
O Mercosul é um passo bom de vocês [do Brasil] com os países do Sul, é um instrumento para conseguir integração. Integrações multilaterais são importantes, como do Mercosul com a comunidade andina, entre outros. Mas também devemos avançar, quando tivermos de fazê-lo, nas relações bilaterais.

A região teve uma onda de direita nos últimos anos, e depois nomes de esquerda voltaram a crescer. Por outro lado, Alberto Fernández perdeu as primárias na Argentina no fim de semana. A direita falhou em responder aos anseios da população, ou o senhor acredita que a insatisfação é com qualquer que seja o governo no poder?
Acredito que há um desafio para nossas democracias, que é garantir a segurança. A segurança é um valor democrático. Outro é garantir a confiança às empresas privadas e um crescimento permanente. E há o desafio de resolver os problemas sociais. É preciso mostrar simultaneamente que a economia está crescendo, e ao mesmo tempo que as políticas sociais estão avançando. Pretender ter somente um crescimento das empresas sem que seja acompanhado de uma política social causa dano à democracia. Mas essas economias de distribuição, que só miram o social, e não apoiam a empresa privada, também terminam fracassadas. Acredito que agora é o desafio que a Argentina tem, pelo resultado do fim de semana. Como recuperar a confiança ao investimento e os setores sociais. E esse é um enorme desafio.

No caso da Colômbia, a crise política se intensificou com os protestos nos últimos anos. O senhor avalia que o governo cometeu erros na condução dessa crise?
Podem ter havido [erros]. Mas grupos violentos ameaçam o presidente Duque desde que ele foi eleito. Fizeram protestos violentos em 2019, e neste ano incrementaram esses protestos. Eu acredito que houve razões para protestar e que precisam ser respeitadas, mas [houve] violência que é preciso enfrentar. A pobreza subiu, e houve setores que estavam em desacordo com a proposta tributária que apresentou o ministro da Fazenda, isso gerou muita insatisfação. Mas ao mesmo tempo em que temos que prestar satisfação sobre essa situação, houve uma grande violência, estimulada pelo narcotráfico, e para que o neocomunismo e seus aliados ganhem as eleições de 2022.

A revolta popular na Colômbia que chega à segunda semana iniciou como oposição à reforma tributária que propôs o aumento da arrecadação do governo Reforma tributária gerou protestos na Colômbia, que depois se ampliaram para temas como a pobreza e a violência policial

Reforma tributária gerou protestos na Colômbia, que depois se ampliaram para temas como a pobreza e a violência policial (Daniel Munoz/AFP/Getty Images)

Com relação ao meio-ambiente, Colômbia e o Brasil têm uma fatia importante da Amazônia. Como vê o tema da crise climática e o papel do desenvolvimento sustentável?
É preciso preservar essa selva, preservar seus rios, sua fauna, sua flora, o compromisso com o planeta. Vocês no Brasil têm 40% da Amazônia. A Colômbia é um país muito pequeno perto do Brasil, embora muito grande e populoso no contexto latino-americano. E 40% do território da Colômbia está na Amazônia. Nos cabe preservar essa floresta. Temos que buscar renda para os cidadãos de modo que não destruam o meio-ambiente, pagar os cidadãos pelo cuidado com a floresta, estimular o turismo ambiental, estimular o uso científico da floresta. Mas nada de destruição. O planeta tem que entender que um recurso como a selva amazônica, o pulmão do mundo, e um recurso como a água - América do Sul e América Central têm muito da água doce do planeta - têm de ser preservados.

O senhor falou com o presidente Bolsonaro no Brasil sobre esses ou outros temas?
Não, não tive a oportunidade de falar com o presidente Bolsonaro.


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