Por que o dólar não deve bater os R$ 6? A Exame Research explica

O arrefecimento da pandemia do novo coronavírus deve enfraquecer a moeda enquanto o mercado busca sinais de controle das contas públicas no Brasil

O dólar atingiu neste ano patamares que os especialistas não anteviram, chegando a ficar a 1 centavo de bater os 6 reais pela primeira vez na história. Mas, embora a pandemia do novo coronavírus ainda esteja fora de controle no Brasil e a tensão política siga elevada, dificilmente a moeda americana vai voltar a flertar com os 6 reais. É o que apontam as projeções da Exame Research, unidade de análise econômica e de investimentos da EXAME.

De acordo a Exame Research, a forte alta que empurrou o dólar para 5,99 reais em maio é típica de momentos de grande estresse no mercado financeiro. Movimentos semelhantes também foram observados no segundo mandato de Dima Rousseff como presidente, entre 2015 e 2016, na crise financeira internacional causada pelos calotes de hipotecas de alto risco nos Estados Unidos em 2008 e nas eleições presidenciais brasileiras de 2002, enquanto o ex-sindicalista Luiz Inácio Lula da Silva, visto como ameaça ao livre mercado, caminhava para a vitória.

Relatório Exame Research: "Dólar – Entendendo a volatilidade e a tendência para os próximos meses" – jun/2020 Leia o relatório da Exame Research sobre os rumos do dólar

Leia o relatório da Exame Research sobre os rumos do dólar (Research/Exame)

“Nos últimos episódios de movimento extremo da nossa moeda, há um estágio comum de forte depreciação seguido de um segundo estágio de apreciação e estabilização”, dizem o economista Arthur Mota e o diretor da Exame Research, Renato Mimica, em relatório.

Segundo Mota, parte desse movimento tem explicação psicológica. “Depois do pânico no início de uma crise, vem uma redução de incertezas, porque começa a se entender melhor a situação e suas consequências, o que diminui a volatilidade do câmbio e a irracionalidade”, diz o economista.

A equipe da Exame Research também espera que o trilionário pacote de estímulos à economia do Federal Reserve, o banco central americano, e o maior apetite global por risco após o pico da pandemia da infecção respiratória covid-19 devem fazer com que o dólar perca força em todo o mundo.

A desvalorização da moeda americana já tem sido observada no índice DXY, da bolsa New York Board of Trade, que é referência mundial e mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de algumas das moedas mais negociadas do mundo, como a libra esterlina, o euro e o iene. Desde que atingiu o pico, em março, o índice já caiu mais de 5%.

Além do cenário global favorável, fatores nacionais também podem servir para impedir uma valorização mais forte do dólar frente ao real. Um deles está nas transações correntes do país, que registram as operações feitas com o exterior.

Segundo a Exame Research, três tendências das transações devem favorecer o real: a redução do volume de importações, em razão da valorização do câmbio e da menor demanda; a diminuição das viagens internacionais feitas pelos brasileiros, com as restrições decorrentes da pandemia e do dólar mais caro; e os cortes nas remessas de lucros e dividendos para as matrizes das multinacionais que operam no país.

“Quando o câmbio está mais depreciado há menos estímulos para a importação. Então, as transações correntes, que normalmente são deficitárias, começam a ficar superavitárias, permitindo a entrada de recursos na economia e, portanto, gerando a apreciação do real”, explica Mota.

A expectativa da Exame Research é a de que o real se valorize ao longo do segundo semestre. Mas, embora seus analistas não vejam o dólar se aproximando 6 reais, também não esperam que a moeda retorne ao patamar do início do ano, próximo dos 4 reais.

Pelas projeções, feitas a partir de três cenários, o dólar deve terminar o ano vendido a 4,80 reais, caso haja mais clareza de que as privatizações de empresas estatais e as reformas econômicas sairão do papel. No pior cenário, que inclui a deterioração das contas públicas junto com um prolongamento da pandemia, o dólar encerraria 2020 a 5,80 reais. Já no cenário base, que considera a menor aversão global ao risco mas não contempla sinais de avanços na agenda fiscal, a moeda americana terminaria cotada a 5 reais.

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