Pare de investir nos ‘vencedores’

Olhar para as janelas de rentabilidade passada e ordenar os fundos por rendimento para tentar atestar a sua qualidade é uma das maiores armadilhas do mercado
Olhar para a rentabilidade passada não pode ser determinante para a escolha de um ativo | Foto: Thinkstock (Foto/Thinkstock)
Olhar para a rentabilidade passada não pode ser determinante para a escolha de um ativo | Foto: Thinkstock (Foto/Thinkstock)
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Juliana Machado*

Publicado em 14/10/2021 às 08:35.

Última atualização em 03/12/2021 às 00:59.

Como analisar as janelas de retorno passado dos fundos de investimento (e investimentos no geral)? Embora a advertência “retorno passado não é garantia de retorno futuro” ilustre praticamente todas as páginas em que o assunto é investimento, o primeiro ímpeto da maioria das pessoas é justamente olhar para as janelas de rentabilidade passada e ordenar os fundos por rendimento para tentar atestar a sua qualidade – uma das maiores armadilhas (senão a pior) do mercado financeiro.

O que fazer, então?

O primeiro passo é começar a se questionar quem são os “vencedores”. Ao longo do ano, rankings de fundos com melhor desempenho do mês, do trimestre, do semestre, do ano pipocam em diversos sites. Não vou questionar o valor jornalístico ou informativo desse tipo de publicação – ele existe –, apenas lembrar que investidores não devem considerar toda informação como base para a tomada de decisões de investimento. É muito mais provável que o processo de investimento esteja falho quando a decisão começa a ser guiada por fatores dessa natureza.

O retorno passado é uma realidade. Ele não é fruto da imaginação. A questão é que uma janela passada é somente um recorte muito específico de um momento cujas exatas características simplesmente não existem mais e que certamente não vão se repetir da mesma maneira. Ainda que todas as condições de temperatura e pressão permanecessem idênticas, esse laboratório chamado mercado financeiro conta com uma infinidade de variáveis impossíveis de controlar e reproduzir, de modo que somente olhar para o passado cru de qualquer ativo vai induzir o investidor ao erro.

É por isso que a melhor maneira de começar a observar o retorno passado de qualquer tipo de investimento é analisando diversas janelas de tempo, preferencialmente acima de seis meses, sempre comparadas com pares de estratégia/natureza semelhante e com o chamado custo de oportunidade. Para um multimercado macro, que opera todas as classes de ativos, o custo de oportunidade é em geral medido pelo CDI – é o rendimento mínimo que eu espero de um fundo para justificar a tomada de risco nele. Para um fundo de ações, pode-se utilizar o Ibovespa. O importante é que o investidor esgote as possibilidades de análise em várias janelas para tentar montar o filme da vida de um produto ao invés de ficar olhando a fotografia de um momento.

O que costuma incomodar os investidores é que fazer uma análise desse tipo, além de trabalhosa, costuma apontar para fundos que não são os melhores segundo algum ranking ou algum amigo ou algum influencer das redes. Acontece que, no mercado financeiro, não é possível ganhar sem estar preparado para perder. É por isso que, durante o processo de investimento, o investidor deve gastar mais energia medindo o tamanho da sua capacidade de tolerar perdas (e as formas de dosá-la) ao invés de tentar acertar o próximo líder.

Quem investe sabe que o objetivo não é estar necessariamente no topo. Ser um dos melhores fundos da década, façanha que casas como Velt, Bogari, Constellation, Brasil Capital, Dynamo conseguiram, é o resultado de um processo, não a sua causa. Vivemos uma era de inversão de valores...

Lembre-se: o tempo passa, os vencedores mudam. Nem mesmo o melhor dos gestores e dos analistas ficará sempre entre os vencedores. Quem investe está, antes de tudo, trabalhando com consistência e sobrevivência. Até porque, quem investe nem quer que o jogo acabe. Afinal, o objetivo é continuar sempre na disputa.

Espero ver você em dez anos.

*Juliana Machado é analista CNPI e integra o time de análise de fundos de investimento do BTG Pactual digital. É jornalista formada pelo Mackenzie, com pós-graduação em economia brasileira pela Fipe-USP. Atuou com análise e seleção de fundos de investimento na EXAME e escreveu por quatro anos para o Valor Econômico, nas áreas de governança corporativa e bolsa de valores. Escreve para a EXAME Invest quinzenalmente.