Mercados

Ibovespa flerta com circuit breaker e cai mais de 5% com saída de Moro

Ex-ministro da Justiça cita quebra da promessa de "carta branca" feita pelo presidente Jair Bolsonaro e interferência política

Ibovespa perde a marca dos 110.000 pontos e volta a patamar de novembro de 2020 (Amanda Perobelli/Reuters)

Ibovespa perde a marca dos 110.000 pontos e volta a patamar de novembro de 2020 (Amanda Perobelli/Reuters)

GG

Guilherme Guilherme

Publicado em 24 de abril de 2020 às 17h20.

Última atualização em 24 de abril de 2020 às 17h28.

A bolsa de valores brasileira fechou em forte queda nesta sexta-feira, 24, após Sérgio Moro confirmar sua saída do ministério da Justiça, aprofundando a grave crise política pela qual passa o país. O Ibovespa, principal índice acionário brasileiro, recuou 5,45%, para 75.330,61 pontos. Pouco após o discurso de Moro, a bolsa chegou a cair 9,58%, pouco menos que os 10% de queda necessários para ativar o circuit breaker, mecanismo que interrompe as negociações por 30 minutos.

Em entrevista coletiva à imprensa em Brasília hoje, Moro disse que a demissão, pelo presidente Jair Bolsonaro, do diretor geral da Polícia Federal Maurício Valeixo configura interferência política, e que prefere deixar o governo para preservar a sua biografia. A possibilidade de Moro sair do governo vinha sendo aventada desde ontem, quando Bolsonaro o avisou da intenção de trocar o comando da Polícia Federal. Nesta sexta, Valeixo, homem de confiança de Moro, teve sua exoneração confirmada. “Não era uma questão do nome. O grande problema de realizar a troca é que seria a violação da promessa que me foi feita [a de que teria carta branca]. Não tinha razão [para a troca] e ficaria claro que teria uma interferência política na Polícia Federal. Isso não foi feito nem durante a Lava Jato", disse Moro.

O agora ex-ministro da Justiça era um dos pilares de sustentação do governo, por, desde a campanha eleitoral de 2018, emprestar a sua credibilidade de líder da Lava Jato ao discurso de Bolsonaro de que pretendia acabar com a corrupção no país. Moro não só saiu como escancarou a fragilidade desse discurso.

Agora, o mercado financeiro teme que o outro grande sustentáculo do governo, o ministro da Economia, Paulo Guedes, também saia. Nesta semana, a Casa Civil anunciou um plano de recuperação da atividade após a crise do novo coronavírus, mas ninguém da equipe de Guedes estava presente.

“Neste momento de crise, muitas trocas já são preocupantes, ainda mais de nomes fortes como [Luiz Henrique] Mandetta e Moro”, comentou André Perfeito, economista-chefe da Necton. Para ele, a disponibilidade que o presidente Bolsonaro tem demonstrado em cortar ministros relevantes de seu governo é uma ameaça também a Guedes.

“O mercado fica com receio de até o Guedes estar fragilizado. O Pró-Brasil [também conhecido como ‘Plano Marshall brasileiro’], que organizaram sem o aval do ministério da Economia, aumenta as incertezas”, disse. 

O mercado tem visto com grande cautela a saída de ministros com popularidades elevadas. “O isolamento do presidente está ficando cada vez mais em evidência. Isso acaba tornando-o mais frágil aos acontecimentos que podem ocorrer, como um impeachment”, disse Ilan Arbetman, analista da Ativa Investimentos.

Em contraponto ao Ibovespa, o risco país subiu nesta sexta-feira. De manhã, o credit default swap (CDS) - papel que funciona como um seguro contra o calote de países - era negociado a 330 pontos e, após o pedido de demissão de Moro, passou para 358 pontos. "O anúncio pega de surpresa o mundo inteiro, pois ele era um dos alicerces do governo. O aumento do CDS, a queda do Ibovespa e a alta do dólar mostram o desagrado do mercado. Fica no ar agora a situação de Paulo Guedes", diz Pablo Spyer, diretor da Mirae Asset.

Apesar da turbulência políticas no Brasil, as bolsas dos Estados Unidos seguiam trajetória de alta, após ser aprovado pela Câmara o estímulo fiscal de 484 bilhões de dólares, que devem ser destinados a hospitais e pequenas empresas. Os dados americanos de encomenda de bens duráveis referentes ao mês de março vieram melhores do que as expectativas e ajudam a endossar o otimismo no exterior. O índice S&P 500 teve alta de 1,4%.

Acompanhe tudo sobre:bolsas-de-valoresCDSGoverno BolsonaroIbovespaJair BolsonaroSergio Moro

Mais de Mercados

"Se Lula indicar nome pior que Galípolo para o BC, o mercado entrará em pânico", diz Marilia Fontes

Ibovespa sobe e fecha acima dos 121 mil pontos com ajuda de Petrobras (PETR4) e Itaú (ITUB4)

PMIs da zona do euro e dos EUA, repercussão de falas do Lula e Sabesp: o que move o mercado

Elon Musk vai receber bônus de R$ 305 bilhões como remuneração de acionistas da Tesla

Mais na Exame